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27/01/2014 12:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

4 lições do filme O Lobo de Wall Street para os investidores

BEVERLY HILLS, CA - JANUARY 12: Actor  Leonardo DiCaprio attends The Weinstein Company & Netflix's 2014 Golden Globes After Party presented by Bombardier, FIJI Water, Lexus, Laura Mercier, Marie Claire and Yucaipa Films at The Beverly Hilton Hotel on January 12, 2014 in Beverly Hills, California.  (Photo by Ari Perilstein/Getty Images for The Weinstein Company)
Ari Perilstein via Getty Images
BEVERLY HILLS, CA - JANUARY 12: Actor Leonardo DiCaprio attends The Weinstein Company & Netflix's 2014 Golden Globes After Party presented by Bombardier, FIJI Water, Lexus, Laura Mercier, Marie Claire and Yucaipa Films at The Beverly Hilton Hotel on January 12, 2014 in Beverly Hills, California. (Photo by Ari Perilstein/Getty Images for The Weinstein Company)

São Paulo – “O Lobo de Wall Street” só estreia no Brasil nesta sexta-feira, mas a pré-estreia já está fazendo bastante barulho. Com humor nervoso e angustiante, o filme conta a história real do corretor de ações americano Jordan Belfort, que construiu fortuna no mercado financeiro, mas acabou condenado a 22 meses de prisão por fraude e lavagem de dinheiro.

Sem rodeios, “O Lobo de Wall Street” escancara os crimes e excessos que marcaram a trajetória de Belfort: dinheiro viajando em malas e roupas para a Suíça, prostitutas e muitas, muitas drogas, em cenas ao mesmo tempo chocantes e cômicas.

Mas, por incrível que pareça, a ganância e as fraudes de Belfort encerram em si importantes lições sobre finanças para qualquer investidor. Veja a seguir:

1. Saiba como o profissional que lhe oferece um produto é remunerado

No início do filme já fica bastante claro para o espectador quais eram os interesses de Belfort quando ele ainda era um corretor iniciante: ele recebia comissão a cada negócio fechado, tal qual um vendedor de loja que disse que aquela peça horrorosa caiu muito bem em você.

É notória uma passagem em que seu mentor diz que enquanto os clientes compram papel, investindo em algo virtual (ações), o corretor recebe “dinheiro de verdade” em sua conta.

Da mesma forma, qualquer profissional que tenha metas de venda ou que receba boas comissões na venda de certos produtos financeiros terá o maior interesse em “empurrar” produtos para seus clientes que nem sempre são os melhores para o seu perfil.

“O gerente do banco, por exemplo, é empregado do banco. Está lá para defender os interesses da empresa, e não há nada de errado com isso. O problema é que nem sempre os interesses da instituição são os mais rentáveis para o cliente. Às vezes é justamente o contrário”, alerta Samy Dana, professor da FGV.

Ele lembra que, ao negociar, o investidor deve sempre procurar saber de que forma a pessoa ou a instituição que lhe oferece determinado produto é remunerada.

Alguns produtos, como títulos de capitalização, seguros e CDBs são prioritários para os bancos; da mesma forma, agentes autônomos são remunerados por instituições para vender seus fundos, e analistas são frequentemente ligados a corretoras, que têm interesse na movimentação da carteira do cliente, uma vez que recebem taxa de corretagem.

Não que esses profissionais não sejam úteis e importantes para o investidor. Muitas vezes eles têm bom conhecimento técnico e são capazes de explicar bem o funcionamento de um produto ou fazer uma análise sólida de um ativo. Mesmo as instituições podem ser suficientemente preocupadas com sua reputação para pôr tudo a perder.

Mas ninguém está livre de golpes, profissionais de conduta duvidosa ou ciladas por conta da própria falta de informação. Cabe também ao investidor ter algum embasamento, ouvir outras fontes e conhecer seu perfil e objetivos, a fim de defender, ele também, seus interesses.

Há uma parte da responsabilidade que cabe a ele, como fazer as perguntas certas, saber a hora de sair de um mau investimento ou ficar de fora daquilo que não conseguiu compreender. Isso pode não livrá-lo totalmente dos problemas, mas pode ajudá-lo a se proteger de alguns.

A existência de um conflito de interesses não torna o produto ruim automaticamente, mas o discurso de quem o vende não deve ser o único fator a se considerar. Veja quais os profissionais que ajudam e que atrapalham seus investimentos.

2. Desconfie do que é “bom demais para ser verdade”

A frase “não entro para um clube que me aceite como sócio”, atribuída a um dos Irmãos Marx, o humorista Groucho Marx, poderia bem ser considerada uma máxima das finanças. E de fato há quem a considere assim.

Desconfie de dicas milagrosas (e exclusivas), de profissionais muito insistentes para vender algum produto, de promessas de enriquecimento rápido e de retornos muito altos.

Esse tipo de apelo emocional é frequentemente usado por golpistas ou mesmo por quem apenas deseja vender um produto que não é tão bom assim.

No filme, Belfort é retratado como alguém com um discurso apaixonado e inspirador, mas também bastante insistente ao tratar com os clientes.

O discurso muito passional pode, por exemplo, camuflar o lado ruim do ativo, evidenciar que ele está “encalhado” na prateleira da instituição, ou pior, que há interesses escusos por trás daquela venda.

A desconfiança deve aumentar ainda mais se os riscos do investimento não forem explicitados – não existe investimento totalmente livre de risco.

Quando Belfort começou a vender “micos” (ações de baixo preço, normalmente centavos, e baixa liquidez), a princípio estava de olho nas gordas comissões que poderia conseguir – muito maiores do que poderia obter ao vender ações de empresas graúdas. Até aí, era assim que funcionava o mercado.

Mas ao montar sua própria companhia, seu interesse passou a ser o enriquecimento por meio de um esquema conhecido como “pump and dump”: Belfort comprava as ações de baixo valor e convencia seus clientes a comprá-las também, a fim de inflar seu preço.

Como o preço dos papéis era baixo, a oscilação era violenta. Em seguida, Belfort e sua turma se desfaziam de seus papéis, embolsavam os lucros, e os demais investidores viam os preços de suas ações desabarem antes de poderem reagir.

A questão é que as pessoas compravam esses papéis, mesmo eles sendo de empresas não muito sólidas. As promessas de retornos altos e enriquecimento rápido as seduzia.

Enriquecer rapidamente com investimentos financeiros não é uma tarefa trivial, especialmente para quem tem pouco dinheiro, pouca expertise ou quando a economia atravessa um mau momento.

Da mesma forma, retornos muito altos, muito acima da média, não podem ser encarados como regra. Além disso, ações são ativos de risco, sem retorno garantido.

E quanto à dica de investimento infalível, se ela é tão poderosa, por que aquela pessoa está contando aquilo para você? Ela não deveria guardar a informação só para si para enriquecer sozinha?

As estratégias “boas demais para ser verdade” estão por todo lado. “É o que acontece com as pirâmides financeiras, por exemplo. Sempre que existe um golpe desses, de um lado você tem um golpista e do outro você tem alguém que acredita no milagre”, diz Samy Dana.

3. Invista em educação financeira

Ao começar a sua carreira, Belfort vendia “micos” para profissionais liberais que tinham pouco dinheiro e conhecimento financeiro menor ainda.

Atraídos pelo discurso do enriquecimento rápido e pela venda de sonhos (“você poderá quitar sua hipoteca com o que você vai ganhar com esta ação”, prometeu Belfort a um deles), esses investidores colocavam boa parte das suas suadas economias em ações de empresas que nunca tinham sequer ouvido falar.

Isso não quer dizer que as empresas mais famosas terão as ações mais lucrativas e menos arriscadas, nem que as companhias menos conhecidas serão “micos”, mas sim que algum conhecimento financeiro é necessário antes de se aceitar as ofertas imperdíveis e as dicas infalíveis de investimentos espetaculares.

Quem não entende o funcionamento ou pelo menos os riscos daquilo em que está investindo pode acabar jogando fora as economias de toda uma vida, o dinheiro da aposentadoria, da faculdade dos filhos ou da casa própria. Pior ainda se concentrar todos os seus recursos em uma única aposta, sem diversificar.

Além disso, os danos emocionais podem ser irreversíveis. Criar uma grande expectativa em torno de um negócio e depois se decepcionar com o prejuízo pode trazer problemas psicológicos, familiares e afastar o investidor do mundo dos investimentos para sempre.

4. Cuidado com os “gurus”

Depois de cumprir pena de prisão, Jordan Belfort se tornou orador motivacional, “guru” de vendas e motivação, palestrante e escritor. Um desfecho irônico para alguém que usou seus talentos e seu charme para cometer crimes.

Não obstante, seus livros se tornaram best-sellers, e ele consegue lotar palestras. O filme retrata sua plateia como um bando de pessoas absolutamente inebriadas por seu discurso – talvez pessoas que seriam facilmente levadas a fazer maus negócios pelo Belfort corretor.

Os “gurus” estão por aí e são de fato fascinantes e sedutores. Uma história como a de Belfort faz com que as pessoas fiquem divididas em seus sentimentos.

Se por um lado ele era um sujeito motivador e que trabalhou duro desde cedo, por outro os absurdos de sua trajetória variam do deprimente ao hilariante - ao menos para quem observa do conforto da sala de cinema.

Mas assim como é preciso ser cauteloso com os profissionais de investimentos, também não é interessante se atirar cegamente ao discurso de um “guru”.

Não que o “guru” seja necessariamente uma fraude. “Ele pode acreditar de fato naquilo que ele diz. Se o argumento dele for consistente, há que se testar o método. Mas quanto mais profético for o discurso, maior deve ser a desconfiança”, diz Samy Dana.

Novamente, vale a ideia de considerar seus possíveis conflitos de interesses, a magnitude das promessas feitas e a história de vida do sujeito: será que ele vive o que ele apregoa? E será que você quer se tornar aquilo que ele foi ou é?

“Todo mundo quer fazer bons negócios e procurar atalhos. Para isso há os sujeitos que vendem promessas, mas elas podem ser fraudes ou beirar o misticismo”, alerta Dana.