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18/02/2014 18:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Carandiru: júri é dissolvido após saída de advogado

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Crosses are seen in front of the School of Law of the University of Sao Paulo (USP) in homage to the inmates dead at the Carandiru Penitentiary massacre in Sao Paulo, Brazil on April 8, 2013. Twenty-six military police officers were to go on trial here Monday for the alleged execution-style killing of inmates during Brazil's deadliest prison uprising, which claimed the lives of 111 prisoners. AFP PHOTO / Nelson ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

São Paulo - A terceira etapa do julgamento do Carandiru foi encerrada nesta terça-feira, 18, após o advogado Celso Vendramini, que representa os 15 policiais militares acusados, abandonar o plenário. "O Ministério Público está podendo tudo e eu não estou podendo nada. O tratamento está diferenciado", disse o advogado jogando a toga e o paletó sobre a mesa ao sair do plenário do fórum criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista.

A saída de Vendramini aconteceu durante o depoimento do coronel da reserva Arival Salgado, o primeiro réu a ser ouvido nessa etapa do julgamento. Antes de sair, ele reclamou com o juiz que o promotor Eduardo Olavo Canto Neto estava lendo depoimentos longos que o coronel já havia prestado em outras ocasiões. "O papel dos promotores não é ler depoimento e sim fazer perguntas".

Para o promotor Canto Neto, o que foi feito foi um "desrespeito à lei e à sociedade". "Eu estava interrogando um dos réus de maneira educada e de acordo com o que prevê o código penal. Provavelmente, o advogado não gostou do resultado das respostas e abandonou o plenário", disse.

Em entrevista à imprensa já após o término do julgamento, Vendramini disse que, na véspera, o juiz o chamou de "mal educado" fora do plenário pelo fato de ele ter discutido durante o primeiro dia com os promotores. Com a dissolução, o tribunal terá de marcar nova data para dar continuidade ao julgamento.

Testemunhas de defesa.

A terceira etapa do julgamento do massacre do Carandiru foi retomada na manhã desta terça-feira, 18, com testemunhas de defesa. Ouvido pela primeira vez em tribunal, o agente penitenciário Francisco Carlos Leme prestou um depoimento confuso e cheio de contradições. Ele foi a última testemunha ouvida antes do interrogatório dos réus.

Arrolado pela defesa dos policiais militares, Leme afirmou que havia 75 mortos no pavilhão 9 antes da entrada da PM. Entretanto, durante o questionamento do promotor Márcio Friggi de Carvalho, o agente disse que o número poderia ser de 25 presos mortos por arma branca no pátio antes da PM entrar."Não contei exatamente, não dá para precisar", disse.

Leme foi ouvido pela Polícia Militar e pela Polícia Civil no ano do massacre, em 1992, mas a informação de que havia corpos no pátio do pavilhão antes da entrada dos policiais não consta no depoimento. Por causa disso, a informação foi recebida com surpresa tanto para o advogado Carlos Vendramini quanto para os promotores.

A outra testemunha arrolada pela defesa foi o ex-secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos. Em depoimento curto, Campos reafirmou, como em outras ocasiões, que havia a necessidade de a Polícia Militar entrar no pavilhão para que a rebelião não se espalhasse.

Massacre.

A tragédia no Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos e 87 ficaram feridos durante uma operação policial destinada a reprimir uma rebelião no Pavilhão 9 do presídio.

Por envolver grande número de réus e de vítimas, o julgamento foi desmembrado em quatro etapas, de acordo com o que aconteceu em cada um dos quatro andares. Na primeira etapa do julgamento, em abril de 2013, 23 policiais foram condenados a 156 anos de reclusão cada um pela morte de 13 detentos. Na segunda etapa, em agosto, 25 policiais foram condenados a 624 anos de reclusão cada um pela morte de 52 detentos que ocupavam o terceiro pavimento do Pavilhão 9.