OPINIÃO

O espanto e a tristeza de ver meus filhos crescerem

12/12/2016 14:24 -02 | Atualizado 12/12/2016 14:24 -02
MADELEINE FOTOGRAFIA JL

Observo minha filha se transformando diante de meus olhos e isso me enche de assombro e de uma tristeza profunda.

O tempo finalmente começou a esfriar aqui no sul da Califórnia; o feriadão do dia de Ação de Graças veio acompanhado de dois dias de chuva muito necessária. O friozinho nos manteve dentro de casa no fim de semana, num convite para desacelerar o ritmo da vida e curtir uma folga no meio da correria habitual.

Enquanto eu andava tranquilamente pela casa, arrumando os cantos relegados ao esquecimento, minha mente percorria os últimos 12 meses. Foi um ano que trouxe marcos importantes que de alguma maneira parecem ter intensificado seu significado, comparado às minhas outras viagens em volta do sol.

Este ano eu completei 40 anos e minha filha mais velha fez 10. Alguma coisa nesses números redondos, o fato de assinalarem uma década transcorrida, me fizeram sentir mais profundamente a passagem do tempo, trazendo essa passagem para o primeiro plano de minha consciência e fazendo-a mais difícil de ignorar.

Como é possível que eu já seja mãe há uma década?

Como pode ser que dez anos já se passaram desde que colocaram aquele embrulhinho cor-de-rosa quentinho sobre meu peito e que meus olhos encontraram os dela pela primeira vez?

Como é possível que os anos que ela ainda vai passar sob meus cuidados, anos nos quais ela será minha e não do mundo, talvez sejam menos do que o tempo que já me foi dado com ela?

Hoje em dia, quando minha filha entra em um lugar vestida de certa maneira ou com os cabelos arrumados de certo jeito, a jovem em que ela está se convertendo emerge, enquanto a menininha desaparece.

É como um flash que dura apenas um segundo, e, se eu não estivesse olhando atentamente, talvez me passasse despercebido.

Mas ele não passa despercebido. Vejo minha menina mudando diante de meus olhos, e isso me enche de um misto de assombro e tristeza profunda, profunda.

Passamos o Dia de Ação de Graças na casa de meu pai. No caminho para lá, no carro, meu filho perguntou: "Mãe, quanto tempo ainda falta?" Fiz a melhor estimativa que consegui, e ele pareceu satisfeito.

Olhando pela janela do carro para o sol brilhando sobre o Pacífico, suas palavras ecoaram e vibraram em minha alma.

Quanto tempo ainda falta?

Quanto tempo ainda?

Quando meus filhos eram bebês ou crianças pequenas, eu costumava me fazer diferentes versões dessa pergunta, cheia de impaciência.

Quanto tempo ainda até ela dormir a noite inteira sem acordar?

Quanto tempo ainda até ele aprender a usar o peniquinho?

Quanto tempo falta para ela aprender a amarrar os cordões dos sapatos?

Quanto tempo falta para a vida ficar mais fácil?

Quanto tempo falta para minha vida ter espaço para mim outra vez?

As coisas andam mudando, e hoje ando me fazendo perguntas diferentes:

Quanto tempo eu ainda tenho? Quanto tempo ainda tenho até ser obrigada a deixar meus filhos alçarem voo?

É a ordem natural da vida. De alguma maneira, eu sempre soube que ter filhos é como fechar um pacto solene com o universo, concordando que os filhos serão apenas cedidos temporariamente para mim, apenas por um tempo xis.

Eu sempre serei deles, mas a promessa inerente à condição de mãe ou pai é pouco a pouco deixar seus filhos alçar voo sozinhos.

É estranho, não, que passamos tanto tempo desejando que o tempo avance mais rápido, e então, mais tarde, nos vemos querendo a todo custo ter mais tempo?

Ultimamente ando querendo empurrar o tempo para trás, suspendê-lo no momento presente, impedi-lo de avançar mais. Quero encontrar um jeito de fazer o envelhecimento não acontecer -o de meus pais, meus filhos, o meu. Mas sei que isso não é possível.

Então o que me resta fazer? Como posso viver sabendo que o tempo está passando mais rápido do que eu gostaria e que não há nada que eu possa fazer?

Venho refletindo sobre isso o tempo todo, tentando encontrar uma resposta.

Então a resposta me veio, e eu percebi que ela estava ali o tempo inteiro, encerrada na pergunta. Quando o tempo está correndo mais rápido do que você queria que corresse e não há nada que você possa fazer para que avance mais devagar, você vive. De verdade.

Você abraça o tempo e cada momento. Realmente lhes dá sua atenção e consciência plenas. Agora, seguindo adiante nesta jornada pela segunda metade de minha vida, eu sei que às vezes vou fraquejar, mas tenho a esperança de conseguir abraçar o momento.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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