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20/03/2014 17:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

Pesquisas do Ibope de março de 1964 contradizem imagem de que João Goulart era um presidente fraco e isolado

Arquivo Agência Estado - 14.04.1964

Pesquisas feitas pelo Ibope em 1964, às vésperas do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, contradizem a imagem de presidente fraco e isolado, divulgada pela imprensa da época. Nas pesquisas, o presidente tinha altos índices de aprovação. É o que mostra trabalho do historiador Luiz Antonio Dias, chefe do Departamento de História da PUC-SP, entrevistado pela Revista Brasileiros.

Criado em maio de 1942, o Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) está tão vinculado ao cotidiano brasileiro que sua sigla entrou para os dicionários como sinônimo de pesquisa. No decorrer de décadas, o Ibope acabou montando um retrato do Brasil em múltiplas facetas, com levantamentos que vão das mudanças de hábito de consumo a preferências políticas.

Doado para a Unicamp (Universidade de Campinas), esse acervo hoje é fonte preciosa para estudiosos de diferentes áreas. São 297 metros lineares de documentos, que incluem mais de 56 mil relatórios de pesquisa, de onde o historiador Luiz Antonio Dias garimpou 500 páginas de levantamentos políticos feitos nos anos 1960, durante o tumultuado período que culminou com o golpe de 1964.

Segundo informações recuperadas pelo pesquisador, pesquisa feita pelo Ibope na semana anterior ao golpe, em São Paulo, aponta que 72% da população aprovava o governo Goulart. Entre as camadas mais pobres, o índice era de 86%.

Ao cruzar os resultados do Ibope com editoriais dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, publicados na mesma época, o historiador concluiu que houve uma sistemática campanha para apresentar o presidente João Goulart como um governante fraco, isolado da população e vulnerável à influência comunista: “A Folha gastou muito papel e tinta para propagar a ameaça comunista no Brasil. O Estadão também. O surpreendente é que, apesar de toda a ação da imprensa, Goulart continuava com um alto apoio na população.”

Para o historiador, a verdade sobre o presidente deposto ainda está por ser reestabelecida: “Goulart passou para a História como um fraco que não reagiu ao golpe. Essa visão de debilidade e isolamento foi criada e, em certa medida, ficou. É uma visão equivocada do momento”.

Doutor em História, com a tese A Geração Cara-pintada: a Participação dos Jovens no Processo de Impeachment, Dias conquistou o título de mestre, em 1993, com a dissertação O Poder da Imprensa e a Imprensa do Poder: a Folha de S.Paulo e o Golpe de 1964. Ao mapear as pesquisas do Ibope arquivadas na Unicamp, ele retomou e ampliou o tema do mestrado. Aos 47 anos, ele é professor da Universidade de Santo Amaro e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde chefia o Departamento de História.

A pesquisa feita na semana anterior ao golpe, em São Paulo, aponta que 72% da população aprovavam o governo Goulart. Entre as camadas mais pobres, o índice era de 86%. Essa foi a única pesquisa que encontrei com identificação do contratante, a Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Seu resultado é um contraponto àquilo que a imprensa estava divulgando, de que Goulart era um presidente fraco e ligado ao comunismo. E as pessoas foram entrevistadas depois do Comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, que marca a guinada de Goulart para a esquerda. Há uma pergunta se as medidas anunciadas no comício seriam demagógicas, para aumentar o prestígio do presidente. Em São Paulo, só 10% achavam que era assim.

Brasileiros – Pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe de 1964 só agora começam a vir a público. Por quê?

Dias – Esse material foi doado pelo Ibope ao Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, em 2003. Formam o Fundo Ibope, com uma infinidade de levantamentos, do consumo de sabão em pó a pesquisas políticas. Comecei a analisar o material da década de 1960 porque, em meu mestrado, defendido em 1993, trabalho no sentido de mostrar que a Folha de S.Paulo teve um papel importante para formar uma opinião pública favorável ao golpe de 1964. E minhas novas pesquisas indicam que, no mestrado, eu estava errado. Não havia uma opinião pública favorável ao golpe. Ao mapear o material do Ibope, verifiquei que Goulart tinha aprovação popular não só em levantamento feito em São Paulo às vésperas do golpe e não divulgado, como em outros anteriores, realizados em 16 cidades, entre junho e julho de 1963.

Brasileiros – Sabe-se por que a pesquisa de março de 1964 não chegou a ser divulgada?

Dias – Tenho duas hipóteses. A primeira delas é que não deu tempo de tabular os dados, pois as entrevistas foram feitas do dia 20 a 30 de março e o golpe vem na sequência, em 1º de abril. Essa é uma questão técnica. A questão política é que seria um contrassenso divulgar a pesquisa naquele momento. Ela mostra que Goulart tinha amplo apoio da população, como a pesquisa de 1963 já indicava.

Brasileiros – Como era exatamente a situação?

Dias – A pesquisa feita na semana anterior ao golpe, em São Paulo, aponta que 72% da população aprovavam o governo Goulart. Entre as camadas mais pobres, o índice era de 86%. Essa foi a única pesquisa que encontrei com identificação do contratante, a Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Seu resultado é um contraponto àquilo que a imprensa estava divulgando, de que Goulart era um presidente fraco e ligado ao comunismo. E as pessoas foram entrevistadas depois do Comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, que marca a guinada de Goulart para a esquerda. Há uma pergunta se as medidas anunciadas no comício seriam demagógicas, para aumentar o prestígio do presidente. Em São Paulo, só 10% achavam que era assim.

Leia a entrevista completa com o historiador Luiz Antonio Dias.

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