COMPORTAMENTO
02/04/2014 13:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

#‎NãoMereçoSerObrigadaAFazerCesárea: mulheres exigem o direito de escolher tipo de parto

Thinkstock

O caso de Adelir Carmem Lemos de Goes, que foi obrigada pela Justiça do Rio Grande do Sul a fazer uma cesariana na segunda-feira (31), revoltou um grupo de mulheres que defendem o direito a escolher o tipo de parto. Com a hashtag #nãomereçoserobrigadaafazercesárea, parecida com a do movimento #EuNãoMereçoSerEstuprada, algumas mulheres estão se mostrando solidárias a Adelir.

O Brasil é o segundo país do mundo com mais cesarianas em relação ao total de nascimentos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dados da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, ligada ao Ministério da Saúde apontam que 47% dos três milhões de partos que ocorrem anualmente no país são feitos por cesariana. Nos hospitais públicos, as cesarianas representam 30% dos nascimentos e, nas unidades particulares, 80% do total. A OMS recomenda que o percentual fique entre 15% e 20%.

Leia também: Como é um parto humanizado

Para o obstetra Coríntio Mariani Neto, secretário-geral Associação de Obstetricia e Ginecologia de São Paulo (SOGESP) e diretor do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, o principal motivo disso é o sistema de saúde do Brasil. “Nos consultórios, a maioria das mulheres usam convênios, e o que o convênio paga para um parto normal é a mesma coisa que paga uma cesárea”, explica o médico. O valor desses procedimentos, segundo ele, varia entre 300 e 500 reais.

Como os partos normais podem levar horas e uma cesárea cerca de 50 minutos, muitos médicos aconselham suas pacientes a optarem pela cesariana. "Ou seja, um médico que tenha um consultório muito movimentado no mínimo tem um prejuízo financeiro se fizer mais partos normais", diz Neto. Mitos como a necessidade da episiotomia (corte vaginal) e a perda da libido após o parto foram popularizados no que Neto chama de “equilíbrio entre segurança e comodidade”. “São mitos, às vezes o médico está preocupado se ele vai conseguir fazer a parte dele e, para se resguardar, acaba fazendo uma cesárea. Por incrível que pareça, a cesárea é mais fácil de controlar”, diz Neto. “O ensino de como se comportar numa dificuldade na evolução de parto normal está prejudicado, então tudo vira cesárea. Nem tem mais professores. Os mais jovens já estão com uma mentalidade de maior tendência à cesárea”, explica. É a chamada “cultura da cesárea”.

“A imensa maioria das grávidas não entra em trabalho de parto, isso é uma desumanização da assistência, isso faz com que o médico calcule no calendário as 40 semanas e marque a cirurgia duas semanas antes se for bonzinho, três se for mais agressivo”, afirma Coríntio Mariani Neto. Como resultado, o número de prematuros tardios aumentou em 130% em 22 anos, colocando a vida de milhares de bebês em risco.

A desumanização da assistência leva muitas vezes à violência obstétrica. No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência na atendimento ao parto, segundo uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo. Segundo Daphne Rattner, professora de Epidemiologia na Universidade de Brasília (UnB), a mortalidade materna é de 0,9% nos partos vaginais e 2,7% nas cesarianas. Estima-se que de 85% a 90% das mortes maternas são evitáveis e que dois terços das cesarianas são desnecessárias.

A violência obstétrica está sendo mais discutida e colocada em evidência com um movimento de mulheres que pregam a humanização do parto. Há grupos como o Vila Mamífera e o GAMA, Grupo de Apoio à Maternidade Ativa, além de projetos como o 1:4, que busca provocar uma reflexão sobre como ocorrem os nascimentos no Brasil através de fotos. Veja a galeria completa aqui.

Foto do projeto 1:4

A grande referência internacional do parto humanizado é o médico obstetra e pesquisador Michel Odent. Uma das frases mais famosas de Odent é “para mudar o mundo é preciso primeiro mudar a forma de nascer”.

É o princípio das "mamíferas". E não demonizar a cesárea. Como disse Claudia Colluci em sua coluna na Folha de S. Paulo nesta quarta-feira (02), "o fato é que um momento tão sublime quanto o parto não pode se transformar num ringue. Ou numa briga de tribunal".