OPINIÃO

Sobre sonhos, pesadelos e a tal da terceirização

Desde pequena, via as crianças de Hollywood se divertindo no banho com seus apetrechos aquáticos. Finalmente pude fazer igual.

23/03/2017 11:58 -03 | Atualizado 28/03/2017 11:28 -03
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'Tentando, inutilmente, evitar que minha champagne caísse, ainda me esforcei para me esgueirar e sair dali.'

Eu estava numa banheira daquelas Jacuzzi, classe A, tomandochampagne e comendo morangos. Desde pequena, via as crianças deHollywood se divertindo no banho com seus apetrechos aquáticos. Finalmente, eu tinha a chance de fazer igual.

Me deslumbrando com a espuma da hidromassagem e a da taça de cristal, coloquei meu brinquedo mais fofo dentro d'água. Chegou sua hora de nadar patinho! Quack, quack...

Achei que eu estava bêbada quando percebi que o pato estava ficando maior. Ele crescia e inflava e eu assistia, paralisada, àquele espetáculo. A água já não era suficiente para fazê-lo boiar e demorei até me dar conta de que eu estava sendo esmagada por ele. Me assustei quando vi que já não havia espaço para mim ali. Ele ia me sufocar!

Tentando, inutilmente, evitar que minha champagne caísse, ainda me esforcei para me esgueirar e sair dali. Foi aí que tudo mudou. BAM! Com um barulho ensurdecedor e de deixar qualquer um desnorteado, o pato explodiu! Desesperada, eu esfregava meus olhos esperando que aquela cegueira momentânea passasse. Quando voltei a enxergar, emudeci.

Com a explosão patológica surgiram milhões de patinhos, eles estavam em todos os cantos e gritavam ameaçadoramente enquanto vinham em minha direção. Eu tentava gritar, mas ninguém me ouvia. A essa altura eles já me arrastavam pra fora do banho e me arremessavam sem dó no chão duro e frio. Nua, solitária e sem forças, desmaiei.

* * *

Hoje eu acordei com a cabeça pesada. Algo entre a sensação de quando você tá com ressaca e aquela de quando você fica tendo o mesmo pesadelo a noite inteira e não consegue descansar, sabe?

Enquanto eu passeava pela timeline do Facebook, sentada na privada, comprovei que meu pesadelo era real e que, cagaram em cima do conjunto de leis trabalhistas.

Ainda pela manhã, minha mãe me disse estar com vontade de ter um neto. Eu pensei "pra vir sofrer nesse mundo?", mas não falei. Na real, eu adoraria ter uma vida crescendo dentro de mim - não agora, claro. Mas o problema maior não tem a ver com eu me achar jovem demais para filhos. Tem a ver com uma realidade onde, por lei, eu não tenho direito a licença maternidade, férias ou reajuste salarial. Onde, por lei, não tenho estabilidade nenhuma e somos todos PJ. Onde, por lei, cagaram na minha cabeça de "empregada" e tentam me convencer de que isso é bom pra mim.

Desculpa, mamis, mas não sei se vai rolar...

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