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10/04/2014 14:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

7 lições de vida que as palavras não conseguem descrever (pelo menos não em todas as línguas)

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O filósofo Ludwig Wittgenstein disse certa vez¨ “Os limites de minha língua são os limites de meu mundo”.

A ciência confirma: a língua molda nossa realidade, sim. Podemos não ter consciência de que como ela afeta nossos processos mentais, mas ela exerce um papel enorme e ainda não plenamente compreendido no modo em que estruturamos e conceitualizamos o mundo que nos cerca.

Há inúmeras maneiras em que as diferentes línguas refletem perspectivas diversas sobre o mundo. Todos já ouvimos dizer que os esquimós têm 50 palavras diferentes para descrever a neve, e é interessante que a palavra inglesa “fairness” [para descrever o que é justo ou correto] não parece existir em outros idiomas. O economista Bart Wilson descreveu “fairness” como um conceito singularmente anglo-americano que possui “bagagem histórica” e não corresponde exatamente à igualdade ou à correção moral. E alguns pesquisadores sugerem que línguas em que as palavras têm gênero podem moldar o modo como as pessoas encaram os objetos do cotidiano.

A popularidade das tatuagens de caracteres chineses ou palavras em sânscrito talvez seja um indício de nosso desejo de fugir das limitações de nossa língua, adotando palavras que fazem parte de outra e que, de alguma maneira, não são a mesma coisa quando traduzidas para nosso idioma. Essas palavras possuem o potencial de abrir para nós toda uma nova maneira de enxergar as coisas.

A seguir, sete palavras intraduzíveis que revelam verdades fundamentais sobre a existência humana -- e podem nos ensinar a viver melhor.

O destemor é mais que a simples ausência de medo.

Abhaya, uma palavra em sânscrito que significa destemor e proteção, é simbolizada pelo mudra (gesto de mão) mostrado acima, com uma mão erguida e uma palma no colo, voltada para cima. O termo sugere que ser destemido é decorrência de ter fé -- saber que você é e sempre será protegido e que as coisas acabarão bem devido à sua fé em que, nas palavras de Rumi, “tudo sempre é orquestrado para ser a seu favor”.

O Bhagavad Gita descreve o destemor como uma das 26 qualidades divinas do Senhor Krishna. No Gita, Krishna aconselha o jovem guerreiro Arjuna: “Seja destemido e puro; nunca vacile em sua determinação ou sua dedicação à vida espiritual”.

Em muitas tradições, a fé -- quer seja religiosa, espiritual ou simplesmente a fé em que tudo acabará se resolvendo -- é de fato um antídoto secular ao medo e à ansiedade. Pesquisas vinculam a espiritualidade a níveis mais baixos de estresse e funcionamento melhor do sistema imunológico, enquanto a oração é associada à redução da depressão e ansiedade.

Crise e oportunidade são dois lados da mesma moeda.

(Escrita em chinês, a palavra “crise” é composta de dois caracteres. Um representa perigo e o outro representa oportunidade.)

O caractere chinês de “crise”, que combina os caracteres de “perigo” e “oportunidade”, aponta para uma verdade atemporal da qual nos esquecemos com frequência: são os desafios e obstáculos que nos fazem ser quem somos e que muitas vezes nos levam às maiores alegrias e conquistas.

Embora alguns argumentem que “oportunidade” não é a melhor tradução possível do caractere jei (cujo significado seria mais semelhante a “ponto de virada” ou “ponto crítico”), fica claro que a tradução “oportunidade” ganhou aceitação, porque as pessoas entendem a verdade que ela expressa.

Precisamos nos amar para podermos amar aos outros.

Com frequência nos dizem que, para podermos amar outro, precisamos primeiro amar a nós mesmos. É uma verdade observada muito tempo atrás por Aristóteles ao comentar sobre a palavra “philia”, um dos três termos do grego antigo que designavam o amor, em Ética a Nicômaco. Os gregos antigos e o vocabulário deles podem nos ajudar a compreender melhor os vários tipos de amor que sentimos.

Enquanto eros significa o amor erótico ou romântico e agape indica o amor divino ou incondicional, philia é mais difícil de traduzir. O termo é definido aproximadamente como amizade ou boa vontade; pode denotar o laço que une amigos, familiares ou membros de uma comunidade. Mas está mais ligado à apreciação verdadeira dos outros, algo que Aristóteles considerava que só pode nascer do amor por si mesmo. Para Aristóteles, o verdadeiro amigo é outro eu; logo, o homem precisa amar seu próprio eu para poder amar seu amigo.

Se você muda seu modo de pensar, pode mudar sua vida.

O vritti, palavra em sânscrito antigo que significa “pensamentos”, pode ser traduzido literalmente como “turbilhão”. Na filosofia iogue antiga, os pensamentos da mente eram vistos como flutuações ou perturbações que nos impedem de estar em paz. A imagem do “turbilhão de pensamentos” é útil e pode nos ajudar a conceitualizar nossos pensamentos de uma maneira nova. Os inúmeros pensamentos que passam por nossa cabeça todos os dias criam ondas emocionais, mas a mente que não é consumida por pensamentos pode se acalmar, como um lago sereno.

Um dos princípios fundamentais dos sutras da ioga, um guia antigo que ensina a serenar a mente, é yogas citta vrtti nirodhah -- a ioga é o acalmar dos pensamentos da mente. Em seu sentido original, ioga significava simplesmente o serenar dos pensamentos, por meio da meditação, oração, da prestação de serviço altruísta ou através de qualquer outro caminho que una o indivíduo ao divino. De acordo com os Sutras, tendemos a nos identificar com essas flutuações constantes, apesar de elas serem inteiramente ilusórias, e isso nos impede de enxergar e existir dentro de nossa natureza verdadeira. Através da meditação, a mente pode se aquietar outra vez.

Podemos nos transformar por meio do amor.

Existe no budismo uma palavra importante, bodhichitta (mente iluminada/compaixão), que, essencialmente, resume como devemos viver e amar se buscamos nos tornar seres mais iluminados. E, para resumir, é o seguinte: ser iluminado é amar ao outro e encarnar a compaixão.

Como escreveu o professor budista americano Pema Chödron no Shambala Sun, não é preciso ser “iluminado” para acessar esse estado de espírito. É um “ponto suave” de bondade que está disponível para nós nos momentos bons e ruins. Quando falou sobre esse conceito poderoso numa palestra que fez na Índia em 2011, o Dalai Lama se dissolveu em lágrimas.

Se perguntássemos a Buda “o que é bodhichitta?”, ele talvez nos dissesse que essa palavra é mais fácil de se entender que de traduzir. Chitta quer dizer “mente” e também “coração” ou “atitude”. Bodhi significa “desperto”, “iluminado” ou “completamente aberto”. Às vezes o coração e mente totalmente abertos do bodhichitta são descritos como o ponto suave, um lugar tão vulnerável e tenro quanto uma ferida aberta. Ele é equacionado, em parte, com nossa capacidade de amar.

O que devemos tirar disso tudo? Que todos possuímos bodhichitta. Podemos optar por amar e permanecermos abertos, mesmo quando passamos por dificuldades. Essa “mente iluminada”, a mente do amor, é na verdade nossa essência mais fundamental.

“A abertura e generosidade do bodhichitta é nossa natureza e condição verdadeira”, escreve Chödrön. “Mesmo quando nossas neuroses nos parecem muito mais básicas que nossa sabedoria, mesmo nos momentos em que nos sentimos mais confusos e sem esperança, o bodhichitta está sempre presente, como o céu aberto que não diminui pela presença de nuvens que o cobrem momentaneamente.”

A arte pode mudar sua vida.

Existe na língua espanhola uma palavra linda que não possui equivalente em inglês: duende, que significa “o pode misterioso da arte para comover profundamente uma pessoa”. O termo foi empregado originalmente para descrever um ser místico, semelhante a uma fada, que vivia na floresta e provocava nos humanos que atravessavam seu caminho um sentimento avassalador de assombro, segundo a Altalang. Mas no início do século 20 o termo foi modernizado por um poeta espanhol, que o usou para descrever o sentimento de assombro e mistério que temos quando nos deparamos com grandes obras de arte.

E é verdade: poucas outras coisas na vida possuem o poder de nos inspirar como fazem a música, pinturas, dança, cinema e outras formas de arte. Como escreveu recentemente em um editorial do Wall Street Journal o filósofo Alain de Botton: “As grandes obras de arte não são apenas para ser expostas”. Para ele, a arte é verdadeiramente “um remédio para a alma”.

Ser “mindful” [consciente] tem a ver com ser compassivo.

Em seu livro lançado recentemente, Thrive: The Third Metric To Redefining Success And Creating A Life Of Well-Being, Wisdom And Wonder, Arianna Huffington fala de como a leitura das palavras de Jon Kabat-Zinn, líder do movimento da meditação para o desenvolvimento da atenção consciente, ajudou a fazê-la entender finalmente o conceito vago de “mindfulness” [consciência plena].

Como disse Kabat-Zinn à TIME Healthland:

“Nas línguas asiáticas a palavra para ‘mente’ e a palavra para ‘coração’ é a mesma. Por isso, se você não entende a ‘mindfulness’ [consciência plena] como sendo, de alguma maneira profunda, um estado de ‘coração consciente’, você não a está entendendo. A compaixão e a bondade com você mesmo estão intrinsecamente envolvidos nisso. Poderíamos visualizar a consciência plena como uma sabedoria plena."

Qual é o primeiro passo para alcançar a consciência plena? Ser gentil com você mesmo e com os outros, algo que requer presença no aqui e agora e consciência focada.