OPINIÃO

O que Mad Men nos ensina sobre os Estados Unidos

21/05/2015 17:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
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Em uma série de TV que mostra um cortador de grama decepando o pé de um executivo num escritório da Madison Avenue e um funcionário desconsolado entregando seu mamilo numa caixa para sua colega - e dezenas de outros momentos memoráveis em mais de 80 horas de um drama cheio de camadas -, há uma cena chave que realmente descreve o caráter de Mad Men.

Ela aparece num momento improvável, no meio da segunda temporada. No fim de 1960, a secretária-promovida-a-redatora Peggy Olson vê sua carreira na agência Sterling Cooper basicamente frustrada por casa do nascimento de um bebê que não só é indesejado como imprevisto. Isso a leva ao colapso - mesmo nos Estados Unidos da Negação que é a série, Peggy se torna um caso extremo. Seu chefe, Don Draper, é o único colega a visitá-la durante sua longa recuperação no hospital psiquiátrico -a empatia de alguém que encontrou uma alma similar. O passado enterrado de Don - ele nem sequer é Don Draper, mas sim Dick Whitman, um veterano da Guerra da Coreia que roubou a identidade de um companheiro morto - é muito maior que o novo segredo de Peggy, e sua tentativa de animá-la tem muitas camadas de ironia.

"Saia daqui e siga em frente", diz Don. "Isso nunca aconteceu. Você vai ficar chocada com o quanto isso nunca aconteceu."

No domingo passado, Mad Men encerrou um notável arco de 92 episódios de uma série que os telespectadores começaram a assistir para reviver (como eu) os anos 1960, pela moda ou simplesmente para se deliciar numa nuvem embriagada de fumaça de Lucky Strike, coquetéis Old Fashioned e bifes sangrentos... e continuaram assistindo para considerar a condição humana. A melhor série de TV de todos os tempos? Para mim, foi, mas não me dê ouvidos (alguém dá?). Faça como eu dois anos atrás: maratonas de Netflix para me atualizar com a série, sempre começando à 1h.

Se você assistiu ao episódio final, certamente está pensando no significado da mais recente e melhor encarnação de Draper/Whitman. Mas também tenho pensado muito em outra coisa: o que Mad Men tentou nos dizer sobre os Estados Unidos.

Dê crédito ao criador Matthew Weiner: ele dificultou as coisas. Parte do brilho de Mad Men é que a série nunca retratou os anos 1960 de modo que ela fosse reconhecida por fãs nostálgicos. Momentos épicos como o "Verão do Amor", de 1967, os distúrbios em Newark e Detroit, Woodstock e Kent State acontecem fora do palco; o único personagem semi-importante enviado ao Vietnã não morre, mas se alista de novo no Exército. As ideias de Weiner sobre a década não têm cheiro de patchouli nem são especialmente generosas.

O criador de Mad Men celebremente reclamou para Stephen Colbert que os baby boomers "acham que inventaram o sexo e as drogas... Eles têm uma visão infantil". Weiner está muito mais interessado na busca atemporal pela nossa identidade, por sentido. Mas o que dá o impulso narrativo a essas eternas perguntas é como os homens de ternos de lã cinza que sobreviveram à Depressão, à Segunda Guerra Mundial e à Guerra da Coreia lidaram com uma época de incertezas súbitas e inesperadas, precipitadas por três ou mais tiros na praça Dealey (onde Kennedy foi assassinado). O que acontece quando homens (sim, homens) que acham que não só entenderam o mundo como o conquistaram em 1945 têm de se confrontar com as demandas justas e íntegras de mulheres, negros e jovens?

Nas mãos de Weiner, a história se envolve numa dança complicada com a realidade, em geral como pano de fundo de uma TV com o som abafado - assim como suas segundas-feiras serão mais influenciadas por alguma idiotice dita pelo seu chefe que pelos eventos no Golfo Pérsico. E, ainda assim, o pano de fundo dos anos 1960 deu a Mad Men sua força, porque assistimos os mitos de Don Draper e os mitos americanos se desembaraçarem juntos.

O assassinato de JFK em novembro de 1963 se torna um momento para questionar tudo... incluindo o casamento de Don. Cinco anos depois, um episódio que se passa na época do assassinato de Martin Luther King e dos consequentes distúrbios é impulsionado por uma trilha sonora de sirenes cada vez mais altas ecoando por Nova York - um poderoso sinal de alarme tanto para os personagens como para o país. Pouco tempo depois, um Don bêbado (tem outro Don?) vê um anúncio do candidato da "lei e da ordem", Richard Nixon, e quase imediatamente se mete numa briga de bar. Ainda sou assombrado pelo piquenique da família Draper, no qual a família 100% americana vai embora deixando todo o lixo na beira da estrada. Parte do choque é que, sim, algumas pessoas faziam isso em 1962, mas a beleza terrível da cena reside no fato de que o espectador moderno sabe que esse senso de direito adquirido será bastante efêmero, para os Draper e para o país em que eles vivem.

E aí o programa definitivo sobre os Estados Unidos nos anos 1960 acabaria por se tornar um programa sobre publicidade. É claro. Na economia vibrante criada pela superação da Grande Depressão e pela vitória contra os nazistas, o consumismo dava um barato maior do que qualquer drink servido por um barman. E Don Draper era o melhor vendedor da Madison Avenue porque ele era antes de tudo um ótimo vendedor de si mesmo - mesmo que fosse tudo mentira. Assim como eram os produtos que ele promovia, de cigarros a refrigerantes.

O primeiro episódio de Mad Men é intitulado "Smoke Gets In Your Eyes" (fumaça entra nos seus olhos) - uma música, um sonho, uma névoa de ilusão. Draper e seus colegas da Sterling Cooper realmente acreditam que podem negar o óbvio com um slogan inteligente. "O tabaco dos outros é venenoso", diz ele numa reunião com executivos da Lucky Strike em 1960, quando o público começa a se preocupar com o câncer. "O Lucky Strike é tostado." Mas, para parafrasear Tchekhov, nunca acenda um cigarro na primeira cena da primeira temporada se alguém não tiver câncer na sétima.

No fim, nem mesmo Don Draper conseguiu seguir escrevendo suas ficções. Talvez seja coincidência que ele tenha tido um estalo em novembro de 1968 - depois da Ofensiva do Tet e dos assassinatos de King e Robert Kennedy. Talvez não. Mas sua apresentação nostálgica para os executivos da Hershey's desmorona quando ele sente uma vontade quase não-natural de dizer a verdade - que o chocolate era seu prêmio por atrair clientes para o prostíbulo da família. Isso dá início à busca para tirar um peso das costas - o peso das mentiras, mas também de suas posses consumistas, até mesmo seu amado Cadillac. Mas ele ainda é confrontado pela mesma pergunta que se nos apresenta: Quando é tarde demais para a redenção?

Mad Men me fez perceber que deixar de acreditar em seu próprio mito é muito mais fácil para uma pessoa que para um país. O período retratado nos últimos dias da série - o começo dos 1970 - foi um curto e raro momento de introspecção para o país, quando os Papeis do Pentágono, o Comitê da Igreja, até mesmo a invasão de um escritório do FBI em Media, Pensilvânia, perto da minha casa, fizeram os Estados Unidos considerarem a ideia de abrir o jogo. Mas o fim de uma trama nacional não é parte de um roteiro, e com o tempo os mitos pareceram cada vez melhores no espelho, especialmente com um atraente vendedor como Ronald Reagan.

Não, os outros países, os outros adversários é que eram venenosos. Os Estados Unidos são tostados.

Hoje, em 2015, é incrível que os ventos prevalecentes da nossa política nacional sejam simplesmente seguir adiante, que ainda fiquemos chocados com o fato de as coisas nunca terem acontecido. De fato, o presidente Obama disse alguns anos atrás que não precisávamos investigar a tortura ou outros abusos dos anos Bush, por causa da "crença de que precisamos olhar para frente, em vez de olhar para trás". De fato, os arquitetos do Vietnã de hoje, a guerra do Iraque, são muito procurados para escrever livros e dar opiniões na TV Até mesmo um dos principais candidatos a presidente em 2016 parece ignorar o fato de que seu próprio irmão foi um desastre completo. Guantánamo, waterboarding, inúmeros civis mortos? Você vai ficar chocado ao saber o quanto isso nunca aconteceu.

No começo da série, Don revela para a executiva Rachel Menken, um dos futuros amores perdidos de sua vida, que ele tem dificuldade com o conceito de "utopia". "Os gregos tinham dois significados para a palavra", diz Menken . "Eu-topos", ou seja, "o bom lugar" e "ou-topos", ou "o lugar que não pode existir". Esse é o dilema de Don... e o nosso. Mas encontrar "o bom lugar" exige honestidade em relação ao nosso passado. Do contrário, o país não será "tostado" - estará frito.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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