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08/01/2014 17:30 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:38 -02

10 discos para entender o britpop

File photo dated 04/07/13 of Queen Elizabeth II, smiling as she watches Soldiers from the Royal Regiment of Scotland 3 Scots, march past after she presented the regiment with a Pipe Banner, at Dreghorn Barracks in Edinburgh.
Andrew Milligan/PA Wire
File photo dated 04/07/13 of Queen Elizabeth II, smiling as she watches Soldiers from the Royal Regiment of Scotland 3 Scots, march past after she presented the regiment with a Pipe Banner, at Dreghorn Barracks in Edinburgh.

Resposta britânica ao som assumido pelo rock estadunidense no fim dos anos 1980, o Britpop deixou a raiva do Grunge para fluir como uma representação do decadente estilo de vida inglês. Dotado de versos irônicos e arranjos instrumentais melódicos, típicos do rock imposto na década de 1960, o novo “gênero” em pouco tempo atraiu parte expressiva do público, da crítica e principalmente das rádios locais. Logo, o que parecia um movimento específico e regional, em pouco tempo ocupou os ouvidos de boa parte do planeta, se estendendo por toda a década de 1990 – e até além dela.

Do duelo entre Blur e Oasis, passando pela consagração de grupos como Pulp e The Verve, até a avalanche de novas bandas que viriam em sequência, o Britpop talvez seja a maior movimentação (comercial) da cena inglesa desde o ápice dos Beatles. Nesse cenário marcado por obras de plena relevância, selecionamos apenas 10 álbuns íntimos de toda a estética que marca o estilo, o que fez com que obras como o debut do The Stone Roses (1989), Nowhere (1990) do Ride e The Bends (1994) do Radiohead ficassem de fora da seleção.

Blur

Parklife (1994, Food)

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Diferente de outros discos lançados durante a explosão do britpop , Parklife, terceiro registro em estúdio do Blur, ainda hoje se mantém como um disco atual, sendo capaz de gerar o mesmo impacto que o causado na época de seu lançamento. Passado a repercussão não positiva e o baixo número de vendas em relação ao segundo álbum do grupo, Modern Life Is Rubbish (1993), Damon Albarn e seus parceiros viram que era hora de mudar. Brincando com as tendências lançadas na década de 1960, entretanto, não fazendo disso uma cópia como fez o rival Oasis, a banda londrina transformaria Parklife em um registro melódico, cravejado de boas sequências instrumentais e letras memoráveis.

Estão lá clássicos recentes como Girls & Boys, Tracy Jacks e End of a Century, faixas que ainda hoje ecoam com invenção na música inglesa. Flertando de maneira bem decidida com elementos da produção clássica e com as experiências harmônicas lançadas por grupos como The Zombies, este seria o disco que abriria as portas para o embate contra os irmãos Gallagher e todas as transformações que ocupariam a música britânica naquele instante. Base para os lançamentos seguintes da banda, Parklife é um reflexo da sociedade inglesa, um misto de decadência e celebração que ainda hoje flutua pelo tempo.

Elastica

Elastica (1995, Deceptive)

elastica

Em um cenário dominado por homens, Justine Frischmann falou mais alto, ou melhor, gritou. Vocalista do Elastica, a cantora trouxe nas vozes e guitarras a abertura para uma das obras mais precisas de todo o período. Enquanto Parklife e Definitely Maybe garantiram ao Blur e Oasis, respectivamente, um som de fluidez pomposa, a crueza dos acordes e a urgência dos vocais parecia guiar de forma definitiva o trabalho da banda – também composta por Donna Matthews, Annie Holland e Justin Welch. Como resultado, uma sequência de faixas movidas de forma natural pela urgência dos arranjos, caso de Line Up, Waking Up e o hit Connection, que em pouco tempo ultrapassaram os limites da Europa para atingir em cheio os Estados Unidos.

Na época namorado de Frischmann, Damon Albarn (sob o pseudônimo de Dan Abnormal) assumiu a totalidade dos teclados e da construção de parte das faixas, fazendo com que o disco mantivesse linearidade e a fluidez sublime dos arranjos em um grau de forte aproximação com o público. Entretanto, nem a presença de Albarn, como a mão firme de Marc Waterman na produção conseguem tirar o mérito do próprio quarteto.

Kaiser Chiefs

Employment (2005, B-Unique)

kaiser chiefs

Se um dia alguém disser que Employment foi gravado em 1995, porém, lançado somente dez anos mais tarde, eu provavelmente acreditaria. Da energia típica do Blur pós-Parklife, passando pelos sintetizadores que cheiram a Pulp e as melodias típicas do Supergrass, cada instante da obra de estreia do Kaiser Chiefs ecoa proximidade com a fase mais rica do Britpop. E não é por menos. Stephen Street, produtor do álbum já havia trabalhado com o Blur em Modern Life Is Rubbish (1993) e no single Girls & Boys, trazendo para dentro da obra de estreia banda de Leeds toda a carga de referências musicais instaladas na época. O próprio Graham Coxon, inspiração confessa do grupo, aparece “tocando” a motocicleta posicionada na abertura de Saturday Night.

Dessa forma, tanto os sintetizadores coloridos de Everyday I Love You Less and Less, como a estrutura ascendente de I Predict a Riot ecoam como um produto típico dos anos 1990. Definido por um conjunto harmônico de canções, Employment mais parece um Greatest Hits tamanha a quantidade de hits prontos em seu interiro, efeito que serviu para apresentar oficialmente a banda ao grande público, mas nasceu como uma eterna barreira a ser superada nos trabalhos seguintes.

Manic Street Preachers

The Holy Bible (1994, Epic)

maniac

De todos os registros que definiram o Britpop na década de 1990, The Holy Bible, terceiro álbum de estúdio do Manic Street Preachers, talvez seja o mais instável e peculiar. Fracasso de vendas na época de seu lançamento – o disco foi apresentado na mesma semana em que o Oasis estreou com Definitely Maybe -, a obra encontra na lírica crua de Richey Edwards um dos retratos mais perturbadores de todo o período, ou mesmo além dele. Sufocado pelos problemas com drogas, depressão e a anorexia (evidente em grande parte das letras), Edwards fez de canções como Die in the Summertime, Revol e She Is Suffering uma completa oposição ao que guiava a obra de tantos artistas próximos.

Agressivo, efeito dos vocais desesperados de James Dean Bradfield, o disco passeia com liberdade pela década de 1970, encontrando em elementos do Glam Rock e aspectos específicos do Pós-Punk um soco nas melodias cantaroláveis que definiam a obra de Blur e conterrâneos. Sombrio até a última faixa, o disco veio como uma carta de despedida de Edwards, que desapareceria misteriosamente no ano seguinte.

Oasis

(What’s The Story) Morning Glory? (1995, Epic)

oasis

Enquanto Definitely Maybe (1994) veio para estabelecer as regras e apresentar oficialmente o Oasis, (What’s The Story) Morning Glory? arremessou o grupo de forma definitiva para o topo das paradas britânicas. Construído em cima de um cardápio de hits plásticos que jamais seriam igualado pela banda, o álbum abre com a crueza de Roll with It, mergulha na amargura de Don’t Look Back in Anger, até se explodir na psicodelia de Champagne Supernova – com seus mais de sete minutos de duração. São pouco mais de 50 minutos de faixas alimentadas pelo passado, representação e tempo mais do que o suficiente para posicionar os irmãos Liam e Noel Gallagher em um lugar de destaque do cenário inglês – intocável ainda hoje.

Com boas vendas, resultado do conjunto melódico que define a obra, o registro assume em totalidade o fascínio da dupla pelos Beatles, efeito detalhado na composição dos arranjos, como nos versos e títulos das canções – a própria Wonderwall resgata o título de uma trilha sonora assinada por George Harrison. De forma clara, a obra que consagrou o Oasis e ao mesmo tempo a abertura de uma carreira pontuada até o último ato pela redundância.

Pulp

Different Class (1995, Universal)

pulp

Se o britpop pudesse ser definido em um só disco, Different Class, quinto álbum de estúdio do Pulp provavelmente seria o escolhido para isso. Nascido no meio da batalha épica entre Blur e Oasis, o álbum trouxe no olhar para a classe operária e as “pessoas comuns” um afastamento em relação ao que anunciavam os proclamadores da Cool Britannia. Livre dos luxos e apostando em uma sonoridade particular, “simples”, a banda comandada por Jarvis Cocker fez nascer algumas das composições mais significativas de todo o período. Estão lá hinos como I Spy, Disco 2000 e, principalmente, o clássico Common People, música que garantiu ao grupo uma passagem direta para o topo da cena inglesa.

Produzido por Chris Thomas, que já havia trabalhado com veteranos como Beatles e Pink Floyd, o trabalho ultrapassa os limites dos anos 1960, tão em voga durante o período, resgatando elementos específicos das décadas seguintes até surgir como um catálogo de novidades. Ponto evidente de maturidade, Different Class viria a reverberar mesmo nos trabalhos seguintes, algo explícito na forma como This Is Hardcore (1998) e We Love Life (2001) partilham da mesma essência lírica e instrumental.

Suede

Dog Man Star (1994, Nude)

suede

Poucas bandas que cresceram na década de 1990 souberam usar tão bem as próprias referências quanto o Suede. Do Glam Rock de David Bowie e T. Rex, passando pelas melodias típicas dos Smiths, cada elemento testado no primeiro registro em estúdio da banda garantiu um posto de destaque ao projeto comandado por Brett Anderson. Entretanto, é no lançamento de Dog Man Star, de 1994, que a banda soube de fato soube como usar toda a base de inspirações de forma assertiva.

Mais do que mergulhar em aspectos específicos da produção testada entre os anos 1970 e 1980, o segundo registro em estúdio do grupo trouxe uma imposição autoral por parte dos sons e principalmente versos. Com letras pontuadas pelo sexo, abandono e pequenas confissões, o álbum segue até o último segundo em uma atmosfera sombria, contraponto ao estágio de celebração, tão explícito na música da época. Enquanto Blur e Oasis tingiam com ironia os luxos da sociedade inglesa, Dog Man Star veio como uma representação exata da melancolia que crescia nos subúrbios.

Supergrass

I Should Coco (1995, Parlophone)

supergrass

Enquanto boa parte das bandas da inglesas (do período) encontraram no cinismo um ponto de sustento para a própria obra, os membros do Supregrass resolveram seguir pelo caminho oposto. Apostando em uma sonoridade enérgica e bem humorada, o grupo de Oxford fez do primeiro álbum uma sequência de faixas íntimas de toda a exaltação firmada nos anos 1960. Apadrinhado pelo elogio de bandas como Blur e Elastica, I Should Coco, registro de estreia da banda comandada por Gaz Coombes, não custou a atingir o primeiro lugar nas paradas de sucesso, transformando o grupo em um dos mais relevantes do período.

Mesmo que o hit Alright tenha facilitado a passagem da banda para o estrelato, cada instante do registro se sustenta em um coro de vozes melódicas e guitarras inquietas. Da fluidez intensa que abra Lose It, passando pelas confissões de Strange Ones até a sutileza de Time to Go, no fecho do disco, todos os ingredientes do álbum antecipam elementos específicos do que o grupo traria como marca para o restante da carreira.

The La’s

The La’s (Polydor)

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Antes que Oasis, Blur, Pulp e toda a avalanche de bandas que marcaram o britpop ao longo da década de 1990 conquistassem real destaque, foi com o primeiro (e único) registro em estúdio do The La’s que diversos elementos deste cenário foram acertados. Resgatando elementos específicos dos sons que marcaram a produção dos anos 1960 – como as melodias de voz -, além de trabalhar as guitarras de forma a contrapor o que abastecia a musica inglesa naquele período, o grupo conseguiu transformar o registro em um combustível para o que toda uma geração de bandas viriam a estabelecer em poucos anos.

Espécie de coletânea, o trabalho concentra desde composições lançadas pelo grupo no decorrer dos anos 1980 (como Way Out e There She Goes) até faixas construídas especialmente para a estreia da banda. Lançado sob pressão da gravadora, o registro levou anos até ser “finalizado”, tamanho o cuidado e o perfeccionismo de Lee Mavers, resultado que praticamente levou o grupo a encerrar as atividades poucos anos depois.

The Verve

Urban Hymns (1997, Virgin)

the verve

Em 1997 o Britpop começava a perder a força. Enquanto o Blur saía vitorioso da batalha contra o Oasis, arremessando as guitarras do quarto álbum para cima da morosidade de Be Here Now, a eletrônica inglesa aos poucos ganhava melhores contornos e ocupava um maior espaço no mesmo universo. No meio desse panorama de baixas expectativas, o anunciado retorno do The Verve, desfeito dois anos antes, reacendeu as chamas do público inglês. Com toda a banda de volta em estúdio, resultado do esforço de Richard Ashcroft, os elementos para a construção exata do disco estavam a postos, o que naturalmente transformou Urban Hymns na obra mais completa de toda a discografia da banda.

Por vezes oculto por conta da natural grandeza do hit Bitter Sweet Symphony, o trabalho concentra no restante das faixas uma continuação daquilo que A Storm in Heaven (1993) e A Northern Soul (1995) haviam anunciado anos antes. Verdadeiro cardápio de obras essências para a cena britânica, o trabalho concentra em músicas como The Drugs Don’t Work e Sonnet algumas das faixas mais importantes de todo o repertório da banda, bem como um dos últimos suspiros genuínos da produção gerada durante o período.