NOTÍCIAS
07/04/2014 08:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Alckmin entra em 2014 com o pé esquerdo: racionamento de água e cartel do metrô podem custar caro

Dario Oliveira/Futura Press/Estadão Conteúdo

O caminho será sinuoso e incerto para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), até as eleições de outubro. O tucano parece ter entrado neste ano de 2014 com o pé esquerdo, vide a crescente ameaça de racionamento de água em São Paulo e o impacto das denúncias do cartel dos trens de SP na cúpula de seu governo. E tem gente querendo capitalizar em cima disso.

A atual situação periclitante do Sistema Cantareira, que abastece quase 50% da população da Grande São Paulo – um contingente de cerca de 20 milhões de pessoas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O sistema atingiu o seu índice mais baixo desde o início da operação (13%) no último fim de semana, e não há previsão de melhora. Muito pelo contrário.

Enquanto a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) garante que Cantareira possui capacidade de fornecimento até agosto – e que obras estão sendo feitas para assegurar o fornecimento por mais tempo –, o novo secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo, Marco Antonio Mroz, disse na semana passada que a Grande São Paulo terá água até setembro, mas “se chover um pouco” pode chegar a outubro.

Pior: em meio a uma série recordes negativos quebrados, já existem relatos de que alguns bairros da capital e municípios da região metropolitana enfrentam períodos de racionamento na semana. Oficialmente, Mroz declarou que “não há consenso” no Palácio dos Bandeirantes sobre a necessidade de racionar água. De sua parte, por mais de uma vez Alckmin declarou textualmente não haver risco de faltar água em São Paulo. A piora na situação justamente no caminho das eleições pode dificultar significativamente a tentativa do governador em se reeleger.

Quem vai capitalizando em cima da crise da água é o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Provável candidato petista ao governo paulista, vem abordando seguidamente o tema em suas visitas a municípios do interior de São Paulo. Por mais de uma vez, Padilha acusou Alckmin de “faltar com sinceridade e franqueza” sobre a questão, apontando ainda a “falta de obras” como explicação fundamental para o problema.

O desgaste com o tema água também fez Alckmin se envolver em polêmicas fora do Estado. Ao sugerir uma obra de R$ 500 milhões para buscar água na bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, o governador comprou briga com o então governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB). O motivo: o Estado fluminense depende quase que integralmente dessas águas para abastecer a sua população e, na falta de estudos complementares para garantir o fornecimento aos cariocas com tal obra sugerida por Alckmin, o discurso foi de confrontar o tucano.

A Agência Nacional das Águas (ANA) aguarda uma solicitação oficial e embasada do governo de São Paulo para analisar a viabilidade de tal obra, a qual só ficaria pronta em 14 meses. Ou seja, até as eleições de outubro, só resta a Alckmin orar para São Pedro mandar as chuvas.

Incômodo com cartel do metrô

Além da crise no abastecimento de água, outro estopim de problemas para Alckmin neste ano atende pela possível instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista (CPMI) no Congresso Nacional. Capitaneada pela base governista, essa comissão pretende investigar, entre outros assuntos, o suposto cartel do metrô paulista. Este assunto já vem sendo alvo de uma investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), ligado ao Ministério da Justiça.

O Cade abriu um processo, no mês passado, para investigar licitações entre 1998 e 2013, envolvendo um total de 18 empresas e 109 funcionários em irregularidades ocorridas em SP, DF, RJ, MG e RS. Na Justiça paulista, o Ministério Público investiga uma série de denúncias também envolvendo a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), com irregularidades datadas ainda nos tempos do governo de outro tucano, Mário Covas, já falecido.

No Congresso, o governo conta com assinaturas suficientes para abertura da CPMI, mas aguarda um parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado para definir a questão, já que existe um outro pedido de CPMI no Congresso, este exclusivo e voltado para apurar irregularidades na Petrobras. A possibilidade de ambas as comissões serem instaladas pode significar mais dor de cabeça para o governador de São Paulo.

Nem mesmo o candidato tucano à Presidência da República, senador Aécio Neves (PSDB-MG), pode se sentir tranquilo com a situação do colega no mais importante Estado do País. Se os rivais conseguirem vincular os erros da gestão Alckmin a um chamado “método PSDB de governar”, os problemas em âmbito nacional também podem atrapalhar o neto do ex-presidente Tancredo Neves na corrida presidencial.