OPINIÃO

Por que a gente não tem amigo trans?

26/03/2015 17:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
reprodução/facebook/maria clara araújo

É o que ando pensando esses dias. Não tenho nenhuma pretensão de estudar essa questão na academia porque acho que é hora das próprias pessoas trans escreverem cada vez mais sobre suas questões. Acho que não tenho que ser protagonista nessas questões. Mas vejo que é tarefa nossa, também, de cada vez mais nos fortalecer, lutando sempre por novas representações.

Nunca circularam pela minha casa pessoas trans. Minha família também não convive com pessoas trans.

A gente não convive com pessoas trans. E isso é uma entre as muitas das estratégias que o Estado, a mídia, e tudo aquilo que pauta e organiza nossa socialização, criou para que a gente não convivesse com pessoas trans, isolando-as, mostrando que o lugar delas são os piores: AIDS, promiscuidade, drogas, problemas psicológicos, pessoas violentas (vide a história da navalha - "não chegue perto delas, travesti anda de navalha"), prostituição. Quando falamos em travesti, é nisso que pensamos, pessoas da noite, que ficam na esquina, "rodando bolsinha", debaixo de um poste de luz amarela piscando e ela rezando para não queimar porque pra ela comer, ela precisa ser vista.

Mas eles também não dizem que as pessoas trans, além de todo o espancamento moral, são as que mais morrem no Brasil. Todos os dias.

Elas são isoladas pelo Estado, que recentemente começa um movimento de criação de políticas públicas, por exemplo, como se pessoas trans começassem a "surgir" agora, depois que "a novela mostrou" que elas existem; são isoladas também por nós, que não fazemos esse tipo de pergunta, que vivemos num mundo binário (ou é homem ou é mulher). Ou então que identificamos travesti como homem afeminado. E não é isso. Também não somos educados a pensar assim, a questionar assim.

Tenho certeza que o que me fez pensar nisso foi a militância. E mais do que "ah, você é daquela galera dos direitos humanos, do politicamente correto" e tantas outras frases que querem nos reduzir e silenciar, vejo que o papel da militância é o de inverter isso. Porque quanto mais a gente muda de classe social e econômica, começa a circular em espaços elitizados, como a universidade, por exemplo, menos a gente convive com essas pessoas. E isso tem explicação.

Dia desses eu estava no sarau v, que falava de diversidade sexual. Eu tenho muito respeito e admiração por essa galera que ressignifica os espaços públicos da cidade em que nasci, Nova Iguaçu. A última edição do sarau, reconheço, foi binário. Era gay e lésbica a pauta, pessoas cis. Não tinha travesti. Mas não porque a Janaina, o Matheus, a Carol, o Gabriel, ou os demais organizadores, não queriam. Uma menina pegou o microfone e colocou um ponto: "por que aqui não tem travesti? Porque já são mais de dez da noite. Essa é a hora que elas estão na rua trabalhando para sobreviver."

As pessoas trans marginalizadas por todos nós não podem participar da construção de políticas públicas e das discussões que estamos diariamente envolvidos porque elas precisam estar na noite trabalhando para comer. E durante toda vida nós acreditamos que elas fazem isso porque são doentes, promiscuas, e tudo aquilo que há de pior.

Porém, Miriam me indicou um vídeo muito interessante feito pelo Canal das Bee, com a Indianara Siqueira, a quem tenho máximo respeito. Ela dá uma AULA super importante e fundamental sobre o direito a prostituição e que numa sociedade capitalista, sim, nós trabalhamos para sobreviver. Tem que ver.

Tenho muito orgulho de Maria Clara Araújo por tudo que faz, que fala, representa. Recentemente ela passou na Universidade Federal de Pernambuco e vai ter travesti na pedagogia sim! Também tenho orgulho de Julia Dutra, primeira transexual a ser diretora de um colégio público no Rio, porque representatividade importa! Orgulho de Dora Silva Santana, que está no Texas em um programa de doutorado. Orgulho pra nós é Mc Xuxu que vai na penitenciária feminina fazer trabalho de base. A saber: presídio feminino, principalmente, é onde reside a solidão, o abandono, as mulheres são as que menos recebem visitas no ano, algumas passam anos sem ver ninguém de fora.

A transfobia está dentro de nós. É um papel nosso inverter isso. Nós, que estamos ocupando os espaços, sejam eles quais forem, onde cada vez mais o que falamos e acreditamos tem ganhado força. É responsabilidade dessa geração que veio do "nada", mas que é justamente esse "nada" que está implodindo o Brasil, que agora manda branquinho da classe média alta da USP calar a boca que ele não vai assistir aula de economia, que ele vai ter que ouvir essas pessoas, que o que ele chama de "vitimização" eu chamo de "silenciadxs a vida toda". Eu acredito que são essas as pessoas que podem disputar por dentro e por fora, e mudar isso, um passinho de cada vez e já vejo mudanças.

Eu dedico esse texto à Maria Clara Araújo, ao Miriam, à Dora, à Julia Dutra, MC Xuxu e todas as outras pessoas trans que estão na luta todos os dias. Dedico porque tenho muito orgulho de vocês, de aprender com vocês, de me desconstruir com vocês, pessoas lindas que são exatamente aquilo que ninguém esperava que vocês fossem.