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14/03/2014 17:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

Ato Contra Copa: eles querem direitos antes de ter o Mundial

CRISTIANO NOVAIS/CPN/ESTADÃO CONTEÚDO

Nesta quinta-feira (13), cerca de 1.500 a 2.000 manifestantes tomaram as ruas de São Paulo com um grito em comum: “não vai ter Copa”. Ano passado, o chamado da rua era contra o aumento das passagens de ônibus. Dois movimentos, duas lideranças, dois gritos, certo? Errado.

Em junho de 2013, organizados pelo Movimento Passe Livre, os protestos diminuíram de tamanho e passaram para as periferias da cidade --e, portanto, perderam espaço nas telas da mídia, assim que a tarifa baixou. Em 2014, as manifestações são convocadas por dezenas de diferentes coletivos, cada um com a sua bandeira. Sim, há o grito contra a Copa, mas ele é motivado por uma série de outros desejos.

Nos dois primeiros protestos, pela Saúde e pela Educação. Neste terceiro ato, foi um grito pela melhoria no Transporte, mas, também, um protesto contra a atuação da Polícia Militar, que no segundo ato deteve 262 pessoas e agrediu manifestantes e jornalistas.

A questão é menos a Copa do Mundo e o jogos. Ela é muito mais a indignação por conta dos gastos cada vez maiores e a pouca transparência sobre o destino do dinheiro que vier, explicam os manifestantes. Especialmente em um país onde a educação pública é um problema, os hospitais estão sucateados e as pessoas passam horas em um transporte público lotado.

Nos protestos, os gritos entoados deixam claro essa indignação. “Dilma, vamos acordar: o professor vale mais do que o Neymar”, “Ei, Fifa, paga minha tarifa”. Cartazes também ecoam a indignação com os gastos da Copa: “Quando seu filho ficar doente, leve ele a um estádio”, lia-se em um.

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Um grupo de garis, por exemplo, entrou no protesto porque eles passaram, “leram os cartazes e gostaram”. “Tem que melhorar a educação pública, os alunos não estão aprendendo nada”, disse um deles, questionando ainda para onde vai o dinheiro da Copa: “será que vai ficar só entre os políticos, os ricos?”.

Não é difícil para a população se identificar com ao menos algumas bandeiras da manifestação. As pautas são sobre direitos fundamentais ou críticas a uma Polícia Militar que matou 335 pessoas em confrontos no ano passado só em São Paulo.

“Assim como os 20 centavos, [que acendeu as manifestações em junho do ano passado], a rejeição à Copa é algo que sintetiza um conjunto de insatisfações. A ideia é, sim, inviabilizar o Mundial. Pelo menos enquanto questões fundamentais do país não são resolvidas ou ao menos debatidas", explicam os ativistas.

(a matéria continua depois da foto)

A verdade é que o brasileiro quer assistir ao jogo de futebol, mas também quer ter saúde, educação, transporte; quer viver em um país sem corrupção. No Carnaval, fantasias foram inspiradas nesse tema, com sátiras ao mascote da Copa e cariocas vestidos de argentinos porque o prefeito da cidade, Eduardo Paes, havia prometido “se suicidar se a Argentina ganhar do Brasil na final”. As fantasias são brincadeiras, mas mostram a realidade séria do quão insatisfeita está a população --e o quão pequeno é o efeito pão e circo de uma Copa do Mundo.

E o sentimento não é só daqueles, a maioria jovens, que protestam. Uma pesquisa recente feita pela CNT/MDA mostra que 75,8% dos brasileiros acham desnecessários os investimentos no Mundial. Mais de 80% são contra a quantidade de dinheiro que foi gasta na construção e reforma de estádios.

Mas então o que vai acontecer quando a Copa vier? Os manifestantes prometem que “amanhã vai ser maior”. O próximo protesto já tem data marcada para o fim do mês, na Paulista, com expectativa de que vai acontecer também em outros estados. Depois desse, outros vão ser marcados e assim sucessivamente, prometem os ativistas. Um dos organizadores foi emblemático: “a FIFA tem um plano B (Alemanha, Estados Unidos), por que nós não podemos ter um plano A?”. Pois é, imagina na Copa.