OPINIÃO

Donald Trump e Vladimir Putin: Como será a partir de agora?

05/12/2016 12:59 -02 | Atualizado 05/12/2016 12:59 -02
Marko Djurica / Reuters
A woman walks past a mural of U.S. president-elect Donald Trump and Russian President Vladimir Putin in Belgrade, Serbia, December 4, 2016. The text on the mural reads in Russian, Serbia and English "Kosovo is Serbia". REUTERS/Marko Djurica

A verdadeira natureza do relacionamento entre os russos e o presidente eleito Donald Trump pode nunca vir a ser conhecida. O que está claro é que a estrutura para um novo relacionamento é mais complicada para a equipe de Trump do que para qualquer um de seus antecessores nos últimos 25 anos.

Isso se deve em parte aos comentários particularmente positivos de Trump sobre o presidente russo, Vladimir Putin, numa época de tensão entre os Estados Unidos e a Rússia a respeito de diversas questões.

Fazer negócios e acordos é a marca registrada de Trump. Os acordos ajudaram a definir as relações entre Estados Unidos e Rússia do programa Nunn-Lugar para garantir a segurança do arsenal nuclear soviético ao acordo P5+1 com o Irã, que inclui a Rússia.

Acordos desse tipo provavelmente continuarão a ser parte da abordagem de Trump em relação à Rússia, já que negociar com a Rússia é necessidade, não opção. Há três áreas que demandam atenção imediata - Síria, Ucrânia e questões cibernéticas.

Se elas forem tratadas de forma firme, podem levar as relações entre os dois países para um caminho produtivo. De qualquer maneira, acomodar a Rússia à custa dos interesses americanos não é estratégia viável para os Estados Unidos ou seus aliados.

O primeiro acordo a fazer diz respeito à Síria. Buscar objetivos limitados pode ser um bom começo, concentrando-se na crise humanitária na Síria. Os Estados Unidos deveriam dizer aos russos que sua preocupação primordial na Síria, além de eliminar o ISIS e obter um acordo político, é a catástrofe humanitária em Aleppo e outras regiões.

O novo governo americano deveria informar aos russos que vai apoiar esforços para garantir a entrega de suprimentos para os civis inocentes, inclusive usando força militar. Os Estados Unidos deveriam ir à ONU para obter uma resolução que apoie o uso de força caso ela seja necessária para fazer chegar ajuda humanitária à população síria.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos deveriam explorar a possibilidade de trabalhar com a Rússia na criação de zonas humanitárias na Síria. Seriam regiões em que nem o exército sírio nem os rebeldes pudessem operar.

A neutralidade e segurança dessas zonas seria garantida pela ONU, com apoio dos americanos e dos russos.

Se os russos recusarem todas essas sugestões, o que é possível, os Estados Unidos têm duas opções: trabalhar com os governos europeus para impor sanções à Rússia relacionadas à Síria e, se as sanções não tiverem efeito, usar a Otan para proteger a entrega de ajuda humanitária.

Uma segunda questão importante é o que fazer a respeito da Ucrânia. Por mais falhas que tenha, um começo é implementar o acordo de Minsk II, que delineia como lidar com os combates na Ucrânia. Uma missão policial da Organização para Segurança e Cooperação da Europa para manter as duas facções separadas também deveria ter o apoio de todas as partes interessadas.

A Rússia deve concordar com um cessar-fogo, que faz parte do Minsk II, e os Estados Unidos precisam estar dispostos a pressionar Putin para que ele cumpra seus compromissos. Se ele não o fizer, um aumento da ajuda militar à Ucrânia, além de mais sanções, deveriam ser seriamente consideradas. Ao mesmo tempo, a anexação ilegal da Crimeia não pode continuar.

A saída das força russas tem de ser parte de discussões mais amplas entre a Ucrânia, apoiada pelos Estados Unidos e pela UE, e a Rússia. O status quo da Crimeia não funciona legal ou politicamente.

Um terceiro problema que tem de ser atacado é a interferência cibernética da Rússia no processo político americano. Essa é uma preocupação de todos os americanos, a despeito de filiações políticas. O assunto tem de ser tratado de quaisquer maneiras possíveis, inclusive clandestinas.

O novo governo tem de deixar claro para os russos que isso não será tolerado. O vice-presidente Joe Biden sugeriu que possa haver uma resposta secreta às ações da Rússia. No mínimo, o novo governo deve dar prosseguimento aos planos - secretos ou não - já feitos pelo governo Obama.

Além disso, o governo tem de elaborar uma estratégia para lidar com os esforços de desinformação da Rússia, trabalhando com seus aliados europeus para se opor à propaganda e às falsas notícias espalhadas pelos russos.

Deve haver uma apuração rigorosa no Congresso, com apoio do novo governo, sobre os hacks e a campanha de desinformação perpetrada pela Rússia, para que isso não aconteça novamente. Seria um sinal forte enviado pela equipe de Trump, já que eles foram os beneficiários da interferência russa.

Se acordos representam negociações de questões de interesse comum, não há melhor lugar para começar esse processo que o diálogo com os russos a respeito de Síria, Ucrânia e ingerência cibernética.

Isso significa que é preciso estar disposto a dominar os detalhes de cada questão e a informar o outro lado que haverá consequências se não houver progresso nas negociações: o que inclui abandonar as negociações e responder de forma incisiva se a situação assim exigir.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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