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05/04/2014 10:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Rio de Janeiro: a transformação das favelas em destinos turísticos exóticos

Doug88888/Flickr
Rio favela slum

A cena abre com Gregório Duvivier sentado na traseira de uma caminhão apontando para as muitas peculiaridades das várias favelas do Rio. Nesse vídeo do Porta dos Fundos Duvivier faz o papel de guia turístico, cercado por vários figurantes que seriam estrangeiros curiosos que vieram à cidade explorar a favela.

Rapidamente o espectador entende que esse episódio do Porta dos Fundos tem o propósito de provocar risos com seus exageros ridículos sobre a vida daqueles que vivem em condições mais modestas. O vídeo traz o título ‘Pobre’, e a palavra é repetida inúmeras vezes para enfatizar o ponto do vídeo: A existência de tal tipo de ‘turismo’, ainda que seja para satisfazer a curiosidade de alguns, é no mínimo, questionável e de mal gosto.

Duvivier usa um tom sensacionalista para situações no vídeo como: essa é a maneira que um pobre come, bebe, mora e convive – ao mesmo tempo em que enfatiza que esse tipo de turismo erra totalmente no que diz respeito à essência e às rotinas diárias de eco-sistemas de proporções tão gigantescas e complexas.

Uma postagem recente no blog do Brasil Post por Renato Meirelles, vice-diretor do instituto de pesquisa brasileiro Data Popular, afirma que um total de 11,7 milhões de brasileiros vivem nas populosas favelas do país atualmente. São 11,7 milhões de pessoas cujas vidas estão “inspirando” uma moda turística para entreter estrangeiros, mostrando como vivem esses “outros seres” exóticos. Isso significa reduzir a história de vida de 11,7 milhões de pessoas a um passeio de 30 minutos com vistas interessantes das partes mais seguras e belas das favelas. Talvez o dano irreparável causado por tais “passeios” seja que esses turistas saiam de lá achando que “realmente aprenderam alguma coisa”.

As implicações desses “tours” são preocupantes e aparentemente auto-destrutivas. Qualquer pessoa com o mínimo de compreensão histórica do que é uma favela pode concluir que “experimentar um dia comum” daquele lugar não significa andar pelos morros apreciando as cores vivas e fazendo amizade com as crianças que correm sem camisa e sorridentes por lá.

Vivenciar um dia na favela não significa perguntar ao guia turístico sobre uma “construção inusitada” e como ela consegue ficar em pé daquela maneira. Essas não são moradias alternativas para pessoas com condições financeiras menos favoráveis do que a da maioria da classe media. Essas estruturas são o improviso histórico de um eco-sistema que nasceu da necessidade, da demanda e do instinto humano de sobrevivência.

Favela Experience

Alguns meses atrás, achei por acaso um site chamado Favela Experience. Fiquei pasma ao descobrir que ele oferecia (e ainda oferece) exatamente o que o nome diz – uma experiência na favela. Esse site oferece estadia em uma das favelas do Rio de Janeiro para pessoas vindo ao Brasil durante a Copa do Mundo da FIFA em junho. Antes de chegar às piores conclusões que já começavam a tomar forma na minha cabeça em menos de um minuto, vasculhei o site tentando achar alguma ponto positivo que pudesse aos poucos desfazer o embrulho que sentia no estômago. Até que encontrei alguns:

"Na verdade, praticamos o turismo sustentável pois geramos renda adicional para moradores da favela”. O ‘pois’ aqui é usado como um justificativa muito vaga, mas considerando um sistema em que moradores da favela receberiam uma renda adicional, descobri que nem tudo está perdido.

"Zezinho [um conselheiro contratado da Favela Experience e fundador de uma empresa com proposta similar, a Favela Adventures] só contrata outros moradores da favela como guias”. Fiquei aliviada ao saber que os guias de turismo são moradores da favela – qualquer pessoa de fora certamente não faria jus a essa função.

"A maior parte das tarifas que cobramos vão para as famílias hospedeiras e reinvestimos nossas comissões na expansão do nosso impacto social”. A maior e talvez a mais séria preocupação resume-se na simples pergunta: Para onde vai o dinheiro? Se, como eles afirmam, o dinheiro vai para os moradores da favela, eu posso concordar que esse é um aspecto positivo desse tipo de turismo.

Agora vamos aos pontos negativos, bem mais fáceis de achar

O "verdadeiro" Rio de Janeiro

"Em outros países, as favelas são conhecidas principalmente pelo histórico de violência, drogas e pobreza, que o cinema e a imprensa tem exagerado e sensacionalizado”. As implicações disso, ainda que as vezes sejam exageradas, afetam as favelas brasileiras. Sugerir o contrario é ser ignorante e enganoso.

"Nossas favelas estão localizadas no centro da Zona Sul do Rio de Janeiro”. Essas não são as “suas” favelas. Por “suas” leia-se dois americanos que executam as funções de CEO e gerente operacional da empresa, respectivamente. Essas favelas existem há centenas de anos e a sugestão, por mais sutil e sem segundas intenções que seja, de que um estrangeiro tenha alguma posse sobre elas é francamente um absurdo.

"Durante a Favela Experience, você irá mergulhar no verdadeiro Rio de Janeiro, hospedando-se em algumas das mais fascinantes comunidades do Brasil, sentindo na pele a paixão e vibração das favelas”. O verdadeiro Rio para quem? A forma em que a informação é apresentada nesse site remete às promessas de campanhas políticas que omitem parte da verdade.

Aí então vieram as advertências de segurança:

"Esteja atento ao ambiente ao seu redor sempre”.

"Não faça sexo com menores de idade".

"Não se assuste com os fogos (Os brasileiros amam fazer festa por qualquer coisa!)"

As contradições são tantas e tão dolorosas que não dá para continuar. Como alguém se presta a apresentar as favelas de maneira hiper-sensacional, como uma “comunidade fascinante” livre das drogas e violência para logo em seguida lembrá-lo de que é preciso estar atento ao ambiente ao seu redor o tempo todo? Qual a lógica por trás da afirmação de que “condenamos qualquer tipo de atividade turística que explora, falsamente representa ou ‘objetifica’ as comunidades marginalizadas” e na mesma página aconselha os seus clientes a não fazer sexo com menores de idade? Não é possível ler sobre as realidades da vida na favela em lugar algum do site. As favelas certamente são “comunidades fascinantes”, cheias de vida e beleza até a sua própria essência. Mas elas também são frágeis, complexas, imprevisíveis e problemáticas. E o estrangeiro que está vindo para um simples “intercâmbio cultural” deve estar ciente de tais realidades.

Esse tipo de ‘exotização’ ao mesmo tempo favorece e presta um desserviço aos moradores das comunidades nas favelas. A princípio, parece ser um avanço, oferecendo aos moradores uma renda adicional e uma forma de sustentarem suas famílias que não tenha ligação com a venda de drogas ou de seus próprios corpos. No entanto, a longo-prazo, essa atividade revela-se uma via de mão-única na direção totalmente oposta. Ela incute, ainda que sutilmente, a noção de que a única maneira para os moradores da favela melhorarem de vida é colocarem-se à disposição total de pessoas de fora. Ela cria um dependência no estrangeiro culturalmente ingênuo que espera ser recebido por um morador de favela sorridente e tranquilo. Essa atividade solidifica ainda mais a posição do “outro” com ser exótico dentro de uma visão de mundo onde aqueles com mais dinheiro e acesso cultural podem observar e até chegar a explorar aquele que presumem ser inferior.

Boas intenções, poucas informações

A minha conclusão é a seguinte: a Favela Experience, no cerne de suas operações, pode até ter a melhor das intenções. Digo mais, os moradores das favelas que hospedam e servem de guias turísticos estão super certos em aproveitar uma oportunidade de incrementar sua renda através do trabalho com essa empresa. O problema é que apenas metade das informações pertinentes estão apresentadas no site, apenas a metade agradável. E a maneira em que ela está sendo apresentada não comunica o fato de que existem implicações extremas que podem prejudicar tanto os moradores quanto os estrangeiros vindo para mergulhar no “verdadeiro Rio de Janeiro” na época da Copa do Mundo.

Se você pretende vir ao Rio como turista nessa época, então seja simplesmente um turista. Hospede-se em um hotel, visite os pontos turísticos e os lugares seguros e aproveite essa experiência um pouco menos autêntica. Não há nada de vergonhoso em admitir que se é um pouco culturalmente ignorante se a alternativa é a exploração e promoção da ignorância da realidade de um grupo de pessoas. O problema acontece quando você quer assumir uma sensibilidade cultural sem de fato entender as complexidades da vida na favela. A questão é que não dá para nadar nas profundezas de uma cultura sem molhar os dedos dos pés. A incoerência estará estampada nas fotos que você colocará em um album que ficará em cima da mesa de centro da sua casa, cheia de fotos de pequenas crianças sorridentes, brincando descalças e sem camisa, fazendo com que você considere-se uma pessoa com uma consciência cultural muito maior.

Não tire a foto – ao invés disso, para o momento e pense: Sim, a favela é uma “comunidade fascinante” que pode oferecer uma perspectiva sobre “como a outra metade vive”, mas existe uma linha muito tênue entre isso e a negação das verdades dessa realidade que precisam ser consideradas. Se você ficou verdadeiramente curioso sobre algo como a Favela Experience, reflita sobre as razões que tornam essa atividade tão atraente para você. Você sente de verdade tanta compaixão pela condição humana no mundo que você quer descobrir como a sua presença e conhecimento podem contribuir algo nessa comunidade específica, ou será que você está simplesmente tornando o outro em um ser ‘exótico’?

A primeira situação é uma exceção e a segunda é a regra. Afirmar que a Favela Experience se encaixa em uma ou outra categoria seria incoerente da minha parte, pois não a vivencei pessoalmente para poder fazer uma afirmação tão ousada. Porém, isso traz um questionamento e provoca uma profunda reflexão cultural, pelo menos.

Infelizmente, termino esse texto ainda lutando com a mesma questão que levou a escrevê-lo: Será que “explore as vielas estreitas e veja paisagens deslumbrantes da arquitetura única, montanhas e mar” parece ser mais uma exceção ou um guia de viagem equivocado?

Como uma mulher brasileira que conhece muito bem a ‘exotização’ de toda forma e tamanho, temo que a resposta é óbvia e ‘na cara’ demais para ignorar.