OPINIÃO

Políticas do amor

03/10/2014 20:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
Joel Carillet via Getty Images

Inventariando a minha vida e as eleições por que passei, não pude deixar de lembrar de todos os homens por quem me apaixonei nesses momentos seminais da interminável construção da nossa identidade nacional. Na política do amor, sempre cri na lei da interação eletrostática. E tratava de posicionar meu corpo em oposição diametral a qualquer objeto do meu afeto.

Pequeno resumo da minha trajetória: fui trotskista (de cepa inculta) em 1996, para antagonizar um boy leninista e por achar bela a ideia de uma revolução permanente (contanto que eu não tivesse que sair da cama). Depois tomei ecstasy, acreditei no amor por três meses, sofri e fui morar num kibutz, em Israel. E conheci Mazen Muhammad.

Mazen Muhammad era um romântico, com penchant para ataques suicidas e paixão desenfreada pela Jihad Islâmica. Já eu, nessa época, fazia o gênero 'utópica pequeno burguesa' que militava pela paz no planeta e 'defendia' um estado palestino, enquanto tomava sorvete Haggen Dazs de doce de leite no locus privilegiado que era o meu sofá.

Quando conheci Mazen, ele trabalhava na livraria do aeroporto Internacional Yasser Arafat. E falava de artes, política e islã com a mesma paixão. Fomos à praia de Gaza numa noite de ventania. Em 2001, uma semana e meia de amor em Jerusalém.

Em 2002, com o advento do Lula e a histeria pelo novo que se seguiu, saí do prumo. Trocamos alguns e-mails. Quando a bola baixou e voltei a pensar no palestino, deu-se o trágico desaparecimento.

Mas voltando ao passado próximo. Na segunda vez em que nos conhecemos, Mazen e eu lançamos mão de todos os canais de comunicação, o dia todo, com medo de que pudéssemos perder o contato. Chat de FB, WhatsApp, Viber e comentários inócuos em fotos do instagram. As dele flertavam com o artístico; fatias da realidade morta: um maço de Marlboros vazio, um copo d'água pela metade, um prato sem comida. A coisa enfadonha de sempre.

Sim, era muito mais fácil amar as pessoas quando elas eram encobertas pelo misterioso véu da falta de conexão; pelo quase anonimato pré-redes sociais. Hoje, há que se esforçar muito - e evitar leitura frequente dos posts do ser amado, bem como visualização de suas selfies insistentes - para se ter um romance longevo. Anda difícil esconder o nosso ridículo.

Mazen, no entanto, só fazia aumentar o meu interesse, me alimentando tão somente do que eu precisava para continuar no transe amoroso.

Senhas, número de passaporte, dividi tudo o que podia. E enquanto minhas curvas iam ganhando contornos cada vez mais arredondados, resultado de uma alimentação baseada em sorvete e sedentarismo, meu amor relatava sua dificuldade em conseguir salsicha bovina enlatada. Culpada e roliça, sugeri instituir um bolsa-alimentação para o bofe. Por sorte, ele tinha um companheiro no Rio Grande do Sul que poderia receber o dinheiro e transferi-lo para o oriente médio através da rede de amigos e simpatizantes da Jihad, sem custos extras ou explicações adicionais.

Nosso encontro estava se aproximando. Com seu português falho e bonitinho, Mazen sugeriu que comprássemos as passagens para Salvador na agência de viagens de um amigo seu na Cisjordânia. Achei que era uma forma digna de ajudar a circular a economia local. Fiz a transferência bancária.

(deve continuar no próximo post, mas infelizmente não há garantias nesta vida).

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