OPINIÃO

Você ainda não viu nada. É só um ano do Coletivo Nuvem Negra

13/04/2016 15:33 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução

Texto escrito por: Coletivo Nuvem Negra*

"A descolonização nunca passa despercebida, pois ela atinge o ser, ela transforma espectadores esmagados de inessencialidade em atores privilegiados" (Frantz Fanon)

Este mês o Coletivo Nuvem Negra completa um ano de existência, resistência, insistência e luta. Há um ano, uma Nuvem Negra se formou. Forte e potente. Trovejante e sagaz. Um misto de generosidade e fúria. Há um ano nós surgimos. Negros e negras que se olharam nos olhos e se reconheceram um no outro.

Exatamente, no dia 1 de abril de 2015, em uma quarta-feira, tivemos nosso primeiro encontro. Foi o dia em que o CASOC (casa que abriga os centros acadêmicos de Ciências Sociais, História e Serviço Social) transformou-se em quilombo.

A Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) desde então nunca mais foi a mesma. A Nuvem Negra se fixou com a sua presença, seus raios, trovões e tempestades de Xangô e Iansã no céu de nuvens brancas, provocando mudanças no cotidiano desta Universidade.

Como a intervenção negra nunca passa despercebida, a reivindicação do protagonismo negro nunca é só um detalhe. Não seria diferente para alunas/os negras/os, que buscam fortalecer seu lugar dentro da universidade, que buscam se reconhecerem no espaço que ocupam, influenciando, propondo e questionando os saberes, os velhos paradigmas, epistemologias que chegam até nós, não por acaso, através de professoras/es, em sua maioria quase absoluta, brancos.

Acreditamos ser fundamental que enquanto pretas/os universitários questionemos, "rumo a exorcizar as falsidades, distorções e negações" (NASCIMENTO, 1980, p. 2) acerca da importância dos conhecimentos negro-africanos.

"Adentrar à universidade, longe de constituir-se em superação dos estigmas e estereótipos, é o momento da confrontação final, no campo do conhecimento [...]. Aí a branquitude do saber [...] a autoridade exclusiva da fala do branco, são os fantasmas que têm de ser enfrentados sem mediações" (CARNEIRO, 2005, p 123).

O racismo, seja em que esfera for, não será esquecido, negligenciado ou maquiado. Nós estamos aqui, na PUC-Rio. Nós estamos, há um ano, apenas preparando o caminho, sinalizando para negras/os: "Podem vir, estamos aqui, e estaremos com vocês e por vocês".

Olhamos para nós mesmos e nos orgulhamos de nossa história. Olhamos para frente, e com a generosidade e fúria que nos são próprias, reafirmamos a quem nos conheceu: você ainda não viu nada.

Diante disto, é com imensa alegria que convidamos a todas/os para participarem de nossa comemoração. Teremos uma palestra com o tema: "Racismo no Ensino Superior e a Colonização do Pensamento: Discussões sobre a Lei 10.639/03", na quinta-feira, 14, das 15h às 17h, no auditório B8 - PUC-Rio.

O encontro vai reunir o prof. Dr Amauri M. Pereira; o prof. Dr. Otair Fernandes o (LEAFRO-UFRRJ) e a doutoranda do Dept de Educação da PUC-Rio Sandra Marcelino. A discussão será mediada pela estudante de Relações Internacionais e integrante do Coletivo Nuvem Negra, Natany Luiz. Em seguida, convidamos a todas/os para uma festa no CASOC, na Vila dos Diretórios, das 18h às 23h.

*O Coletivo Nuvem Negra é composto por alunos/as dos Cursos e Centros Acadêmicos de Ciências Sociais, História, Serviço Social, Geografia, Relações Internacionais, Comunicação Social, Direito, Teologia, Arte e Design. Ele tem por objetivo posicionar-se politicamente dentro da PUC-Rio, pautando e disputando as demandas específicas da comunidade negra.

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