OPINIÃO

Entrevista com David LaChapelle: "Michael Jackson foi um profeta" (VÍDEO)

19/08/2014 14:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Reprodução

David LaChapelle é um dos maiores artistas e fotógrafos de moda dos últimos 30 anos, mas no ápice de sua carreira ele resolveu largar tudo e se mudar para o Havaí. Apesar de ele raramente ainda fotografar celebridades e dirigir eventuais clipes, atualmente seu trabalho está focado em belas artes.

Durante a entrevista, LaChapelle conta os motivos dessa mudança, como foi viver em Nova York na época do surgimento da Aids, histórias com Andy Warhol, como foi trabalhar com artistas como Michael Jackson, Britney Spears e Madonna, além de também debater sobre espiritualidade e as duras batalhas por direitos de minorias em nossa sociedade. Dividimos a entrevista em dois vídeos com áudio e legendas, mas abaixo vocês podem conferir alguns momentos desta conversa.

Polêmica no Life Ball 2014

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Poster do Life Ball 2014 por David LaChapelle

Recentemente ele foi alvo de uma nova polêmica ao fotografar o poster do Life Ball 2014, um grande evento beneficente que acontece anualmente na Áustria que angaria milhões de dólares para combater a Aids. O poster desse ano estrelava em duas fotos a modelo transexual Carmen Carreira nua, como se fosse Eva no Jardim do Éden. Apesar das fotos serem extremamente similares, existia uma diferença em cada uma delas: o seu órgão genital.

Mesmo após o conceito do poster ter sido aprovado pela organização do evento, o FPO, partido Austríaco de extrema direita, chamou a imagem de pornográfica e começou uma campanha para processar os organizadores do evento.

Como você tem lidado com essa polêmica?

Nós fizemos a foto com a Carmen Carrera e pra mim foi muito lindo e inocente. A ideia era "no Jardim e a Deusa". O feminino e o masculino em um ser humano. O FPO na Áustria chamou de pornográfico e não é. É alguém que é diferente e esta nua. Então eles começaram a escrever coisas em cima e se tornou algo muito mais agressivo. Esse partido nazista é uma pequena porcentagem das pessoas na Áustria. (...) No final, durante o jantar do (Bill) Clinton teve um leilão. A foto deveria ser vendida por 30 a 50 mil euros e foi vendida por 180 mil. Então naquela noite a arte venceu. A arte foi vitoriosa.

Andy Warhol

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Último retrato de Andy Warhol fotografado por David LaChapelle

Depois de largar a escola e se mudar para Nova York, LaChapelle começou a trabalhar como fotógrafo para algumas revistas gays mas foi Andy Warhol que lhe deu seu primeiro trabalho fixo dentro da "Interview Magazine", considerada a maior revista de cultura popular e arte. Além disso, ele também acabou tirando o último retrato do Warhol em vida.

Como foi trabalhar para o Andy Warhol e como era sua relação com ele?

Era tipo "Meu Deus, estou trabalhando para o meu herói". Eu tinha 17 ou 18 anos e não conseguia acreditar nisso. Eu apenas observava (ele). Ele era gentil e generoso. Ele realmente gostava de pessoas jovens mas não de maneira libertina ou nojenta. Ele apenas gostava da energia que pessoas jovens tinham. (...) Ele tinha um ótimo senso de humor. Eu só o vi pintando uma vez o "The Last Supper", que foi uma das últimas pinturas que ele fez antes de morrer. E eu acabei tirando o último retrato dele antes de morrer.

Como isso aconteceu e como isso faz você se sentir?

Quando eu digo que tirei esse retrato do Andy Warhol traz muitas memórias ruins para mim. Eu não acho que é bom colocar essas pessoas em um pedestal. (...) Quando eu era jovem e ele estava vivo e trabalhando para a "Interview", as pessoas não estavam comprando seus trabalhos. A série fotográfica do "Dollar Sign" não vendeu uma pintura, ironicamente. Ele sabia que ia morrer. Artistas são muito intuitivos e em contato consigo mesmos. Ele fez a colaboração com o Jean-Michel Basquiat que hoje em dia são consideradas obras-primas. Nada vendeu. Não só isso, eles a criticaram no "NY Times" tão brutalmente que acabou com a amizade deles.

Experiência fotografando celebridades

LaChapelle já trabalhou com quase todos os nomes do showbusiness, seja em capas de revistas, campanhas publicitárias ou clipes para vários dos maiores cantores do mundo. Citamos os nomes de alguns artistas com quem ele havia trabalhado no passado e pedimos para ele falar um pouco mais sobre essa experiência.

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Série "The Beatification"

Você fez uma linda série de retratos dele pouco antes de falecer e o arrepiante nisso é porque as fotos lidam com situações de vida e morte, e com representações de anjos e demônios. Como foi trabalhar com o Michael Jackson?

Michael foi um herói e Michael foi um profeta. Michael ajudou tantas pessoas. Foi somente depois que ele morreu, que a gente descobriu que ele deu 400 milhões de doláres para organizações de caridade para crianças no mundo todo. Ele emocionou todo mundo. Esse é o poder da arte quando um artista consegue emocionar pessoas de todos os países. Mas a gente torturou ele. Em certo momento, ele não podia ligar a TV sem ouvir histórias horríveis sobre ele mesmo. (...) Os julgamentos foram absolutamente falsos e uma farsa. Sua maquiadora de 30 anos, Karen Faye, fez a maquiagem dele quando ele morreu, para o caixão. Então ela trabalhou com ele esse tempo inteiro. (...) Karen disse que a porta do quarto dele em Neverland nunca ficava trancada. Ela entrava quando o Michael estava dormindo, ele tinha insônia e não conseguia dormir frequentemente, e 99% das vezes o quarto estava vazio. Então essas fotos foram um testamento para aquele Michael. Ele realmente era como um anjo na Terra.

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Britney Spears fotografada por David LaChapelle para sua primeira capa da revista "Rolling Stone"

Você trabalhou com a Britney Spears na primeira capa da revista "Rolling Stone" dela e mais para frente também dirigiu o clipe dela de "Everytime", que aconteceu em um momento muito diferente de sua carreira. Como foi isso?

Britney nunca realmente quis essa carreira. Os pais dela a empurraram para fazer isso. Ela fazia concursos de miss para crianças quando ela era uma garotinha. Aí, quando ela cai, tudo mundo vê isso na TV como se fosse fofoca. Quando ela tinha 17 anos e a gente fez as fotos da Rolling Stone, eu conheci os pais dela em sua casa e eles foram doces. Todo mundo era muito gentil. Tinham fotos e troféus dela de concursos de Miss e aí ela explodiu para a fama mundial. Não foi exatamente uma vida que ela pediu. Na minha cabeça, eu acredito que ela não exatamente quis e veio para Nova York com esse objetivo e trabalhou nele e virou uma grande popstar.(...) Quando a gente estava fazendo o clipe de "Everytime", e tínhamos que filmar um segundo dia, ela não quis terminar o clipe. Nós não tínhamos um clipe. Eu me lembro de pensar "nossa, ela não quer mesmo estar aqui". Trabalhar com pessoas que são celebridades ao longo dos anos me ensinou que existe muito sofrimento em um artista. Quando as pessoas ficam ricas desse jeito, todo mundo quer algo. É como vencer a loteria. (...) As pessoas fazem muito dinheiro em cima delas.

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Ensaio de Madonna por David LaChapelle para a revista "Rolling Stone"

Você trabalhou com a Madonna em diversas ocasiões, mas durante as filmagens do clipe de "Hung Up" vocês tiveram um desentendimento. Você trabalharia com ela novamente?

Não exatamente. Sabe, eu preciso agradecê-la porque honestamente, eu nunca havia dito não para um trabalho antes. Nós estávamos na pré-produção do clipe "Hung Up" quando ela estavam gritando comigo. (...) Eu tinha acabado o documentário "Rise" e tinha trabalhado muito duro. O filme estreou nos cinemas do mundo todo e eu tinha acabado de voltar das coletivas de imprensa. Eu estava cansado. Eu quis a minha vida inteira fazer um clipe da Madonna. Quando ela estava gritando comigo no telefone, eu não aguentei. (...) A música era boa e tudo estava alinhado. Nós estávamos fazendo o trabalho e eu me lembro disso ter sido muito ruim. As sessões de foto sempre eram muito estressantes com ela. Eu pensei "Deus, eu não consigo aguentar isso" e eu apenas desliguei o telefone. Eu fiquei muito quieto porque ela estava gritando comigo. Abaixei o telefone e desliguei. Era um celular na verdade. Minha agente que estava do meu lado, fez tipo, sabe o Macaulay Culkin em "Esqueceram de Mim"? Ela disse "Você desligou na Madonna?" e a coisa engraçada foi que a música era "Hung Up" (desligou). (...) Eu não estou aqui para julgá-la. Tudo na vida é uma lição para mim. É como eu vejo isso. Honestamente, foi a primeira vez que eu disse não. Ela me deu um presente, de certa forma, porque daquele momento em diante eu percebi que não precisava fazer tudo. Eu trabalhei a minha vida inteira por medo porque eu não terminei o ensino médio. Eu não tinha um diploma. Minha mãe dizia que eu seria sem-teto quando eu era jovem e eu acreditei nela. Eu achava isso também. (...) Finalmente eu disse não e nada de ruim aconteceu. Então eu continuei a dizer não mais e mais e isso me levou a parar de trabalhar com revistas e celebridades. Eu ainda fotografo celebridades, mas é raro. Quando acontece é por alguma razão. Agora estou focando no trabalho de belas artes. De certa forma, aquela experiência com Madonna foi como um catalisador. Então eu devo ser grato.

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