MUNDO
27/01/2014 10:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Efeitos do El Niño poderão ser duas vezes mais frequentes com o aquecimento global

A man pulls a woman on a boat along a flooded road in El Porvenir, southern Colombia, Friday, Dec. 9, 2011. Torrential rains have caused devastating floods and widespread damage in the country for much of the past two years. Meteorologists blame the rains on La Nina, a disruption in weather patterns related to low surface temperatures in the eastern Pacific. (AP Photo/Carlos Julio Martinez)
ASSOCIATED PRESS
A man pulls a woman on a boat along a flooded road in El Porvenir, southern Colombia, Friday, Dec. 9, 2011. Torrential rains have caused devastating floods and widespread damage in the country for much of the past two years. Meteorologists blame the rains on La Nina, a disruption in weather patterns related to low surface temperatures in the eastern Pacific. (AP Photo/Carlos Julio Martinez)

A questão de como o aquecimento global vai influenciar El Niño tem desafiado os cientistas. Um novo estudo sugere que embora seja improvável que o número total de ocorrências do fenômeno El Niño aumente, há uma probabilidade duas vezes maior de El Niños superfortes.

El Niño é o nome de um fenômeno de água incomumente quente que se estende na superfície do Pacífico equatorial oriental, e que ocorre a intervalos de três a sete anos. Essa água quente influencia os fenômenos climáticos em todo o mundo, aumentando a probabilidade de clima úmido e frio no sudeste dos Estados Unidos, chuva forte na Califórnia, condições quentes e secas no noroeste-Pacífico e uma série de outros impactos globais.

O mapa mostra as anomalias na temperatura da superfície do mar antes e durante o super El Niño de 1997-98. Crédito: NOAA View

O El Niño mais forte já registrado ocorreu em 1997-98. Ele causou chuvas fortes em todo o sul dos Estados Unidos, deslizamentos de terra no Peru, incêndios florestais na Indonésia e a redução da pesca de anchovas no Pacífico oriental. Esses e outros impactos foram responsáveis por prejuízos estimados em US$ 35 a 45 bilhões e 23 mil mortes em todo o mundo.Outro super El Niño em 1982-83 causou danos semelhantes em nível global.

Em um estudo publicado recentemente em Nature Climate Change, pesquisadores mostram que a mudança climática poderá duplicar a frequência do super El Niño.

Para obter os resultados, os pesquisadores liderados por Wenjun Cai, um modelista climático da Organização de Pesquisa Industrial e Científica da Comunidade Britânica na Austrália, usou 20 modelos climáticos para simular temperaturas oceânicas e precipitações de chuvas no Pacífico tropical, com e sem mudanças nos gases do efeito estufa. Cai examinou especificamente o período de dezembro-fevereiro, quando El Niño tende a atingir o auge e seus impactos são mais generalizados.

"Com o aquecimento do efeito estufa, o Pacífico equatorial oriental se aquece mais depressa do que as regiões ao redor... tornando mais difícil ter temperaturas da superfície do mar (SST na sigla em inglês) máximas no Pacífico equatorial oriental, e portanto mais ocorrências de eventos extremos do El Niño", disse Cai em um e-mail.

As águas da superfície no Pacífico tropical oriental têm em média 22 graus centígrados, cerca de 7 graus a menos que no Pacífico tropical ocidental. Cai disse que isso facilita o aquecimento, o que reduz a diferença de temperatura geral entre as duas regiões e torna as condições mais propícias para o desenvolvimento de super El Niños.

Especificamente, os resultados mostram que a probabilidade de super El Niños duplica de um a cada 20 anos no século passado para um a cada dez anos no século 21.

Enquanto os resultados mostram um aumento no número de El Niños anormalmente fortes, eles não mostram uma mudança no número total de eventos. O estudo também mostra que a atual influência que El Niño tem no clima em outros lugares provavelmente não mudará. Ambos os resultados também foram obtidos em outros estudos.

O núcleo dos resultados de Cai, a probabilidade de mais super El Niños, foi contestada por Kevin Trenberth, cientista graduado do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas.

Ele disse que alguns dos modelos usados no estudo superestimam o número passado de eventos de El Niños em uma ampla margem e fazem um mau serviço ao representá-los e a seus impactos.

"Isto mina seriamente a confiança de que os modelos façam um trabalho adequado em simulações de ENSO (Oscilação Sul-El Niño), e então por que deveríamos confiar em suas projeções futuras?", disse ele em um e-mail.

Trenberth disse ainda que alguns modelos climáticos de longo alcance também falham ao simular adequadamente outros fenômenos climáticos naturais que influenciam El Niño, ainda mais como eles também poderão mudar em um mundo cada vez mais quente.

Lisa Goddard, diretora do Instituto Internacional de Pesquisa para o Clima e a Sociedade, fez uma avaliação semelhante de alguns dos modelos usados no estudo. No entanto, ela disse que a metodologia é sólida e se os resultados forem precisos poderão oferecer informação útil para os cientistas que fazem previsões sazonais em todo o mundo e os tomadores de decisões que se baseiam nelas.

"Como a maioria das técnicas em previsões sazonais é realizada durante eventos El Niño (e as previsões ficam mais precisas sobre mais áreas terrestres do mundo), poderemos nos preparar muito melhor para os impactos desses eventos", disse ela. "Climas adversos e dispendiosos acontecem todos os anos. Apenas ficamos melhores em prever isso em anos com fortes fenômenos El Niño e La Niña."

Apesar de o super El Niño de 1997-98 ter causado danos extensos, os tomadores de decisões da Califórnia despejaram mais US$ 7,5 milhões em preparativos contra inundações com base em previsões sazonais feitas acuradamente com meses de antecedência. O estado ainda sofreu prejuízos de US$ 1,1 bilhão durante o evento, mas isso foi a metade do total sofrido durante o super El Niño de 1982-83.

Administradores hídricos na baía de Tampa usam habitualmente previsões sazonais e a previsibilidade de El Niño para planejar a disponibilidade de água nos meses seguintes.

Há evidências de que os El Niños já estão mudando. Pesquisa publicada em janeiro do ano passado mostra um aumento de aproximadamente 20% na intensidade do El Niño ao longo do século 20, embora ela não atribuísse especificamente essa mudança às emissões de gases do efeito estufa por seres humanos.