OPINIÃO
26/02/2015 13:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Como ruiu a ordem pós-Guerra Fria

A amarga disputa na Ucrânia é só mais uma manifestação de como está ruindo a ordem mundial. O Estado Islâmico é um exemplo ainda mais marcante disso. Ao apagar fronteiras, o EI não só desafia a ordem estabelecida no Oriente Médio como também mostra uma crueldade cada vez mais selvagem, aterrorizando seus oponentes como execuções públicas horrendas.

Moscow Times

MOSCOU - A saída das tropas ucranianas de Debaltseve remove um grande obstáculo para a implementação do recente acordo de Minsk. Mas ela também tem outro significado. Não foi o lado ucraniano, mas seus oponentes - que trabalham para desmantelar o atual Estado ucraniano - que determinaram o fim dos combates.

Isso é altamente simbólico, e não somente em relação a esse conflito em particular. O mundo entrou numa fase estranha, na qual se questionam as ideias que sustentam as eras históricas recentes. Isso inclui a ideia do Estado soberano, um entendimento que emergiu do Iluminismo europeu e do resultado da formação dos Estados europeus depois da Paz de Westphalia, uma série de acordos de paz assinados em 1648 que acabaram com várias guerras no continente.

A amarga disputa na Ucrânia é só mais uma manifestação de como está ruindo a ordem mundial. O Estado Islâmico é um exemplo ainda mais marcante disso. Ao apagar fronteiras, o EI não só desafia a ordem estabelecida no Oriente Médio como também mostra uma crueldade cada vez mais selvagem, aterrorizando seus oponentes como execuções públicas horrendas.

Em geral, reina um espírito medieval, com guerras destrutivas para ambos os lados em conflito e nas quais a única estratégia, se é que ela existe, é entregar-se à paixão pelo sangue. Esse desejo de revidar com uma força cem vezes maior - mesmo se o inimigo de hoje é o vizinho ou amigo de ontem - muitas vezes se mistura ao fanatismo religioso ou ao nacionalismo cego.

Pouco mais de 20 anos atrás, o cientista político americano Samuel Huntington sugeriu que uma guerra de civilizações seria inevitável depois do fim da Guerra Fria. Em meio à euforia no Ocidente, muitos rejeitaram o alerta. E, apesar de sua teoria ser um pouco simplificada demais, Huntington não sucumbiu à ilusão de que a humanidade havia resolvido todos os seus desafios fundamentais com o colapso do comunismo.

Séculos atrás, "bons cristãos" tinham grande prazer em queimar pessoas vivas ou massacrar cidades inteiras para eliminar seus inimigos, justamente como o Estado Islâmico faz hoje. Em qualquer período histórico, sempre houve conflitos motivados pelo princípio do "olho por olho", qualquer que fosse a "civilização" envolvida. Com o tempo, progressos políticos e sociais criaram regulações para restringir essas manifestações de barbárie ancestral.

Por que Huntington e outros pessimistas do começo dos anos 1990 estavam certo, afinal? Acreditava-se que o colapso da União Soviética e do bloco comunista tivesse derrubado as barreiras sistêmicas que impediam a chegada do pensamento humanitário e social mais avançado, produto do Iluminismo europeu, ao mundo inteiro.

E é aqui que surgem as discordâncias que nos trazem à situação atual. Numa tentativa de acelerar a história, as potências mundiais - que, no fim do século 20 estavam exclusivamente no Ocidente - começaram a rever os princípios-chave sobre os quais haviam sido erguidas as relações internacionais nos 400 anos anteriores.

Isso significa essencialmente o princípio da inviolabilidade da soberania do Estado e das nações-Estado como blocos básicos para a construção do sistema global. Essa redefinição das atitudes em relação à soberania nacional teve o maior impacto nos eventos globais desde os anos 1990.

O entendimento clássico de soberania foi desenvolvido a partir de uma combinação de fatores. Entre os mais objetivos está a globalização da economia e das informações que cruzam fronteiras nacionais. Fatores subjetivos incluem, primeiro, a integração de princípios humanitários com a finalidade e atingir objetivos políticos e, segundo, o sucesso da integração europeia.

A consequência dessa "humanização" é o conceito da "responsabilidade de proteger", adotada na ONU como um imperativo moral, não legal. Pela primeira vez, estabeleceu-se a possibilidade de intervenções militares nos assuntos de um estado soberano com base em razões morais.

Observadores apontaram repetidas vezes os problemas desse princípio, dada a falta de critérios claramente definidos para as intervenções e até mesmo a impossibilidade de definir tais critérios. Mas, a despeito do resultado, o princípio da soberania foi questionado.

Com relação à integração europeia, no começo do século o projeto parecia tão bem sucedido que outros países desejaram fazer o mesmo. A UE não é um exemplo de estrutura que exige que seus membros abram mão da soberania, mas sim um processo sério segundo o qual os Estados perdem certos privilégios em troca de oportunidades maiores.

Segundo o ideal europeu, as fronteiras nacionais não desaparecem, mas gradualmente se dissolvem na grande comunidade. Elas continuam existindo, mas com importância secundária. Todo mundo entendeu as condições únicas que tornaram possível esse modelo, mas a sensação e a autopercepção da Europa como um padrão para os outros há muito define o comportamento da UE e sua percepção no mundo.

Mas o fato de que a Europa tenha se transformado na personificação do pós-modernismo político levou outros lugares ao pré-modernismo.

O Estado-nação soberano deixou de ser o fator determinante em sistemas que parecem ter emergido depois da Guerra Fria, o que era considerado um sinal certeiro de progresso histórico. Mas essa rejeição do elemento fundamental da ordem mundial, é claro, quebrou o modelo desenvolvido nos séculos anteriores.

A humanidade não caminhou para a frente, mas em direção a um lugar desconhecido. E também para trás, para uma realidade pré-Westphaliana em que afiliações tribais e religiosas eram mais importantes que cidadania neste ou naquele Estado-nação.

Depois de uma rápida e fracassada tentativa de construir um mundo pós-modernista, os esforços foram concentrados no modernismo, mas agora isso tudo se reverteu a algo que lembra a Idade Média. Os principais exemplos são a fragmentação feudal da Ucrânia e a fúria fanática do Estado Islâmico, que carrega o fogo e a espada da "fé verdadeira", sem consideração por fronteiras nacionais.

No ritmo atual dos eventos, essa atual "Guerra dos Trinta Anos" vai se desenrolar muito mais rapidamente que seu antecedente histórico, mas vai manter o aspecto de um conflito multinível que se acalma e acende de novo, repetidamente.

A chamada "guerra híbrida" de que falam os observadores é uma volta aos tempos antes da aparição dos Estados-nação. Como naquela era, a grande diversidade de identidades religiosas, tribais e geográficas explicam a estranheza dos meios e a natureza mutante dos objetivos.

Isso claramente não é o destino final: a história não acaba aqui. Talvez ela se desenvolva em forma espiral, como a consolidação renovada do Estado como a única maneira de proteger as populações das ameaças que vêm do lado de lá da fronteira. Isso é terreno fértil não para as guerras híbridas, mas sim para os enfrentamentos clássicos entre Estados.

Ou, pelo contrário, o Estado não será capaz de provar seu direito do uso da violência e de representar coletivamente os interesses dos cidadãos que correm em busca de novas formas de autoorganização. Ou, ainda, essa nova forma de autodeterminação vai levar ao cenário previsto por Huntington.

De qualquer modo, era pós-Guerra Fria será lembrada como uma ilustração do contraste gritante entre as intenções e expectativas, por um lado, e os resultados da tentativa de traduzi-las em algo real, pelo outro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.