OPINIÃO

Mídias sociais: o playground virtual do narcisista

02/04/2015 11:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Tsahi Levent-Levi/Flickr
A stick person standing in front of a mirror looking at himself. This one was used to represent a video selfie for a post I did on the relevance of video communications: <a href="http://bloggeek.me/webrtcs-video-calling-useful/" rel="nofollow">bloggeek.me/webrtcs-video-calling-useful/</a>

Quando a angústia existencial normal da adolescência vira necessidade compulsiva de afirmação? E quando é que ela se converte em narcisismo patológico? Para começar, poderíamos olhar para os aparelhinhos que temos nas mãos.

A existência de milhões de jovens obcecados pelo Facebook, Twitter, Instagram e outros não é novidade para ninguém.

Diariamente, ou mesmo de hora em hora, esses jovens postam fotos deles próprios e de onde estão, como se o mundo de repente estivesse interessadíssimo nas minúcias de seu cotidiano. Mas o que isso realmente representa para eles, e qual é seu impacto de longo prazo sobre nós?

Estaremos assistindo apenas ao envolvimento com si mesmo que é inerente ao comportamento do tipo adolescente? "Olhe para mim, sou especial, não?" Ou seria isso um reflexo mais insidioso do narcisismo crescente entre a população geral? "Olhe para mim ou sofra as consequências!" Como psicóloga especializada na autoimagem e autoestima, essa pergunta me é feita com frequência.

Os críticos culturais frequentemente dizem que a resposta está no narcisismo - que a presença das mídias sociais levou a uma epidemia de narcisismo --, e, embora eu não negue a contribuição das mídias sociais, tenho uma visão um pouco diferente. Não será possível que essas duas tendências sejam verdadeiras e talvez até se entrelacem? Não é possível que milhões de adolescentes inseguros, como os das gerações anteriores, estejam fazendo o que adolescentes sempre fazem? Por sua própria natureza, os teens se preocupam como eles próprios, e "encontrar-se" é uma parte essencial da transição para a idade adulta. Mas a existência de tantos lugares acessíveis onde expor essa viagem talvez esteja incentivando mais comportamentos narcisistas. Assim, talvez o playground virtual esteja moldando seus usuários mais vulneráveis.

Desde o surgimento da tecnologia móvel - computadores, celulares, iPads, etc. - esses aparelhos têm estado nas mãos de nossas crianças, muitas vezes desde a infância. No segundo ciclo do ensino fundamental, as crianças já os usam para sua lição de casa, para a exploração, comunicação e conexão. Quando chegam ao ensino médio, quase todas têm smartphone, e com ele vêm as mensagens de texto, os tuites e os selfies incessantes. Retratos posados ou arquitetados com cuidado servem para promover os adolescentes como se fossem astros de seus reality shows próprios, buscando a aprovação de sua base de fãs - seus amigos. Nada de contato olho a olho ou interação individual direta. Todos os adolescentes o fazem, simplesmente porque isso é algo que todo o mundo faz.

O importante aqui é notar que a preocupação adolescente típica com "quem sou eu" ou "quem eu quero ser" saiu da privacidade da casa de cada um e passou a ser compartilhada com centenas ou até milhares de outros adolescentes. O mesmo se dá com as reações. Quer seja positivo, negativo, pessoal ou anônimo, o feedback virtual é dado de modo instantâneo e é o tipo de atenção que reforça o desejo por mais. Se nossos jovens crescem achando que outros podem alimentar sua autoestima, consolidar sua identidade e lhes dar reforço, isso pode muito bem estar prejudicando o processo pelo qual cada um aprende a cuidar de si mesmo. Para um adolescente sedento de aceitação por seus pares, as mídias sociais são como água no deserto. "Se eu tivesse mais seguidores no Twitter, mais amigos no Facebook ou mais 'curti' no Instagram, talvez ficasse mais satisfeito comigo mesmo!" Essas oportunidades para receber atenção são enormes,variadas e crescem a cada dia que passa.

Para compreender realmente a diferença entre a autoabsorção típica dos adolescentes e o narcisismo patológico, é útil analisar a dinâmica subjacente. Os teens naturalmente usam seus pares e sua subcultura para ganhar autoconfiança e consciência deles mesmos. Eles dependem de outros para obter reforço até que consigam se dar esse reforço sozinhos. Os narcisistas, por outro lado, nunca chegam a desenvolver essa habilidade emocional. O narcisismo patológico não é a mera autoabsorção passageira - é a falha em criar um self sólido e coeso. O resultado é uma necessidade crônica e extrema de atenção, um desejo de fontes externas constantes - por exemplo, afeto, sexo, riqueza e poder - para a pessoa sentir-se segura. O adolescente autoabsorto pode se irritar e contestar quando lhe pedem que se afaste de seus aparelhos móveis, mas o narcisista pode sentir um vazio profundo e insuportável quando o acesso aos aparelhos lhe é negado.

Tome-se o caso de uma paciente minha, uma garota de 17 anos à qual darei o nome Annie que chegou à primeira sessão com o celular na mão. Ela queria ajuda para lidar com seus ataques de pânico. Quando entrou na minha sala, disse que estava terminando de escrever uma mensagem para informar seus amigos sobre onde estava.

Evidentemente, falar com uma psicóloga era apenas uma das muitas atividades que ela compartilhava com os amigos ao longo do dia. Durante a sessão, como seu telefone não parava de tocar, pedi que ela o guardasse na bolsa. Ela o fez, mas me disse que nunca desliga o telefone, que o checa centenas de vezes por dia e que tê-lo por perto reduz sua ansiedade. "É minha tábua de salvação", ela disse, brincando, "especialmente por eu ter tido pânico", e ficar conectada com seus amigos era muito importante para ela. Com o celular fora de sua vista, ela conseguiu se concentrar naquilo que a tinha levado a procurar ajuda. Ela me pareceu uma adolescente como muitas, cuja identidade está fortemente ligada a seu grupo de pares, mas que possui a capacidade de voltar sua atenção para dentro.

Enquanto isso, um homem de 29 anos que chamarei de Joe também veio se consultar, trazendo seu telefone. Ele queria ajuda com sua relação com sua mulher e disse que precisava deixar o telefone ligado devido ao trabalho.

Joe tinha um celular para o trabalho e outro para seu uso pessoal, mas os dois ficavam sempre a seu lado. Sua mulher me disse que eles raramente tinham um momento ininterrupto a sós, porque, mesmo que seus telefones estivessem desligados, Joe olhava constantemente para o dele. Ele era relações públicas e dizia que tuitar fazia parte do trabalho. Desde que ganhou seu primeiro telefone, aos 14 anos, ele tinha acumulado milhares de seguidores no Facebook, mandava posts de todo lugar para onde ia e mantinha um diário de sua vida.

Essa fonte de orgulho para Joe era a mesma que irritava sua mulher, segundo quem mesmo os momentos mais românticos do casal eram pausados para que ele fizesse fotos e selfies. Eu soube mais tarde que Joe tinha um terceiro telefone, "secreto", que usava para "brincar" em sites de namoro. "Era inofensivo", ele disse, já que nunca chegava a marcar um encontro concreto com ninguém, mas evidentemente tinha prazer na atenção que esses contatos lhe davam.

Ele era um homem que constantemente buscava reforço de fora para se certificar de seu valor, algo que parecia incapaz de dar a si mesmo. Joe me disse que sem essas atividades de mídia social ele se sentia entediado, distraído e vazio, como se estivesse deixando a vida passar em branco.

Tudo isso é para dizer: está claro que os adolescentes de hoje vivem um processo de desenvolvimento mais visível que nunca.

Seu desejo de atenção, de serem olhados e serem vistos como especiais, pode parecer mais narcísico que o de gerações anteriores. Mas é provável que a diferença não seja tão grande.

Sim, esse desejo de atenção revela autoenvolvimento e parece ser superficial e indulgente. Mas os narcisistas potenciais são mais preocupantes, e atribuir a culpa por eles apenas às mídias sociais é simplismo demais.

A personalidade narcisista se desenvolve no contexto da família, dos pares e da cultura da pessoa, desde o dia que ela nasce até a idade adulta. Precisamos levar em conta outros fatores -como a superproteção pelos pais, as crianças mimadas que acham que têm direito a tudo, nossa cultura da celebridade e muito mais--para entender como esses fenômenos também contribuem para ela.

As mídias sociais podem encorajar tendências já existentes, mas é preciso muito mais que elas para o narcisismo crescer numa cultura.

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Vivian Diller, Ph.D. é psicóloga que atende pacientes particulares em Nova York. É especialista consultada pela mídia sobre vários tópicos psicológicos e consultora de empresas que promovem produtos de saúde, beleza e cosméticos. Seu livro"Face It: What Women Really Feel As Their Looks Change" (2010), editado por Michele Willens, é um manual psicológico para ajudar as mulheres a lidar com as emoções suscitadas pelas mudanças em sua aparência.Visite o site

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.