OPINIÃO

Chuva, coxinha e vida após a morte

24/07/2014 17:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Photo by Rafa Elias via Getty Images

Era no tempo em que chovia. Numa dessas noites frias, molhadas e tristes, em que o pensamento gira em torno da existência de vida após a morte e de uma coxinha decente em São Paulo; dessas noites em que se questiona como seria ter nascido muçulmana só para se imaginar reclinada em almofadas verdes bordadas de ouro no playground que seria o céu; cercada de 72 homens jovens e bonitos dotados de "frescor perpétuo" e, mais importante, à minha total disposição.

Não tendo vislumbrado futuro no baixo Augusta, cruzei a Paulista e entrei no Conjunto Nacional, o meu templo de acolhimento. A promessa de cultura - livros, o som do saxofone em frente ao Viena, o talvez filme francês, que me fazia esquecer minha própria vida por 2 horas - era algum alento.

A hora era exótica, dessas em que só bêbados, cinéfilos, gatos e o inevitável mendigo - que parecia me seguir, mas não, seguia a própria sombra - me faziam companhia.

Eu tomava o meu terceiro ristretto no balcão, já antecipando uma noite insone. Quando se está apaixonada, deve-se resistir a todo custo ao impulso de cantar e dançar 'Borderline' da Madonna em público, se há a intenção de retornar ao dado local e se busca alguma respeitabilidade.

Comecei a explicar para a moça do Viena sobre a complexidade em torno da coxinha perfeita - sem catupiry, frita em profundidades desconhecidas de óleo e, assim, portadora da 'crocância' ideal. Ela me ouvia sem grande interesse - que eu mesma não tinha em mim - quando meu olhar se perdeu numa cabeleira loira que saía do cinema. Era Ana. Ela falava com alguém fora de quadro - L.Z.?

É de catupiry, me disse a moça detrás do balcão, para quem eu entreguei nota de dez e segui caminho, em zigue-zague. Me escondi atrás do carrinho de pipoca e o homem com quem Ana falava à distância apareceu. Alto, charmosamente grisalho, sorriso sedutor: não era L.Z. (L.Z. não sorria).

Levantei e comprei pipoca. Fui andando em direção ao casal.

Fingi susto: Ana!

- Como vai, Vitória?, simpática e seca. Burocrática, eu diria.

- Bem, tô bem. Tô dando uma volta; quer pipoca? Como foram as férias?

- Obrigada. Cheguei ontem; podemos retomar as sessões.

Meus olhos se fixaram no homem alto.

- Esse é o Lucas; Vitória.

- Prazer; eu estava confusa.

Ele me cumprimentou e se despediu, já que Ana anunciou partida imediata.

A confusão perdurou e voltei para casa. Minha previsão de insônia estava correta. Não pude resistir e mandei mensagem para L.Z: por onde você anda? Se ele agora estava separado, tudo se resolveria. Sem resposta, para variar. Eu vivia em companhia da ausência de L.Z., que era uma construção, um homem inventado por mim. Ele me dava uma peça do quebra-cabeças e eu vinha com o resto todo e montava do jeito que eu queria um trompe l'oeil que só eu via.

Passei a madrugada fazendo Sudoku.

De manhã bem cedo recebi uma ligação da Ana.

- Podemos nos ver hoje, Vitória?

- Sim, claro (algo poderia ser extraído do encontro).

Liguei para o trabalho e aleguei intoxicação alimentar. Todos sabiam da minha intolerância à lactose.

Cheguei no consultório de Ana e a porta estava aberta.

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