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11/03/2014 10:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

Agente penitenciário conta a rotina em SP: "Sempre penso se vou voltar inteiro para casa"

Divulgação/Carlos Vítolo/Sindasp

Lidar com detentos durante 12 horas por dia é um elemento transformador para todo aquele que se dispõe a abraçar a vida de agente penitenciário em São Paulo. Quem diz isso é Alberto (nome fictício), que dá expediente das 7h às 19h na Penitenciária de Presidente Prudente, no interior paulista. Ele é um dos agentes que cruzaram os braços nesta segunda-feira (10), quando teve início a greve da categoria, convocada pelo Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária do Estado de São Paulo (Sindasp).

A rotina diária é pesada não apenas para o agente, mas também para os familiares e amigos. Entre o temor da exposição da atividade profissional fora das cadeias e a sensação de abandono por parte dos governos, o servidor do sistema penitenciário se vê às voltas com o maior dos medos: o de perder a vida. É o que rege o pensamento de Alberto, que pediu para o seu nome ser preservado por temer represálias, quando sai de casa para ir trabalhar.

“A primeira coisa que passa é se eu vou voltar, para a minha esposa e para a minha filha. Sempre penso nisso, se vou voltar inteiro e bem. É muito tenso porque todas as unidades estão superlotadas. Quando termina o meu turno, penso que mais um dia foi vencido e graças a Deus estou vivo. É essa a sensação”.

De acordo com Daniel Grandolfo, presidente do Sindasp, todos os 158 presídios paulistas estão superlotados. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, Grandolfo disse nesta segunda-feira que, com a greve, 15 mil agentes penitenciários do Estado – número que corresponde a 50% do total de servidores carcerários de SP – cruzaram os braços, paralisando as atividades em 60 presídios. A categoria tem o reajuste salarial de 20% e alterações nas promoções como suas principais demandas ao governo de Geraldo Alckmin.

Alberto admite que, como já apontaram familiares, ele mudou desde que se tornou agente penitenciário, há pouco mais de dez anos. Ele diz que, diante das atuais condições de trabalho, o servidor da área “é tão esquecido pela sociedade e pelos governos quanto o preso”. Tal fato leva à construção de uma pessoa “sofrida, dura e fria”, mais propensa a justificar às queixas constantes feitas por familiares de detentos, que acusam agentes penitenciários de situações vexatórias, como as chamadas revistas íntimas.

A greve em São Paulo não tem prazo para terminar, segundo o sindicato da categoria. O mesmo, na visão de Alberto, vale para a perspectiva de melhora das condições de trabalho para os agentes penitenciários a curto e médio prazo. Ele não acredita que se verá livre de, por exemplo, entrar todos os dias em celas com 50 presos – cuja capacidade máxima não ultrapassa 12 –, por vezes sozinho. Tal situação o coloca como “um pré-refém”, segundo palavras dele mesmo. Ou ainda escapar dos perigos durante as escoltas fora do presídio (“não temos nem comunicadores”), quando dentro dele a prometida automatização avança a passos lentos. Com base em dados do Sindasp, apenas seis dos 158 presídios paulistas já apresentam algum tipo de automação.

“Com a automatização, o agente penitenciário não precisaria entrar no pavilhão, com 500 presos ao redor dele, para abrir as celas. Ficaria difícil o preso pegar um agente como refém, até porque não existe rebelião sem refém. Então, hoje, em 154 prisões (do Estado de SP), os presos fazem rebelião quando eles quiserem. Na hora que o agente entrar no pavilhão, ele (detento) pede a chave e pronto, começa a rebelião”, diz, sem esconder o constrangimento.

Por experiência na profissão, Alberto sugere o fim das visitas como são feitas hoje como alternativa ao fim da entrada de celulares, drogas e outros objetos ilícitos nas cadeias brasileiras. Não que ele espere que isso um dia vire realidade. A mesma descrença vale para o que ele chama de “confusão” quando o assunto é a ressocialização dos detentos.

“Existe uma confusão muito grande com a função do agente penitenciário. Os governos do Brasil possuem um entendimento de que o agente é responsável pela ressocialização do preso, e o agente na verdade precisa fazer a segurança da unidade. Ou seja, querem que ele, agente, faça as duas coisas. Isso é impossível, essa distorção é o que traz mais malefícios para a sociedade, essa má compreensão da atividade. Ou se faz uma coisa ou outra. Hoje ele dá um tapa nas costas do preso, ajuda na ressocialização, e amanhã ele revista o preso, tira a droga dele, faz blitz nas celas, é impossível. Precisa de pessoas capacitadas para um trabalho desses, que é muito pesado e duro, que deve ser feito por psicólogos e agentes sociais”, conclui.