OPINIÃO

Cinema brasileiro tem recepção morna na 67ª Berlinale

Apesar de recorde de participações brasileiras, quase nenhum filme nacional chamou atenção no Festival de Cinema de Berlim.

17/02/2017 12:43 -02 | Atualizado 19/02/2017 22:45 -03

O festival contou com um número recorde de filmes brasileiros na sua história, 12 no total, mas a maioria passou despercebido

A Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim, chegou ao fim da sua 67ª edição e não apresentou nenhum filme brasileiro que tenha causado impacto entre a crítica. Com 12 produções, entre curtas e longas, o Brasil é um dos países com mais participações na edição deste ano.

O Brasil já teve bons momentos na memória recente do festival, como foi em 2014 com o maravilhoso Praia do Futuro de Karim Aïnouz ou em 2008 quando Tropa de Elite trouxe o urso dourado para casa.

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Vazante, a produção de época de Daniela Thomas que abriu a sessão Panorama Special, teve uma estreia morna na sexta-feira (10) à noite. O filme, que se passa em 1821 e que tem o feito de apresentar o grande ator português Adriano Carvalho, é de uma impressionante cinematografia em preto e branco mas a sua longa duração faz que a experiência toda se torne um pouco exaustiva. A revista americana Hollywood Reporter disse que Daniela Thomas manda bem em termos visuais mas que falha na hora de contar uma história e que ajudaria se o filme "fosse um pouco mais curto". Já a revista Screen Daily diz que o filme exige "investimento" por parte do espectador.

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As Duas Irenes, filme de Fabio Meira que faz parte da sessão Generation K-plus, conta a história de Irene, menina de 13 anos e filha do meio que um dia descobre outra menina, da mesma idade e nome, vivendo não muito longe da sua casa. Irene se aproxima da sua xará e descobre que elas têm muito mais coisas em comum do que apenas o nome. Marco Rica, que faz o pai, é o único que se destaca do resto do elenco, que parece estar todo em piloto automático. As duas atrizes adolescentes não convencem e parecem estar sempre à espera dos seus (absurdos) diálogos. O filme arrancava risos da plateia sempre que uma cena de beijo, ou um momento mais sensual, aparecia na tela. Um universo adolescente tão dominado pela sexualidade dos seus personagens, todos pré-adolescentes, talvez seja uma realidade mais habitual para nós brasileiros mas pode chocar um pouco o público alemão. O filme teve uma recepção morna dos jornalistas presentes e foi um pouco prejudicado pelo voice-over em alemão, que acontecia ao mesmo tempo que o áudio original em português.

RODRIGO MIGLIORIN

Rifle, incluído na sessão Fórum, teve estreia marcada por um protesto do seu diretor, Davi Pretto, que fez lembrar a de Aquarius em Cannes o ano passado. O filme do gaúcho também não agradou muito aos presentes e várias pessoas abandonaram a sala durante a projeção. O filme conta uma história de resistência, e reflete bem o gosto da audiência do festival alemão, mas o seu ritmo denso e a falta de informação dos seus personagens torna a sua hora e meia de projeção um tanto desafiadora.

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Já em Como Nossos Pais a história é um pouco diferente. O belíssimo filme de Laís Bodanzky, incluído na sessão Panorama, fala de relações familiares e de como nos relacionamos com aqueles que nós amamos. O filme tem o nome da Globo Filmes nos créditos mas tem toda uma atmosfera indie que faz lembrar os melhores momentos do cineasta americano Alex Ross Perry, e isso só conta a seu favor.

Rosa, interpretada pela maravilhosa Maria Ribeiro, descobre por acaso uma terrível verdade sobre o seu passado e são as sequelas desse segredo que dão toda a estrutura emocional do pequeno filme de Bodanzky. A diretora faz um retrato delicado e atento da classe média (e privilegiada) do Brasil e tenta nos fazer questionar sobre os nossos papéis na vida daqueles que nos rodeiam. A revista Screen Internacional escreveu que Como Nossos Pais é "um filme adulto e inteligente que certamente fará sucesso no circuito arthouse".