ENTRETENIMENTO
23/03/2014 10:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

8 discos recentes que seriam censurados no tempo da ditadura

Reprodução

Em 31 de março deste ano lembramos os 50 anos do Golpe Militar no Brasil. Ao longo de duas décadas (1964 - 1985), militares brasileiros tomaram conta do governo, acabaram com as eleições diretas, perseguiram e assassinaram opositores e decidiram o que a população deveria ler, ver e ouvir.

Se hoje, a ideia de ter as músicas do seu computador controladas por um órgão censor parece absurda, há poucas décadas não havia disco que não fosse lançado sem passar pelo filtro do governo. Nomes como Chico Buarque, Titãs e até a carioca Blitz, artistas que tiveram versos, palavras ou mesmo músicas inteiras riscadas de seus trabalhos.

Mas e se o governo militar e censura ainda existissem no Brasil, quais seriam os álbuns “riscados” pela ditadura?

Utilizando dos mesmos critérios - muitas vezes subjetivos - lançados pelos censores, separamos oito discos recentes que seriam censurados pelos fiscais na época do governo militar.

São obras que se opõem ao governo, discutem sexualidade ou simplesmente quebram a "moral e os bons costumes" impostos pelos militares por utilizar de palavras hoje comuns, como "foda".

Do Hip-Hop político de Criolo e Emicida ao pop sexual e pegajoso de Anitta, o que não faltam são discos que seriam completamente alterados ou apagados se fossem lançados no ápice da ditadura.

Anitta

Anitta (2013, Warner)

Seria mais fácil Anitta se lançar como freira em um disco de música gospel, do que apelar para a própria sexualidade no período da ditadura. Show das Poderosas, Meiga e abusada, Não Para, nenhuma dessas faixas chegariam aos ouvidos do público, ou melhor, seriam completamente reformuladas caso a gravadora buscasse promover a artisa.

Com trechos como “fogosas”, “poder te comandar” e “abusada”, Anitta não apenas ficaria longe das rádios e programas de TV, como seria proibida de pisar nos palcos. Se até Ney Matogrosso foi barrado, imagine a cantora com suas roupas provocantes.

Caetano Veloso

Abraçaço (2012, Universal)

Figura conhecida dos fiscais da censura, Caetano Veloso seria (mais uma vez) convidado a se retirar do país se continuasse com o lançamento de álbuns como Abraçaço.

Ainda que a simples inclusão de expressões como “foda”, no hit A Bossa Nova é Foda, fosse suficiente para torcer o nariz dos censores, faixas inteiras como Um Comunista - homenagem ao guerrilheiro Carlos Marighella - obrigariam o músico baiano a fugir do país de vez. Interrogatórios e questionamentos não iriam faltar ao artista.

Clarice Falcão

Monomania (2013, Casa Byington)

Fofa, bem-humorada e censurada. Muito se engana quem pensa que a integrante do Porta dos Fundos passaria despercebida com o primeiro trabalho de estúdio. Caso quisesse lançar Monomania, Falcão teria de fazer pequenas alterações em músicas como O que eu bebi e 8º andar.

Enquanto a primeira seria cortada pelo “incentivo ao consumo de drogas” - no caso, o álcool -, com a segunda, a temática do “suicídio” seria mais do que suficientes para a pernambucana ser barrada pelos censores. Por falar em Porta dos Fundos, esqueça a existência das esquetes do grupo.

Criolo

Nó na Orelha (2011, Oloko)

Nó na Orelha, segundo trabalho em estúdio de Criolo, é um álbum que poderia existir, mas passaria por muitas, muitas alterações. Enquanto faixas aos moldes de Não Existe Amor em SP e Bogotá poderiam ser encaradas como metáforas para a situação do país, outras como Grajauex seriam praticamente abandonadas, tamanha a quantidade de recortes por parte dos censores.

Sobram músicas como Freguês da meia-noite (prostituição) e Sucrilhos (crítica social), faixas que estariam apenas no imaginário do rapper - que ainda teria de se comportar (e muito) durante as apresentações ao vivo.

Emicida

O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013, Laboratório Fantasma)

É difícil acreditar na existência de artistas como Emicida e qualquer outro representante do Hip-Hop atual em um cenário dominado pela ditadura. Autor de músicas como Hoje Cedo, Levanta e Anda e Dedo Na Ferida, o paulistano veria todo o último trabalho em estúdio, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, picotado pela censura.

Com faixas marcadas pelo discurso social, criminalidade, drogas, ataques ao governo e polícia, Emicida teria de adaptar as próprias criações, utilizando de metáforas e rimas maquiadas como uma possível alternativa. Se duvidar, até o nome do rapper seria substituído para agradar aos censores. Se em 2012 o rapper foi preso por conta de uma música, imagine nos anos 1970.

Gaby Amarantos

Treme (2012, Som Livre)

Gostou de Treme, álbum de estreia da cantora paraense Gaby Amarantos? Desculpe, mas se estivéssemos na ditadura ele seria “um pouco” diferente. Esqueça a inclusão de faixas como Gemendo e (Ela Tá) Beba Doida.

Qualquer resquício de sexualidade ou mínimo traço de provocação seriam barrados pelos censores. Dependendo do “humor” dos fiscais da censura, músicas como Ex Mai Love, Merengue Latino e Vem me Amar teriam de passar por algumas alterações. Peitinho à mostra nos shows e roupa provocante? Nem pensar!

Ivete Sangalo

Real Fantasia (2012, Universal)

Pois é, até Ivete Sangalo seria observada com atenção pelos censores. Basta a faixa-título de Real Fantasia, último trabalho em estúdio da diva baiana, para perceber as pequenas alterações que viriam a interferir no axé da cantora.

Além do verso “Faz amor”, é bastante provável que a sequência “Deu água na boca/ Água na boca/ Vou ficar com você” fosse encarada de forma excessivamente provocante pelos fiscais. E o que dizer de trechos como “O gosto do prazer” no hit No Brilho Desse Olhar? E esse pernão à mostra. Pelo visto, nem Iveteinha passaria despercebida.

Michel Teló

Na Balada (2011, Som Livre)

Em um país dominado pela censura, é bastante provável que artistas como Michel Teló fossem incapazes de alcançar o sucesso. Caso não passassem despercebidos pelos censores - o que acontecia com bastante frequência -, os trocadilhos eróticos de músicas como Ai Se Eu Te Pego, Se Intrometeu e Fugidinha seriam mais do que suficientes para o artista sertanejo visse suas músicas cortadas.

Dependendo do grau de esquizofrenia dos fiscais, dançar agarradinho nas apresentações do músico seria considerado um atentado ao pudor. Se até Odair José sofreu com a “inofensiva” Uma vida só (Pare de Tomar A Pílula), imaginem Teló.