MULHERES
29/03/2014 14:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

#EuNãoMereçoSerEstuprada: criadora de protesto online é ameaçada de estupro

Reprodução/Facebook

Nana Queiroz, jornalista e organizadora do protesto online #EuNãoMereçoSerEstuprada, recebeu entre sexta-feira (28) e este sábado (29) mais de 80 ameaças de… estupro.

Nana criou o protesto depois de ver a pesquisa do Ipea lançada na quinta-feira, segundo a qual 65% dos brasileiros acreditam que mulheres que usam roupas curtas merecem ser atacadas (e 66% dos entrevistados são do sexo feminino). O protesto, que pedia que as mulheres publicassem em seu Facebook uma foto sua preferencialmente nua com um cartaz escrito "Eu não mereço ser estuprada", teve uma grande adesão e foi noticiado em vários veículos de imprensa (inclusive este que vos fala).

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O resultado? Uma enorme repercussão e uma enxurrada de ameaças contra Nana e todas as mulheres. Apesar das respostas negativas, o saldo certamente é positivo. “Quero dizer que essas mulheres (e homens) corajosos que postaram suas histórias me fazem crer que a coisa toda já valeu a pena. Se eles puderem viver melhor sem ter que esconder esse fantasma, já me sinto realizada”, disse Nana ao Brasil Post.

Nana Queiroz escreveu um texto em primeira mão contando sobre a resposta ao protesto no blog do Sakamoto. O Brasil Post reproduz aqui o texto com autorização da autora.

Verdadeiras e falsas coragens, por Nana Queiroz

Acordei de uma noite mal dormida e perturbada. Adormeci ao som das notificações de meu Facebook e acordei com elas. Desde que começou o protesto online “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, nesta sexta, às 20h, recebi incontáveis ofensas. Homens me escreveram dizendo que me estuprariam se me encontrassem na rua, outros, que eu “preciso mesmo é de um negão de 50 cm” ou “uma bela louça para lavar”. Se ainda duvidava um pouco da verdade por trás da pesquisa do Ipea, segundo a qual 65% dos brasileiros acreditam que mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas, hoje acredito nela totalmente. Senti na pele a fúria revelada pela pesquisa.

Em algum momento hoje, depois que conseguir descansar um pouco, vou à Delegacia da Mulher denunciar as ameaças. Pior: vou delatar um sujeito, Cirilo Pinto, que não só confessou publicamente já ter cometido um estupro, mas afirmou que o faria novamente. Está aí o print screen da página dele, para quem duvidar. Espero que ele seja, ao menos, detido por incitar o estupro.

Centenas de perfis falsos foram criados e nosso evento bombardeado com frases machistas, pesquisas preconceituosas e montagens com fotos do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) com dizeres ofensivos. Uma imagem dele ilustrou até um evento criado para promover um estupro coletivo. Caro deputado, pense: o senhor se tornou o ídolo de pessoas que defendem o estupro. Não será a hora de pôr a mão na consciência ou no coração?

Por outro lado, estou emocionada com o tamanho que a manifestação ganhou, não só pelo número de adesões, mas pela qualidade das postagens. Um resultado inesperado me comoveu ainda mais: Dezenas e dezenas de homens e mulheres contaram publicamente, muitos pela primeira vez, seus casos de estupro. Quanta coragem!

Alguns me escreveram privadamente para desabafar. Outros publicaram para milhares. Daiara Figueroa, creio eu, fez um dos relatos mais tocantes, contando como superou o trauma do abuso. Em sua foto, vestiu com orgulho um cocar, em homenagem a seu povo indígena.

Quero falar aqui, principalmente, a essas pessoas: vamos exorcizar isso juntos. Vocês nos inspiram, nos movem e comovem. Que o mundo tenha mais pessoas com a coragem legítima de Daiara e menos com a falsa coragem de Cirilo.

Veja alguns manifestantes que aderiram ao protesto: