OPINIÃO

Pílulas de realidade

10/07/2014 14:03 -03 | Atualizado 06/05/2017 18:22 -03
Ulet Ifansasti via Getty Images
Blogueira relata crônica de uma noite tórrida mas sofrida.

Foi aí que a porta do elevador se abriu. Era L.Z.

Ele se assustou; tinha esquecido nosso encontro.

Fingi não ter me abalado.

Um abraço tímido.

Por um momento breve, dançou pela minha cabeça a ideia de que eu poderia ir embora. Confusa, na dúvida sobre a existência do livre arbítrio ou se já estaria tudo bordado no tecido chinfrim da realidade, entrei.

Reparei numa mala e em roupas jogadas.

Tocava couleur café, do Gainsbourg, e eu estava pronta para servir, sentada no sofá, de onde eu só sairia no dia seguinte. Ana, minha psicanalista e mulher de L.Z., me veio à cabeça. Aliás, eu já não conseguia mais pensar num sem o outro. Onde andará ela? Teria me descartado, simplesmente? Isso me conferia certos direitos, me parecia.

Daí ele disse, enquanto guardava objetos, prováveis vestígios de outras relações, pegava um vinho e ligava o som: sabe o que eu queria agora?

Que você tirasse só a calcinha. Era tática de choque.

Como se sabe, uma manobra ofensiva com o objetivo de neutralizar o inimigo ou alvo, permitindo uma ação rápida e inesperada.

Sabe jogar xadrez?, foi a pergunta que se seguiu.

L.Z. era uma faca afiada, de dois gumes. Sentia-se único e precioso, de um lado; e dependia do olhar alheio para existir, de outro. Inclusive do meu. Mas não apenas, obviamente. Eram necessários muitos olhos, assim como bocas, sobre ele. Ali, calcinha já perdida e o playlist do Gainsburg em je t'aime... moi non plus, meu desejo era ser neutralizada.

E fui. Entre bocas, cabelos, línguas e pés gelados, me apaixonava de um jeito que dava vertigem e causou apagão sináptico.

E aí se seguiu a partida, na qual me foi concedida vantagem inicial para compensar o desequilíbrio de forças.

Me fez bem te ver; ele disse, movendo sua torre para ponto de aparência inofensiva.

E a Ana?, eu queria saber, enquanto fingia obtusamente planejar uma jogada. A cara dele ficou tensa. Meus peões iam sendo abatidos.

O que tem ela?

Você saiu de casa?

(Ele não me olhava) Tô passando uns dias aqui. A gente se gosta. É uma organização familiar. Mas acho que o amor já era.

E ela tá bem? Tá em São Paulo?

Minhas perguntas irritavam.

E tem outras parceiras de xadrez? (Meu ciúme podia ser facilmente redirecionado)

Eu gosto de jogar xadrez.

Na jogada de número 11, meu rei já estava sob ataque da torre negra dele. Eu até poderia colocar minha rainha na frente, mas não via grandes ganhos emocionais: eu fazia bem para ele, afinal.

Abrimos outro vinho; nunca vestimos as roupas de volta. Era um daqueles momentos só vistos na vida alheia ou no cinema, de felicidade total. Mas que já trazem em si a fagulha do sofrimento que espera na esquina. A vertigem, eu sabia, era só minha.

L.Z. era enxadrista competente e, a partir deste dia, com frequência me dava esperanças deixando o jogo interrompido, adiando o match e, depois, muitas vezes cancelando em cima da hora. Meu reino sob ameaça constante.

Acordei sozinha, no sofá. Sem vestígios dele; ou da calcinha.

Continuei recusando as pílulas de realidade, há muito prescritas, já no fim da validade.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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