OPINIÃO

Não é preciso um casamento convencional para ter uma família feliz

O amor era a única constante em nossa família decididamente não nuclear.

07/12/2017 10:16 -02 | Atualizado 07/12/2017 10:16 -02
Jenny Haward
“O importante na minha família não é o número de homens ou mulheres que desempenham o papel de pais, é que cada membro da família ama e apoia os outros incondicionalmente.”

Há um ano e meio, voltei ao Reino Unido para fazer uma surpresa a meu pai na sua festa de 70 anos. Foi um momento totalmente mágico quando me aproximei da porta de casa com uma caixa de presente escondendo meu rosto e gritei "SURPRESA!".

Meu pai ficou extático, meu irmão e minha irmã também, e minha mãe, idem. Apesar de ela e meu pai estarem divorciados há 17 anos, mais de metade da minha vida, foi ela quem me levou de carro até a festa.

Somos uma família cheia de amor e apoio, mas não formamos uma família convencional. Minha mãe saiu do armário quando eu tinha 14 anos. Na sala iluminada apenas com um abajur, ela me contou com muita calma que a mulher que conhecíamos como grande amiga dela era alguém com quem ela estava tendo um relacionamento.

Meus pais ainda viveram juntos (mas em quartos separados) por mais dois anos, algo que hoje percebo ter sido um sacrifício enorme. Eles optaram por continuar dividindo a mesma casa para darem estabilidade e continuidade a seus filhos adolescentes.

O amor é a base de nossa família, não o casamento.

Tony Abbott escreveu recentemente que, "se você transforma o casamento, transforma a sociedade, porque o casamento é a base da família, e a família é o alicerce da comunidade".

É claro que cada família é diferente. Na minha família, porém, o que é importante não era e não é o fato de meus pais terem se divorciado ou minha mãe ter saído do armário. O que é importante, o que ainda é o mais importante, é o amor, o apoio e o respeito.

Quando minha mãe saiu da casa em que meu irmão, minha irmã e eu crescemos, ela se mudou para outra casa a cinco minutos de distância, para que pudéssemos andar a pé da casa de nosso pai para o de nossa mãe, e vice-versa, e dormir na casa que quiséssemos. Não houve acordos complicados de divisão da guarda dos filhos – o que era levado em conta era apenas o que meus irmãos e eu queríamos fazer. Quando meu pai nos preparava um "curry", durante sua fase culinária experimental, nós o comíamos, apesar de abacaxi, frango, ervilhas e molho de curry não serem necessariamente uma combinação apetitosa. Comíamos porque ele fizera o esforço.

Quando minha mãe sabia que Papai estava no trabalho, ela vinha para nossa casa – tirando a chave da porta dos fundos do esconderijo supostamente secreto – para lavar suas cortinas, secá-las e pendurá-las de novo antes de ele voltar para casa. Meu pai não era preguiçoso – ele simplesmente não notava quando as cortinas estavam sujas, e Mamãe queria que a casa estivesse bonita e arrumada para nós todos.

Papai nunca fez uma crítica sequer à nossa mãe, e Mamãe nunca disse nada de negativo sobre ele. Cada um estava sempre preparado para dar apoio ao outro. Passávamos todos os aniversários e os Natais juntos, às vezes com as novas companheiras de nossos pais. E, agora que ambos têm companheiras que estão com eles há anos e que conhecemos há muito tempo, é quase como termos uma mãe, um pai e mais duas mães.

Isso não significa que o fato de eles terem se separado nunca tenha sido triste ou difícil de aceitar. Não quer dizer que nunca discutimos com nossos pais, que não tivemos ataques de raiva na adolescência, nem que Papai ou Mamãe fossem perfeitos. Todos nós pisamos na bola de diferentes maneiras, mas havia uma constante sempre: o amor.

Minha família me ajudou a entender que casamento significa simplesmente permitir que duas pessoas apaixonadas tenham seu amor reconhecido por lei. Equacionar família com casamento presta um desserviço a ambos.

O fato de termos uma família não convencional não prejudicou a mim ou a meus irmãos. Todos nós viramos pessoas felizes e bem-sucedidas em nossas respectivas áreas. Fizemos isso com a ajuda de nossa família do século 21, decididamente não nuclear. O fizemos porque nossos pais nos deram apoio, nos amaram e nos ensinaram que, se nos esforçássemos o bastante, poderíamos ser o que quiséssemos na vida.

Então nós o fizemos. E somos o que queríamos ser. Minha família não é definida pela soma específica de suas partes, pelo número de homens ou mulheres que exercem o papel de pais. O que a define é a capacidade de cada membro da família amar e apoiar os outros, incondicionalmente.

O que a define são pais que atendem telefonemas à 1h da manhã quando seus filhos estão em outro país e querem desabafar porque estão estressados com o trabalho. É mandar 12 cartões a uma filha que está morando no exterior para serem abertos em cada um dos 12 dias da temporada de Natal (entre o dia 25 de dezembro e 6 de janeiro, o Dia de Reis) ou viajar seis horas de carro para buscar um filho no aeroporto.

Houve um dia, uns quatro anos atrás, quando nós cinco jantamos juntos na casa do Papai. Mamãe mencionou que alguém lhe perguntara quando ela teria netos e que ela pedira à pessoa para nunca falar disso na nossa frente. Nós a agradecemos e agradecemos ao Papai por não nos pressionarem a ser ou fazer qualquer coisa a não ser o que nos deixava felizes. Papai ficou espantado. "É claro!", ele disse. "Nosso papel é apenas dar apoio a vocês e ajudá-los a serem felizes." Nunca me esquecerei disso.

A verdade é que meus pais eram e são melhores como amigos que como casal. Eles devem ter o direito de amar e se casar com quem quiserem. Todos deveriam ter esse direito, inclusive aqui, na Austrália. O fato é que poder amar quem eles queriam os ajudou a serem pais melhores, pessoas melhores e mais felizes, e enriqueceu nossa família tremendamente em termos de amor e compreensão.

Isso fez de mim e meus irmãos pessoas melhores, mais capazes de sermos bons membros de nossas comunidades. A base de nossa família é o amor, não o casamento.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost AU e traduzido do inglês.

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