OPINIÃO

Davi Pretto protesta contra governo Temer na estreia de 'Rifle' na Berlinale

O diretor gaúcho puxou o coro de "Fora Temer" no Festival de Brasília no passado.

12/02/2017 20:02 -02 | Atualizado 12/02/2017 20:02 -02
Jorge Aragão
Diretor gaúcho volta à Berlinale três anos depois de 'Castanha' e faz um discreto mas poderoso manifesto político antes da projeção do seu último filme 'Rifle'.

​​​A imagem ainda é recente: nas escadarias do Grand Théàtre Lumière em Cannes, diretor e elenco do filme Aquarius protestam contra o processo ilegítimo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, que estava prestes a acontecer no Brasil. Sônia Braga, Kléber Mendonça Filho e equipe técnica do filme denunciavam o golpe que viria a se consolidar oficialmente três meses depois.

O protesto fez eco no mundo inteiro e, dizem as más línguas, prejudicou o filme de Mendonça Filho na disputa por uma indicação ao oscar de melhor filme estrangeiro (o selecionado foi Pequeno Segredo, de David Schürmann, que ficou de fora da lista final dos indicados).

Na noite de sábado (12), na apresentação mundial do seu novo filme Rifle na Berlinale, Davi Pretto faz demonstração semelhante a de Kléber. De forma mais discreta, mas apontando o dedo para o mesmo alvo, o diretor ataca o governo Temer e as suas políticas nefastas à cultura brasileira.

Rodrigo Migliorin

Imagem do filme 'Rifle', na seção Fórum da 67ª Berlinale

Antes do filme começar, perante uma sala completamente cheia, Pretto e equipe sobem ao palco para agredecer aos presentes, falar um pouco sobre o novo filme e então, no final, o cineasta tira uma pequena folha de papel do bolso com um manifesto em inglês e lê para todos ali presentes.

O diretor gaúcho, que puxou o coro de "Fora Temer" no Festival de Brasília no passado, começa dizendo que "as coisas andam muito mal no nosso país" e que "como todo o mundo já sabe, nós estamos perante um governo ilegítimo no Brasil" e logo depois faz um caloroso discurso pedindo mais inclusão de minorias raciais e de gênero e que a boa fase do cinema nacional lá fora deveria servir de exemplo para mais investimento na cultura no Brasil.

O novo longa Rifle, a exemplo do seu conterrâneo Aquarius, também conta uma história de resistência. Na fronteira do uruguai com o Rio Grande do Sul, um rapaz vaga pelas paisagens áridas pertencestes a pequenos agricultores da região, os poucos que por ali ainda vivem. Um fazendeiro rico se aproxima, com retórica de gente importante, e demonstra interesse em comprar estas terras. Dione (Dione Avila de Oliveira) diz que o patrão não está e o fazendeiro então deixa o seu cartão de visita. Dione é um rapaz de poucas palavras e do qual sabemos muito pouco, mas há uma resistência na sua personagem. Armado do seu rifle, ele então decide tomar as rédeas do seu espaço invadido.

É um filme difícil, com um ritmo que faz lembrar o sucesso indie de Gabriel Mascaro, Boi Neon, mas que reflete bem a agenda política desta 67ª Berlinale.