OPINIÃO

Eu não sou seu fã! - mas posso ser se você me pagar

25/04/2014 16:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
James Brey via Getty Images

Quando eu estava na fase final de gravação do meu EP de estreia e pronto para lançar, por conta própria, a primeira música dele, uma amiga me disse: "Você precisa conhecer esse cantor. Ele tá começando, é independente como você e a página do Facebook dele já tem milhares de fãs!". Imediatamente eu fui dar uma olhada. Se esse cara já está indo tão bem, com certeza tem coisas que eu poderia aprender com ele. Logo ao abrir sua página, vi de cara seu último post proclamando: "Muito obrigado pelos 10 mil likes só nessa última semana!". Eu fiquei impressionado.

Quando vi que ele tinha Twitter, fui olhar seu perfil para segui-lo e notei algo estranho. Ele tinha 12 seguidores. Como alguém com tantos likes tem tão poucos seguidores? Voltei para o Facebook dele e reparei que apesar de alguns posts terem centenas de likes, a maioria deles tinha muito poucos, e com pouquíssima interação nos comentários. Quando cliquei nas estatísticas da página dele, reparei que o país onde esse cantor tinha mais likes no mundo era... o Paquistão. Mistério resolvido: sim, ele tinha muita popularidade no Facebook, porém ele pagou por isso.

Comecei a pesquisar sobre esse mercado e descobri que você pode basicamente comprar toda sua fama virtual. Likes de Facebook? Sim. Plays no Soundcloud? Sim. Comentários dizendo o quão maravilhoso você é? Sim! Na verdade isso não acontece só no meio musical. Desde empresas farmacêuticas até celebridades (e aspirantes a isso) "investem" nisso. Percebi que o cenário das mídias sociais de hoje acabou se tornando refém ao estereótipo de filmes de high school americanos. Apenas os mais populares sobrevivem e essa popularidade é basicamente comprada. As Plastics dominam a cena (10 anos depois e ainda não evito uma oportunidade de fazer referência a Meninas Malvadas).

Hoje em dia, grande parte do meio musical valoriza o artista através de sua popularidade online. De empresários a casas de show, até mesmo a alguns jornais e revistas que escolhem fazer reportagens sobre certos artistas devido a sua influência nas mídias sociais. Hoje em dia se paga (e muito bem) para a divulgação de produtos e serviços em perfis de pessoas com grande número de seguidores. Isso acaba deixando músicos em um dilema. Por um lado, existe a necessidade de ser honesto com sua presença online e como o seu dinheiro (e na maioria das vezes falta dele) deve ser investido em sua carreira. De outro, você se sente forçado a usar esse dinheiro de outra forma quando para um investidor o que importa são quantas visualizações você teve no YouTube.

Eu tive uma experiência frustrante com essa situação. Tive algumas reuniões com uma grande gravadora. Eles gostaram do meu som. Gostaram do meu visual. Acharam que eu tinha uma visão clara de quem eu sou como artista - mas no final escolheram não me contratar no momento. O por quê? Disseram que eu não tinha popularidade suficiente nas minhas mídias sociais.

Eu conversei com alguém que trabalha com moda e diretamente com alguns artistas famosos e recebi esse conselho: "Olha, Yann, você precisa comprar o pacote completo. Likes, comentários, visualizações, todo o 360, porque precisa ser coerente. Aqui está o contato de uma pessoa que trabalha fazendo isso para os artistas X, Y e Z". Eu prefiro não citar o nome dos cantores que mencionados, mas todos eram muito conhecidos.

Depois conversei com um amigo que é DJ e produtor de música eletrônica, com quase 20 mil seguidores no Twitter, porque eu queria aprender como chegar lá. Primeiro ele me disse que conseguiu isso quase do dia pra noite, pois um site internacional colocou um remix dele numa compilação que soltaram, mas alguns dias depois ele me disse: "Na verdade, como estou começando, comprei todos os meus seguidores, mas isso já me ajudou muito. Muitos promoters e boates me contrataram por isso."

Resolvi testar esse mercado comprando 500 likes pro meu Facebook e 5 mil visualizações de YouTube. Em dois dias, eu estava com muitos mais "fãs" e um pouco menos de dinheiro. Eu me senti como se tivesse literalmente me vendendo pra indústria e não me senti bem. Decidi que, se eu sou contra esse mercado de popularidade, eu não deveria me render. Eu realmente acredito que se você que esta começando tem uma clara missão artística e trabalha muito, vai chegar lá. Nem todo mundo precisa dessa falsa popularidade, e acredito que, no final das contas, não é isso que determina se você vai ter sucesso em sua carreira.

Acompanhei dois fenômenos de popularidade online, a cantora pop australiana Betty Who e o cantor country americano Steve Grand. Nenhum dos dois precisou se render a esses truques. Claro que as chances de se conseguir o sucesso viral, do dia pra noite, do Steve ou a rápida ascensão de Betty são baixas, mas isso mostra que É possível. Eu me lembro de seguir a Betty no Twitter quando ela mal tinha 2 mil seguidores. Agora ela tem quase 20 mil, um EP que foi número 1 no iTunes americano, e um contrato com uma grande gravadora, enquanto o Steve acabou de conseguir a campanha que mais arrecadou dinheiro na história do Kickstarter para um artista que nunca teve contrato com gravadora.

Eu não preciso de falsa popularidade. Eu não preciso de elogios artificiais. Eu não preciso comprar likes vazios. 2 mil likes verdadeiros no Facebook valem muito mais que 300 mil falsos. Não é um pecado ter menos de 3 mil seguidores no Twitter. O que importa mesmo é que cada uma dessas pessoas se engajou voluntariamente com a minha música e a mensagem dela - e eu sou muito agradecido a elas. Enquanto existirem as Betties e os Steves do mundo, ainda tenho esperança de que consigo chegar lá através de um caminho mais honesto e investindo qualquer dinheiro a mais que tenho na minha carreira e não em uma ilusão. Eu posso não ser parte dos Plastics do meio musical, mas fico bem sendo apenas eu mesmo (e quem sabe o Glen Coco desse meio). Vou continuar valorizando cada fã de verdade que eu tiver a sorte de conquistar aos poucos nesse caminho.


Nota do editor

O produtor musical Pena Schmidt fez uma reflexão bem grande sobre o assunto levantado por Yann, focando especificamente em como a reputação de artistas da música é construída hoje em dia. Vale a leitura:

Pena Schmidt sobre a indústria da música: "Estou com a palavra 'reputação' engasgada"

Lucas Pretti