OPINIÃO

O problema não é o saxofone no metrô, é o papel de trouxa na vida

Nossa vida é controlada pelo empresariado desde a simples ida de metrô ao trabalho até as decisões mais importantes sobre o futuro do País.

16/08/2017 18:49 -03 | Atualizado 16/08/2017 18:49 -03

Neste ano, os paulistanos que utilizam a linha amarela do metrô foram surpreendidos por uma nova "identidade sonora". Ou seja, para avisar que a próxima estação está chegando, entra em cena o som alto de um saxofone que emite três notas tão melancólicas quanto o horário de pico.

É algo parecido com a musiquinha do vídeo game anunciando ogame over. Ou com aquela que a gente ouve quando o participante de um programa de TV responde errado a pergunta de 1 milhão de reais. Enfim, são três notas musicais realmente broxantes.

Tem também as frases looongas em português e depois em inglês informando sobre algo que ninguém presta atenção porque estão todos empenhados demais em não se irritar com tanto barulho. Mas o problema mesmo é que é tudo muitoalto. Fica ainda mais difícil se concentrar para ler. Conversar, só se for gritando. E tirar aquele cochilo sagrado em paz é um desafio.

Não estou sendo exagerada. Tenho uma amiga que mora próximo à estação Paulista e consegue ouvir os avisos das estações de dentro do apartamento dela. Das 4h40 à meia-noite.Imaginem.

Filipe Silva/São Paulo da Depressão

Desde que isso começou, é possível encontrar uma chuva de desaprovações na internet. E a pior parte dessa história é que a empresa ViaQuatro, responsável pela linha, parece não estar dando a menor importância para a opinião dos usuários (e digo por experiência própria). É nesse momento que assumimos o nosso velho e conhecido "papel de trouxa".

Pior do que ser obrigada a lidar com tanto barulho por nada é ter a certeza de ser ignorada por tudo. Você, assim como eu, com certeza já deve ter percebido que somos feitos de trouxa de diversas maneiras. O tempo todo. Isso fica ainda mais evidente quando, ao fazer alguma reclamação, recebemos como resposta um monte de frases feitas que não dizem nada ou que dizem: "é assim que vai ser, paciência".

Facebook

Criou-se uma nova identidade sonora na linha amarela do metrô e, se a maioria dos usuários não gostou, paciência.

As companhias que vendem ingressos online cobram taxas (abusivas) até mesmo para você fazer a retirada dos bilhetes no local. Ou seja, você paga caro por um trabalho que é todo seu, e se você não concorda com isso, paciência.

Eventos em lugares fechados praticamente te chamam de otário ao venderem uma lata de cerveja que custa menos de R$2 por R$10. Mas se você acha um absurdo inflarem o preço em 500%, paciência. É possível fazer uma lista enorme dos casos de exploração e descaso, mas vou parar por aqui.

A verdade é que somos marionetes nas mãos das grandes empresas. Mas o que fazer quando nossa vida é controlada pelo empresariado desde a simples ida de metrô ao trabalho até as decisões mais importantes sobre o futuro do País?

Bom, o que nos resta é reclamar. Reclamar muito, de todas as maneiras possíveis e em todas as esferas existentes. E reclamar também pelas ruas, com cartazes e com berros, sempre que possível.

Eu sei que cansa, eu sei que exige paciência e esforço, sei que parece até ser algo inútil. Mas precisamos mostrar que ainda somos seres vivos e pensantes. E o que eu posso fazer é garantir a vocês que, custe o que custar, eu também vou reclamar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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