OPINIÃO

5 estudiosos muçulmanos explicam por que o uso do hijab não é obrigatório

Eles defendem a possibilidade de as mulheres não usarem o véu, fundamentando seus argumentos na hermenêutica islâmica.

18/11/2017 08:02 -02 | Atualizado 18/11/2017 08:20 -02
Katarina Premfors via Getty Images
Até que ponto a obrigatoriedade do véu se deve à ascensão de movimentos islâmicos populistas?

O véu (hijab) usado pelas mulheres islâmicas para cobrir a cabeça frequentemente é objeto de debates intensos na mídia. O hijab é usado por diversas razões de cunho pessoal a político. Seu uso é imposto a muitas mulheres, mas outras o adotam por livre vontade.

Um artigo de vestimenta que, idealmente, deveria ser uma questão de escolha e expressão pessoal acabou por ser fortemente politizado.

Isso levou à opressão de mulheres muçulmanas, até mesmo no Canadá. O uso do hijab é imposto como obrigação religiosa, às vezes com grande pressão moral. Uma jovem canadense muçulmana foi assassinada por não usar o véu. Por outro lado, outras muçulmanas que escolhem tornar sua religião visível através do uso do hijab têm sofrido agressões físicas por isso.

A imensa maioria dos muçulmanos acredita que o uso do véu é obrigatório. Até que ponto isso se deve à ascensão de movimentos islâmicos populistas desde a década de 1970 pode ser avaliado com a leitura do livro A Quiet Revolution, de Leila Ahmed.

As feministas muçulmanas argumentam, corretamente, que essa é uma questão que diz respeito às mulheres, às quais foram impostas regras definidas por homens. De fato, os argumentos em defesa da obrigatoriedade do véu são feitos principalmente por estudiosos homens e machistas que promovem memes tolos comparando mulheres sem hijab a pirulitos descobertos.

Projetando-se como guardiões dos valores islâmicos, eles frequentemente rejeitam as posições contrárias, dizendo que nascem de valores seculares ou feministas.

É esclarecedor, porém, destacar as vozes dos poucos estudiosos islâmicos homens que defendem a admissibilidade de as mulheres não usarem o véu, fundamentando seus argumentos na hermenêutica islâmica. Esta manifesta uma diversidade de pensamento muçulmano, revelando que o islamismo permite uma gama maior de escolhas pessoais.

Leia a seguir os argumentos teológicos apresentados por cinco estudiosos islâmicos de destaque.

1. Khaled Abou El-Fadl

El-Fadl considera irônico que o hijab tenha se tornado "simbólico da identidade islâmica", pois para ele o véu "não faz parte das bases da fé islâmica". Ele critica a posição muçulmana dominante de enxergar o khimar, ou véu, como um tecido que cobre a cabeça e o rosto ou apenas a cabeça. Para El-Fadl, não há evidências de que as mulheres pré-islâmicas em Meca cobrissem o rosto ou os cabelos. Ele chega a mencionar uma importante descendente do Profeta conhecida como Fatima al-Kubra que se negava a cobrir os cabelos, juntamente com as outras mulheres nobres de sua época. E chama a atenção para o fato de que as escravas ficavam com a cabeça descoberta. Logo, para os juristas clássicos, o que estava em questão com o código de vestimenta não era a sedução sexual, mas o status social.

El-Fadl menciona que o illa (o motivo operativo) da injunção feita às mulheres para que cobrissem a cabeça era protegê-las e evitar que elas chamassem atenção indesejada de pessoas interessadas em lhes fazer mal. Ele também afirma que o ma'ruf (aquilo que é normalmente aceito como sendo bom) e o munkar (aquilo que é socialmente reconhecido como sendo inaceitável) são baseados na experiência pragmática e prática. Assim, ele argumenta que se o próprio uso do véu islâmico leva as mulheres a chamar a atenção e as sujeita a serem assediadas, e se andar de cabeça descoberta não é visto como falta de modéstia ou como licenciosidade, então é permissível que as muçulmanas não usem o hijab.

2. Javed Ahmad Ghamidi

Como El-Fadl, Ghamidi opina que havia injunções que se aplicavam exclusivamente às esposas do Profeta. Ele argumenta que há apenas quatro instruções que se aplicam às mulheres muçulmanas. Elas incluem abaixar os olhos, usar roupas discretas, cobrir o peito com um tecido e não usar enfeites diante de homens com quem a mulher não tenha parentesco. Nenhuma outra injunção foi imposta às mulheres muçulmanas.

Os seguidores de Ghamidi, como Farhad Shafti, mencionam claramente que o uso do khimar (véu) não é um ato religioso, não faz parte da modéstia, e que até o Alcorão emprega o termo sem conotações legais. Outro seguidor, Moiz Amhad, também argumenta que "o Islã não exige obrigatoriamente que as mulheres cubram a cabeça". Ele afirma sucintamente que o véu islâmico não faz parte da sharia e que usá-lo ou não é uma escolha pessoal.

3. Abdullah bin Bayyah

Bin Bayyah adota uma abordagem baseada na necessidade. Ele argumenta que ferimentos ou dificuldades tornam permissível que partes do corpo sejam deixados a descoberto, mencionando que duas das esposas do Profeta, Aishah e Umm Salamah, ficaram com as canelas descobertas quando deram água a soldados feridos no campo de batalha. Ele também menciona a posição minoritária de Ibn Ashur, segundo quem as mulheres podem deixar seus cabelos descobertos em público. Um aluno de Bin Bayyah, Hamza Yusuf, chegou a afirmar que:

"As leis existem para servir aos seres humanos; nós não estamos aqui para servir às leis. Estamos aqui para servir a Alá, e por isso, sempre que a lei não serve a você, você é autorizado a abandoná-la, e isso na realidade significa obedecer à lei. ... A lei existe para nos beneficiar, não para nos prejudicar. Logo, se a lei nos prejudica, não precisamos mais segui-la."

4. Ahmad Ghabel

O clérigo xiita já falecido, que tinha o título eminente de Hojjat el-Islam (autoridade sobre o Islã), propôs dez argumentos em defesa da visão de que cobrir a cabeça não é obrigatório, mas recomendado. Ele opinou que não há consenso entre juristas quanto a se os cabelos fazem parte das awrah (partes íntimas) que precisam ficar cobertas.

5. Nasr Abu Zayd

Segundo o falecido Abu Zayd, tanto as awrah (partes íntimas) quanto o hijab (véu) são sujeitos a normas socioculturais; logo, não são fixos, mas podem mudar. Ele opinou que essas duas questões não são sujeitas a normas do Islã, mas que são específicas da cultura árabe.

Como esses cinco estudiosos islâmicos, outros, como Abdullah al-Judai, o falecido Zaki Badawi, o falecido Gamal al-Banna, Khalid Zaheer e Shehzad Saleem, adotaram posições que formam um contraste nítido com a visão hoje dominante.

Essas opiniões servem para nos dotar de mais informações em apoio à liberdade de escolha e expressão. O véu islâmico é algo que diz respeito às mulheres. São as mulheres muçulmanas que decidem rejeitá-lo, apesar das ameaças de apostasia, ou usá-lo, mesmo que isso as sujeite a possível assédio e agressão. A decisão cabe a elas e apenas a elas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost CA e traduzido do inglês.

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