OPINIÃO

Ninguém deveria receber <br/>R$ 500.000 por mês

20/03/2014 11:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Vejo que os meus pais, amigos e pessoas que me conhecem nas circulações que faço na cidade nutrem um certo carinho e gosto pelos meus 21 anos bem vividos no trabalho, na educação, na minha formação literária e artística. Sinceramente, reconheço todo o meu esforço e, mais intimamente, sei o que sinto quando alguém me para na Central do Brasil pedindo leite para o seu filho. Sei o que sinto quando reflito e vejo que a desigualdade social produz a miséria do mundo: guerra e morte. E, desde pequena, dizia que queria ser juíza porque eu já notava, por ter aprendido com o meu pai a olhar o outro, que tem que ter justiça. E justiça não se mede com o valor que você paga no seu IPVA ou IPTU, não se mede justiça. Tem que ser igual para todos. Espero que toda a minha caminhada contribua para a diminuição das violências.

Eu quero ver sim um Rio de Janeiro onde o 8 de março é o dia nacional da luta dxs garis. Que haja diálogo, sempre. Que haja encontro. Que haja luta!

Que os futuros planejamentos geográficos/urbanos produzam mais encontros na cidade, para que as diferenças se encontrem e formem novas vivências, novidades, amor, menos desigualdade.

Menos desigualdade sempre! É o que desejo.

Ninguém deveria ganhar R$ 500.000 por mês. Ninguém precisa disso para viver. Se quem justifica isso com o argumento composto da palavra mérito, deveria andar mais de ônibus, de metrô, de trem. Sair do eixo rico das grandes cidades e conversar com as pessoas.

Meu pai faz obra desde que me entendo por gente e ainda é porteiro noturno do meu prédio, desses que ficam de 20h às 8h ouvindo tiro e com o olho no portão e na rua, zelando pela segurança dos que moram no condomínio e ganham o triplo do que ele recebe por mês. De dia, ele faz obra para conseguir pagar as contas.

Eu tenho um trabalho, mil ideias na cabeça e muito desejo. Eu trabalho com a mente e com o coração. Meu pai, com a mente, com os braços e com o coração. E eu recebo, aos 21 anos, um pouquinho a mais que o meu pai ganha por mês. Isso porque já estou quase terminando a faculdade e fui estimulada por ele a conhecer e ouvir pessoas. Porque ele me deu a chance de querer ser exatamente aquilo que sempre quis ser. Mas não teve pai nem mãe para estimular, pois ele tinha que trabalhar antes mesmo de saber no que trabalhar ou o que queria ser. Seu Osmar, meu pai, me ensinou a estar atenta e reconhecer desigualdade e injustiças, a não ser mais uma que busca ganhar 500 mil por mês e que se dane o resto.

Se fosse por uma questão meritocrática, será mesmo que eu deveria ganhar um pouquinho a mais que meu pai, que trabalha 12 horas por dia e eu trabalho 6 horas? Será mesmo que cada pessoa que anda no metrô, no trem, no ônibus, que limpa o xixi, a poeira da casa de quem ganha R$ 500.000 merece ganhar o que ganha? Merece ter a cidade que tem? As condições precárias em que vive? Não ter direitos básicos que toda pessoa deveria ter? Não digo que todas as pessoas que andam de transporte público sofrem socialmente e economicamente. Coloco o transporte público como exemplo pois é um meio que todo trabalhador utiliza para se deslocar na cidade.

Para mim, não adianta reclamar que tem medo de andar na cidade, que pode ser assaltado, morto, passar por situações violentas, não tem segurança e paz, se você só trabalha para fazer o capital girar.

A cada circulada que eu faço na cidade, tenho uma certeza: é preciso trabalhar para diminuir as desigualdades, sejam elas quais forem. Desigualdade só traz dor, dor para mim, dor para você.

Ainda há nessa vida quem não sofra com o problema de distribuição de renda no Brasil. Ou não se importe, não queira enxergar. Se eu fosse escolher, agora, entrar na faculdade, cursaria economia.

Sei que vou morrer com um gosto amargo na boca por saber que ainda há desigualdade onde nasci.

Antes mesmo de morrer, quero olhar para a minha trajetória e ver se eu produzi mais desigualdades ou mais igualdades de direitos, pois sei que também alimento desigualdades, como todas as pessoas. Espero, ainda, morrer não sabendo que fiz minha parte, mas sim por saber que tem um monte de gente trabalhando para que nesse lugar exista mais igualdade.