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27/02/2014 13:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

Dalai Lama: "Precisamos de um coração quente e de uma mente afiada."

Getty Images

Dalai Lama participou, nesta quarta (26), de uma entrevista do HuffPost Live com Willow Bay e abordou temas, como alcance do sucesso, capitalismo, tecnologia e espiritualidade. Confira os principais trechos da conversa com o líder tibetano.

O senhor publicou no Twitter uma foto com o presidente Obama. Como o senhor bem sabe, ele vive em lugar que a harmonia faz muita falta. Deu a ele algum conselho?

Não, ele não precisa de conselhos.

Ele pediu algum conselho?

O conheço desde que ele era senador. Ele depois tornou-se presidente. Acho que é a terceira vez (que nos encontramos). Acho que nós dois sempre sentimos algo como um reencontro. Sempre olho para o nível humano. Mas existe um segundo nível. Neste encontro, em um nível humano, expressei minha felicidade, pois somos amigos há muitos anos. E também expressei, como amigo de longa data, a situação complicada, no nível doméstico e internacional.

E ele é claro perguntou da situação no Tibete. Eu relatei meu comprometimento , em primeiro lugar, como um ser humano, parte dos 7 bilhões. Nosso futuro, o futuro e a felicidade dos indivíduos são interesses da humanidade. Então, em interesse próprio, de uma maneira quase egoísta, você tem de levar a sério o bem-estar de 7 bilhões de seres humanos e também do meio ambiente. Esse é meu compromisso número um: promover valores humanos. Nós temos pensamentos muito materialistas. As pessoas colocam muita esperança em valores materiais. Isso é um erro. Afinal de contas, somos seres humanos. Temos emoções, mente. Temos de prestar alguma atenção nos nossos valores interiores. Dinheiro sozinho, ou as facilidades materiais, não vão dar sentido à vida ou trazer felicidade.

Então meu primeiro comprometimento é a promoção de valores humanos. Em segundo lugar, a promoção da harmonia. Em relação ao Tibete, desde 2011 me aposentei das responsabilidades políticas. (.....) Agora meu compromisso é preservar a tradição budista e a cultura tibetanas. É uma tradição budista muito rica e que interessa não só ao povo do Tibete, mas para muitas outras pessoas, particularmente os irmãos e irmãs chineses, entre os quais há muitos budistas agora. Então, foi uma reunião bastante feliz.

O senhor falou de valores humanos. Uma coisa muito importante para Arianna Huffington é o que ela chama de “Third Metric” (“Outra Medida”), que é definir o sucesso além de dinheiro e poder. Como o senhor acha que deveríamos definir sucesso? Imagino que seja algo bem diferente.

Basicamente uma sociedade mais feliz, um indivíduo mais feliz. Se você cria uma sociedade mais feliz, indivíduos e famílias mais felizes, esse é o real significado de sucesso. Não um número de dólares. Conheci americanos e outros muito ricos, mas, como seres humanos, muito infelizes. Não são pessoas de sucesso.

Num evento recente, o senhor disse que está mudando a maneira de ver o capitalismo, que está criando respeito por ele.

Foi meio uma piada (risos). Minha impressão é de que a economia marxista é basicamente distribuição igualitária.

O senhor se definiria como marxista?

Sim, do ponto de vista da teoria social e econômica. E não sou só eu. Muitos monges budistas do Sri Lanka e da Índia são marxistas. Considerando o pensamento no bem-estar dos 7 bilhões, e particularmente no dos menos privilegiados, a ideia de distribuição igualitária é boa. O marxismo surgiu na Europa na época da Revolução Industrial, quando havia muita exploração dos trabalhadores. O capitalismo pensa em lucro, ou dinheiro. Então me sinto mais atraído pela ideia de distribuição igualitária.

Nesse evento, falaram sobre uma visão mais holística do capitalismo e falaram da preocupação com a importância da compaixão. Aí eu respondi que sentia mais respeito pelo capitalismo (risos). Mas é importante que as pessoas de direita e de esquerda se unam pelo bem-estar da humanidade. O que é importante é ser holístico.

Muito se fala hoje da ideia da consciência, da ciência da meditação. É apenas uma tendência ou uma mudança importante?

Por milhares de anos, você viu as pessoas rezando em momentos de dificuldade. A mensagem é sempre a mesma: amor, perdão, tolerância, apesar de diferentes visões filosóficas. Foi assim durante milhares de anos. Aí, a ciência e a tecnologia se desenvolveram nos últimos 200, 300 anos. Isso nos empolgou. Muitas das coisas pelas quais rezávamos se realizaram por intermédio da tecnologia. Portanto, desde o fim do século 20, as pessoas passaram a se preocupar demais com valores materiais.

Agora, as pessoas que têm todas essas facilidades começam a sentir as limitações dos valores materiais. Elas têm muito dinheiro, mas, no fundo, se sentem sozinhas e começam a procurar o que está faltando. A afeição está lá, biologicamente, em nosso sangue. É a semente da compaixão por outros seres humanos, algo que muitas vezes desprezamos. E agora vemos mais interesse por isso.

Sempre digo que existem dois níveis para a compaixão, o amor. Um deles é biológico, o outro é racional. O lado biológico não precisa de treinamento. Mas precisamos treinar ou racionalizar esse lado em nossas vidas, nossas famílias, nossas sociedades. Então eu diria que existe essa nova tendência. Agora, as ciências médicas estão percebendo que por motivos preventivos a mente, a consciência, as emoções são fatores muito importantes. Um coração mais quente traz uma mente mais calma. Uma mente mais calma traz força interior. Força interior traz saúde. Uma mente sã é importante para um corpo são.

A viagem do senhor tem atraído muita atenção. Tanto quanto outro grande evento que teremos aqui em Los Angeles, o Oscar. O senhor parece se manter tão relevante. O senhor assiste filmes? Nunca?

Nunca, não. Antigamente, eu assistia. O último que vi faz dois anos. Mas eu ouço a BBC, rádio. Me informo assim.

E tecnologia? O senhor tem mais de 8 milhões de seguidores no Twitter.

Não sei usar computador para essas coisas. Mas uma vez... Celulares, certo? Celulares. Recebi uma mensagem dos Estados Unidos, quando estava na Índia. Minha secretária me passou o telefone eu fiz assim (gesticula para mostrar que não sabia se devia falar ou olhar para a tela). E ela disse: “Pode falar” (risos). Mas acho que a tecnologia realmente facilita muito as coisas, é uma maravilha. Só que a tecnologia não pode produzir compaixão ou felicidade. Muito depende de como se usa a tecnologia. Somos os controladores da tecnologia. Se nos tornarmos escravos dela, isso não é bom.

Se o senhor pudesse resumir: o que é que podemos fazer em nossas vidas para sermos felizes?

Duas coisas. A primeira é ter um coração quente, que nos dá força interior e reduz o medo, as suspeitas. Precisamos de amizades baseadas na confiança. Esse é um ponto. E também precisamos usar nossas mentes para prestar atenção nisso e compreender a realidade de forma holística. Precisamos de um coração quente e de uma mente afiada. Essas duas coisas combinadas fazem da sua vida mais saudável e mais cheia de sabedoria.