OPINIÃO

Sobre o ex-marido da psicanalista

28/08/2014 18:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02
Getty Images

Reprodução de carta por mim escrita para Dra. Ana Schnappel, psicanalista, em algum dia de agosto de 2002.

Cara Dra. Ana,

Estive em Buenos Aires. E talvez essa frase pareça ser o suficiente para que você entenda tudo o que ela tenta mas é impedida de significar.

Ou não. Ando eu mesma confusa, absorta na tentativa de decifrar o que é real e o que é imaginário.

Já reparou que ninguém te diz "presta absorção!", como te diz para prestar atenção? Não é preciso demandar da pessoa do meu lado ou à minha frente na fila do ônibus que ela se mantenha absorta em si, mesmo com o eventual rala & esfrega que se sucede nos mais diferentes meios de transporte coletivo. É o default: somos completamente absorvidos por nós mesmos com alguns lampejos de mesmerização por algo que desejamos por um instante.

Enquanto isso, agosto insiste em não terminar. E ronda no ar a preocupante perspectiva de setembro.

Talvez eu perca qualquer credibilidade que ainda me reste, mas é importante que eu te fale, agora que você está feliz (creio eu) e encontrou o amor com o famoso maquiador grisalho da TV Record, sobre o que realmente houve entre mim e o homem que não era meu marido. E que talvez também não fosse o seu.

Eu o conheci num fim de tarde chuvoso de inverno numa livraria e de lá fomos para o Franz Café. Me apaixonei antes da chegada do cappuccino. E apesar de ter guardado um guardanapo com o email dele como evidência, agora tenho certeza de que L.Z. nunca existiu. Esse homem não passou de um personagem numa história; seu nome, uma provável justaposição de outros nomes, de amores passados, que talvez existiram, assim como a sua cara e partes do seu corpo - a tatuagem de nuvem cinza carregada de chuva no interior do braço esquerdo -, foram construídos sem que eu tivesse consciência - tenho agora plena consciência.

Não foi amor à primeira vista, mas ao primeiro sinal de narcisismo sociopático. O charme da falta de consciência, as deliciosas mentiras patológicas (posso apontar dedos?). Hoje falo dele como falaria de um personagem como Meursault, d'O Estrangeiro, de Camus, tirando o existencialismo. No mais, estávamos juntos em Buenos Aires quando sua mãe morreu e L.Z. não esboçou qualquer dor. Também jamais admitiu qualquer sentimento por mim nem em San Telmo nem no Astúrias, convenientemente localizado na marginal Pinheiros.

Tivemos uma DR séria em Buenos Aires. Eu falei de você e da nossa relação e ele ouviu tudo com a cara de paisagem típica dos que não podiam se importar menos; depois me beijou.

Não, não tenho mais o tíquete comprovante da viagem, o que pode ser um indício de que ela nunca tenha acontecido. Você era casada? Seu ex-marido chamava-se L.Z.? Cheguei a um ponto que prefiro não saber. Tiramos fotos na viagem, mas minha mala foi extraviada e encontrada só tempos depois em Alepo, na Síria; dentro dela, apenas uma gilete, me informou o funcionário aeroportuário.

Decidi assistir como ouvinte a uma aula de História da Filosofia Medieval na faculdade onde ele disse lecionar, mas o departamento de Filosofia não existia. Há anos havia mudado de endereço.

Acho que não o amo mais. Mas em algum momento, em algum lugar, sinto que houve uma cisão fatal dentro de mim. O céu cinza, os motoboys incansáveis, o Estadão Bar & Lanches. Tudo isso é real, confere?

Espero poder retornar às nossas sessões. Sinto sua falta. Por favor não use esta carta em seminários de esquizofrenia - é só o que te peço.

Sua analisanda, Vitória.

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