NOTÍCIAS
24/01/2014 19:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Fifa se esforça para esconder irritação com Copa do Mundo

FIFA Secretary General Jerome Valcke gestures during a press conference offered along with US singer Pitbull and Brazilian singer Claudia Leitte (both out of frame), at the Mario Filho 'Maracana' stadium in Rio de Janeiro, Brazil, on January 23, 2014. Valcke announced that US pop music stars Jennifer Lopez and Pitbull will join Leitte on the official Brazil 2014 FIFA World Cup anthem 'We Are One'. Valcke arrived in Brazil days ago to monitor progress ahead of the football tournament.   AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA        (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)
VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images
FIFA Secretary General Jerome Valcke gestures during a press conference offered along with US singer Pitbull and Brazilian singer Claudia Leitte (both out of frame), at the Mario Filho 'Maracana' stadium in Rio de Janeiro, Brazil, on January 23, 2014. Valcke announced that US pop music stars Jennifer Lopez and Pitbull will join Leitte on the official Brazil 2014 FIFA World Cup anthem 'We Are One'. Valcke arrived in Brazil days ago to monitor progress ahead of the football tournament. AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

A Fifa tem se esforçado para esconder a irritação com os problemas nos preparativos do Brasil para a Copa do Mundo deste ano, mas a entidade que comanda o futebol mundial não pode dizer que não foi alertada.

Os sinais de perigo eram claros desde 2007, quando o Rio de Janeiro sofreu para organizar os Jogos Pan-Americanos.

Estouros de orçamentos, uma expansão do metrô que nunca aconteceu, atrasos e problemas constantes na construção dos locais de competição --muitos dos quais finalizados no último minuto--, deveriam fazer soar o alarme em Zurique.

Mesmo assim, apenas três meses depois, o único candidato a sediar a Copa de 2014, sob o então sistema da Fifa de rotação do torneio pelos continentes, levou a competição sem oposição.

Temas como a obsoleta infraestrutura brasileira, problemas sociais e a violência foram colocados de lado, em meio aos elogios feitos ao Brasil pelas conquistas dentro de campo.

Nos seis anos e meio que se passaram, aconteceu com a Copa do Mundo muito do que ocorreu com o Pan.

Sem poder fazer muito, a Fifa assiste aos organizadores brasileiros não cumprirem prazos, ignorarem os orçamentos iniciais e engavetarem projetos de infraestrutura que representariam um legado da Copa.

Num exemplo recente, a Fifa alertou em maio passado que todos os 12 estádios da Copa do Mundo deveriam estar prontos no fim de 2013 e que atrasos não seriam tolerados. Seis estádios não cumpriram o prazo, e mesmo assim a Fifa nada fez.

Recursos Públicos

O tempo tem sido particularmente cruel com o relatório de inspeção no qual a entidade baseou sua decisão de entregar a Copa do Mundo de 2014 ao Brasil.

"O modelo brasileiro para a Copa do Mundo é dar prioridade ao financiamento privado na construção e nas reformas dos estádios por intermédio de concessões de longo prazo e parcerias público-privadas", afirmaram na época os inspetores da Fifa.

"O objetivo é construir estádios modernos que sigam os requisitos da Fifa, enquanto os recursos públicos são usados em infraestrutura básica, principalmente segurança, aeroportos, estradas e hospitais."

Em vez disso, recursos públicos foram usados para construir estádios, diretamente ou por meio de isenções e empréstimos subsidiados, e muito da infraestrutura prometida não foi viabilizada.

O transporte aéreo tem sido uma grande dor de cabeça, mesmo assim o relatório da Fifa disse no passado que não havia motivos para preocupação.

"A equipe de inspeção concluiu que o Brasil tem a infraestrutura de transporte aéreo necessária para lidar com o número de visitantes internacionais, assim como com o público que desejar viajar de uma sede para a outra para assistir às partidas", disse o documento.

Envolvimento

Quando a África do Sul foi sede da Copa há quatro anos, a Fifa se envolveu mais no processo.

O Brasil, no entanto, fez as coisas do seu jeito, de uma maneira que poucos imaginariam, especialmente considerando que a Fifa sobrevive em boa parte dos recursos da Copa do Mundo.

A Fifa queria de oito a dez sedes para reduzir os problemas logísticos, mas acabou concordando em permitir que o Brasil usasse 12.

Os organizadores locais então decidiram que as seleções viajariam pelo país em vez de disputar os jogos da fase de grupo numa única sede, aumentando o pesadelo logístico.

A Fifa periodicamente ameaçou e criticou os anfitriões, mas depois recuou diante das previsíveis reações indignadas do Brasil, que se orgulha de ser o "país do futebol".

"A Fifa não tem o controle que gostaria sobre a Copa no Brasil", afirmou Christopher Gaffney, pesquisador e professor visitante da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. "Pode ter havido uma falta de entendimento sobre o jeitinho brasileiro", acrescentou.

"A opinião geral no Brasil é que a Fifa tem feito tudo o que quer em termos de benefícios fiscais e políticos e deve deixar os brasileiros tomarem conta da realização do torneio."

Menos Democracia

A frustração da Fifa com as três esferas de poder no Brasil, a municipal, a estadual e a federal, foi exposta de maneira pouco sábia por seu secretário-geral, Jérôme Valcke, em abril.

"Menos democracia é às vezes melhor para organizar uma Copa do Mundo", disse ele. "Quando você tem um forte chefe de Estado, que pode decidir, como talvez Vladimir Putin possa fazer em 2018, isso é mais fácil para os organizadores."

Segundo Gaffney, a Fifa parece desorientada.

"A complexidade da estrutura governamental brasileira para o evento faz com que mesmo a Fifa não tenha ideia de onde buscar respostas."

Diante de tal cenário, tudo que a Fifa pode fazer é cruzar os dedos e falar de confiança mútua.

"Não há problemas", disse o presidente da entidade, Joseph Blatter, na quinta-feira, após encontro com a presidente Dilma Rousseff na sede da Fifa, em Zurique.

"No fim das contas, tudo estará em ordem em todos os lugares do Brasil."