OPINIÃO

'Eu adoraria ter aprendido mais com a presença do que com a ausência do meu pai'

16/01/2016 20:12 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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USA, Illinois, Metamora, Father's and daughter's shoes on door mat

Por Serge Bielanko

Sempre fui um filho da mãe.

Sou uma daquelas pessoas temperamentais/criativas/dedicadas/malucas. Tenho a tendência inata a criar dependências e vícios, e quando me interesso por alguma coisa - ou, pior ainda, por alguém --, mergulho fundo na coisa ou na mulher, desde o pôr do sol até o amanhecer, e não estou nem aí se a impressão causada é estranha ou se alguma coisa cheira mal.

Nunca dei a mínima para o que pensam os outros. Ao mesmo tempo, sempre me importei muito demais com o que as pessoas pensam.

Sou um cara super confuso.

Às vezes tenho vontade de atribuir todas as partes ruins de quem sou ou quem fui ao fato de meu pai ter nos abandonado de repente, muito tempo atrás. Hoje em dia não se passa um dia sem eu refletir sobre a ideia de que ser abandonado por meu próprio pai quando eu tinha 9 anos de idade talvez tenha me marcado de maneiras que nunca sequer reconheci ou encarei.

Mas tenho dificuldade com pensamentos como esses, porque tenho dignidade e autoconhecimento. Eu adoraria atribuir muito do meu lado mais sombrio ou mais mesquinho ao pai que partiu meu coração, mas, se o fizer, estarei fugindo da responsabilidade. Se eu simplesmente der uma última tragada, jogar a bituca no chão e colocar a culpa por minhas próprias falhas/fragilidades humanas no pai que me abandonou, como fica?

Como você pode se tornar um ser humano melhor/mais bacana/mais pacífico/amoroso, mesmo aos 44 anos de idade, se não tentar, pelo menos, entender aquilo que nunca vai poder entender?

Não sei qual é a resposta.

Não imagino que tenha sido sempre fácil ser casada comigo, nem se foi fácil em algum momento. Estou divorciado agora. Isso já deve revelar alguma coisa.

Mas meu problema é o seguinte: por mais que eu tente ser durão/emocional/um homem 10, quando ponho um zoom sério sobre meu eu casado - olhando em retrospectiva numa tentativa de me esquivar da responsabilidade pelo fracasso de uma paixão rápida e soturna que se transformou em casamento com filhos --, não consigo deixar de sempre voltar para aquela mesma M: meu pai.

Já tentei ao máximo me convencer de que ser um filho sem pai não tem efeito real sobre como você se vira como marido, ou mesmo como homem. Mas já chega. É cansativo demais. Não paro de dar voltas e mais voltas no mesmo quarteirão de sempre.

A ausência dele na minha vida pesou, sim. Tive dificuldade enorme em descobrir como ser marido, simplesmente porque eu cresci sem pai - e odeio dizer isso. Tenho vontade de me dar um soco na cara só por pensar assim. Mas não paro de reconhecer essa verdade repulsiva cada vez que reviro alguma pedra do meu casamento passado, para ver se encontro alguma pista escondida embaixo dela.

Quando eu me casei, não estava preparado para ser marido. E não foi porque não esperamos nove anos e vivemos juntos em algum apartamentinho fuleiro por um tempão até "sentirmos" que finalmente estávamos preparados para o sagrado matrimônio. Isso é mentira.

Eu não estava preparado para ser marido porque não conheci na minha vida tantas coisas que um marido tem a oferecer, ou seja, a capacidade de amar/aprender/conhecimento/escola da vida, coisas que um marido geralmente aprende com seu próprio pai ao longo dos anos.

Será que estou falando bobagem? Estou criando algum tipo de conto de fadas paterno, alguma coisa que nunca é assim na realidade? Acho que não.

Não estou dizendo que seja absolutamente OBRIGATÓRIO ter um pai na sua vida para você poder ser um marido bacana. De modo algum. Você deve conhecer alguns caras que nunca tiveram um pai bom mas que acabaram virando maridos atentos, amorosos, trabalhadores e bons ouvintes.

Mas às vezes as mulheres acabam se casando com caras como eu, e há muitos como eu aí fora. Fui criado por mãe solteira, e ela me amou demais. Depois, a partir dos 17 anos, tive um padrasto, e ele também me amou demais. Mesmo assim, alguma coisa monumental e bela ficou faltando na minha vida.

Não herdei nada que me ensinasse a "ser homem". Tive que aprender tudo sozinho e deixei a desejar em muitas coisas.

Em matéria das coisas que eu poderia ter aprendido com meu pai ou teria adorado aprender com ele nos bate-papos pai e filho dos meus sonhos, eu cheguei ao casamento de mãos abanando. Em vez de trazer tudo aquilo, eu trouxe o contrário.

Eu era o malandro, o vigarista emocional autodidata. Eu queria tanto amar e ser amado, mas era zero à esquerda em matéria de entender como o amor vai e vem e como requer infinita paciência e compreensão. Eu queria amar uma mulher para sempre, queria que ela me amasse para sempre e pensei que trocar votos de casamento fosse a garantia disso. Eu estava vivendo na superfície das coisas, porque foi só isso que conheci por toda minha vida.

Deve ter sido duro ser casado com um cara que tinha tantos lados atraentes, bacanas e sedutores, mas não tinha a menor ideia de como se virar no casamento. É claro que o divórcio não foi culpa apenas minha, mas hoje posso olhar você nos olhos e lhe dizer que, em matéria de amor verdadeiro, eu não sabia nada, eu era peixe fora d'água.

E sei que a falta de um pai na minha vida foi uma das grandes razões disso. Hoje só me resta aceitar esse fato e tentar dar uma virada na situação. As pessoas podem partir seu coração quando o deixam, e a dor que elas deixam é duradoura, mas sou um amante autodidata e um homem que se construiu sozinho, de todas as maneiras e formas.

Agora que entendi o que está acontecendo, quem sabe, de repente posso ser um dos caras mais maneiros do mundo que já entrou num bar/parou de repente/se perdeu no sorriso de uma garota que saiu com suas amigas para tomar umas e outras numa noite de quarta-feira. E então isso aconteceu e você entrou na minha vida.

Assim espero, pelo menos. Espero MESMO.

Este artigo saiu originalmente no YourTango.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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