OPINIÃO

O filme 'Corpo Elétrico' e a memória da exploração que transformou minha vida

Filme me resgatou memórias e, em diversos instantes, pude ver a operação em que trabalhei retratada na fábrica de confecção de roupas que o filme traz.

16/08/2017 11:13 -03 | Atualizado 16/08/2017 11:14 -03
Divulgação
O ator Kelner Macêdo é Elias, protagonista do filme Corpo Elétrico.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir ao filme Corpo Elétrico, do diretor Marcelo Caetano, no qual meu chegado, Lucas Andrade, atua. Uma história untada no cotidiano, daquelas que passam pela gente sem serem percebidas e, quando percebemos, parece até que levamos um choque. Detalhes do cotidiano, das relações cada vez mais próximas e das condições às quais submetemos nossos corpos.

Não quero fazer resenha ou algo do tipo aqui. Na real, queria tratar de um - dentre tantos elementos - que me chamou bastante atenção: o ambiente de trabalho e as relações que ali surgem. Relações entre aqueles e aquelas que trabalham de fato, não entre aqueles e aquelas que só exploram o trabalho alheio. A conversa não é com patrão ou gente que sofre da síndrome de patrão. Já quero deixar esse papo bem dado aqui, certo?

Lembro-me da primeira vez que tive um registro em carteira. Fui trabalhar com telemarketing e iniciei a primeira experiência real com o mundo do trabalho. Antes, com 16 anos, havia estagiado no Ministério da Saúde, onde a vivência foi péssima, então nem conta. Sabe aquela fita de "estagiário traz café, compra doce na padaria, acabou papel, vai pegar lá no depósito e aguenta grito de gente frustrada"? Então, era isso mesmo.

No call center, eu já entrei com uma voz na cabeça dizendo "não tem escolha, fi, vai ter que tirar seu suado daí, então aguente". O treinamento de produto foi ok. Parecia um cursinho, várias promessas, várias perspectivas, tudo goela. Mas nem vou me aprofundar para não desviar o foco.

A real é que passou o primeiro mês, o segundo, e no terceiro - quando você fica sabendo se será mesmo contratado ou não - um raio caiu e me enrijeceu os músculos quando descobri que sim, aquele iria ser o meu trabalho dali em diante.

E por que esse choque? Porque em três meses você passa por um processo de "mecanização" do seu corpo e consciência. A repetição; a precariedade; o cansaço mental que acaba por esgotar as energias físicas; as limitações; as vezes em que o almoço tinha que ser feito em menos de 20 minutos e você gastava 10 na fila do micro-ondas; a falta de lugar para sentar; os pedidos de permissão para ir ao banheiro; a sensação de que o seu lugar seria sempre aquele, de máquina; e todo o brilho dos ombros, pernas, pontas dos dedos e topo das cabeças se apaga.

O ambiente de trabalho nessas condições de exploração e desumanização falsamente tratadas como "oportunidade" mecanizou-me. Mas, mesmo quando o breu dominava as ideias e a gente olhava um para o rosto do outro sem conseguir enxergar a pessoa por trás do par de olhos, lá no fundo opaco algo reluzia. Resistência.

Aquele lugar que nos obrigava a trocar feriado com os nossos para trabalhar em troca de um pedaço de lasanha ou bolo "dados" pelas chefias; que criminalizava atrasos; obrigava a escolher entre Natal ou Ano Novo; era também o espaço onde nossos corpos elétricos se magnetizavam, atraíam-se mesmo.

Os dez minutos de pausa para tomar um café eram o momento onde nós recobrávamos a energia. Uma energia diferente da que sugavam durantes as oito horas de serviço. Os laços que se atavam ali também eram aqueles que nos seguravam. Amizades, desavenças, amores, paixões fulminantes, brigas, diferenças, semelhanças. Bastava "deslogar" para que voltássemos à humanidade.

Era aí que eu sentia meu corpo elétrico. Tenso e vibrante. Eu me recordava do quanto desejava, queria, não queria mais, queria por um tempo, era querido. Muitas vezes somos condicionados a apagar as luzes dentro de nós. Como se brilhar demais ofuscasse a presença daqueles que vivem às nossas custas - patrões sádicos que acham normal barganhar folga, alimentação, e outros benefícios básicos.

Ainda assim, resistimos. Inclusive, das formas mais diversas possíveis. Duas formas, pra ser mais exato. E vou descrevê-las aqui. Preste atenção.

Antes do Dia 15: alta voltagem

Toda a primeira sexta-feira, após o salário cair, era de lei: samba no centro da cidade. Cada ligação parecia durar dois anos e, fechando ou não a promessa de pagamento, pouco importava. As mulheres - majoritariamente negras - de minha equipe chegavam maravilhosas. Gays e lésbicas também, sempre na estica.

E enfatizo mulheres negras, gays e lésbicas porque ali eram elas e eles que seguravam o B.O. cotidiano, ouviam várias ofensas racistas e preconceituosas, quase sempre com medo de sacar do processo trabalhista por assédio e não arrumarem outro emprego em seguida. Conta de casa não espera acabar treta no serviço para ser paga, fala aí. Enfim, voltando.

O dia todo era de preparação para a noite de compensação. No caso, pelo mês de trabalho maçante. Além da estética (impecável), a animação delas - de atendentes às rainhas que eram - passava pelos outros corpos com corrente elétrica. Contagiante, pulsante, necessária.

No almoço, todo mundo aproveitava o VR cheio para comprar comida fora e tirar folga da marmita - e do micro-ondas de baixa potência. Lanches, yakissoba, peixe, massa (sem ser a lasanha safada que a empresa dava para compensar aquela fita que citei do feriado), todas aquelas comidas que a gente não comeria depois do dia 15, agora enchiam o refeitório.

Porque também tinha dessas: há pouco tempo pra comer, então o esquema era comprar e trazer de volta para o trampo. Normal. Bom que daí todo mundo já sentava e continuava a planejar o bochicho marcado para mais tarde.

O combinado era arrastar e se acabar, simples assim. Por alguns minutos, estávamos em uma mesa com semelhantes, com gente que era - de alguma forma - família. Ou pelo menos o grupo de pessoas que víamos mais vezes na semana do que nossas próprias famílias. Geral ficava excitada, falando e gritando, rindo de perder o ar, como se tivessem nos ligado na tomada. Corpos Elétricos, né? Corpos finalmente elétricos - e não mecânicos.

A saída era a chegada. A porta do prédio virava fluxo e, ao mesmo tempo, calçada da fama. Geral reunida, só precisava conferir se não faltava ninguém. Nos rostos, uma expressão de "hoje a gente venceu", mesmo sabendo que não era bem assim. O trabalho desgastava de um jeito tão agudo, tão profundo, que o jeito era guardar o melhor de nós apenas para nós - e para os nossos e nossas.

Quando a carne endurecida chegava ao seu limite, precisávamos nos renovar. Então, este era o momento. No samba, na rua, na mesa, no fundo do copo. No gargalo de nossos corpos, soltávamos a voz, a língua, trocávamos vibrações e recarregávamos as forças para os próximos 15 dias. Inclusive...

Depois do Dia 15: curto-circuito

Acorda. Toma banho. Troca de roupa. Toma café. Pega a mochila. Pega bênção da mãe. Pega lotação. Pega metrô. Tudo cheia. Tudo cheio. Você mais ainda. É cedo. Cedo demais. Chega no trabalho. Bate cartão. Força um "bom dia". Liga o computador. Pega os fones. Coloca na cabeça. Sente uma queda de energia. Abre as 12 telas do sistema. Sente um choque debaixo do olho esquerdo. Ele começa a tremer.

Libera seu ID para receber ligação. Cai a primeira do dia. Antes de tirar do mudo, cala. Cala como se a boca estivesse costurada. Sente a angústia pressionar a caixa torácica. Aperta os punhos. "Bom dia, é você que vai resolver meu problema?". "Pode me passar seu CPF, por favor?". No meio tempo entre a sequência de números e a sequência de toques no teclado, pega um Post It. Cola ele na tela do computador para cobrir o relógio no canto inferior direito e não ver as horas passarem lentamente. Repete todo este processo por mais 15 dias.

Lembro que havia momentos nos quais achávamos que seria impossível aguentar. Os problemas da vida fora do trabalho somados aos problemas dentro dele exigiam uma mente tão robotizada que a imaginação desaparecia. A gente só fazia. Enferrujávamos também, mesmo com o corpo - ainda que quisesse - não sendo de ferro.

Colunas, juntas, visão desaparecendo rapidamente, ouvidos cada vez mais enterrados no crânio, sem captar os sons para além da voz do outro lado da linha telefônica. Lembro que eu evitava me olhar no espelho porque achava meu corpo envergado, cansado, sempre cansado.

O refeitório virava um lugar de extremo silêncio e cada um focava apenas em sua comida. Isso quando íamos comer. Houve uma vez em que trocamos o lanche pelo bar e bebemos no horário de serviço para aguentar. Amortecia. Só que não melhorava. já que amanhã seria a mesma história.

As chefias cobravam e pouco recebíamos. Perspectiva de crescimento? De que jeito? Nossos corpos eram máquinas e nossa corporalidade se tornou robotizada. Coração, a gente só desembrulhava em casa, para não estragar.

Choque e interruptor

Em algum momento ele viria. O choque, momento em que há uma oscilação extrema de energia em nós e, então, resta-nos apenas estremecer cada canto da cabeça aos pés. Eu via o choque quando alguma amiga não suportava mais as ofensas fora e dentro da linha e pedia demissão, de cabeça erguida. Mas olhava para baixo, preocupada com o salário que não viria.

Vivia o choque quando gastávamos a "pausa lanche" para desabafar, chorar e nos revoltar. Ouvia o choque quando estourava denúncia de abuso cometido pelos chefias. Espalhava o choque quando alguém milagrosamente subia de cargo sem ter descido do respeito por si próprio. Recebia o choque quando alguém me agradecia toda vez que eu, sem energia, dizia: a gente foi feito para aguentar enquanto não for a hora de mudar. Porque eu me dizia isso todos os dias. Às vezes acreditava, às vezes não. Mas dizia.

"Corpo Elétrico" me resgatou estas memórias e, em diversos instantes, pude ver a "operação" em que trabalhei retratada na fábrica de confecção de roupas que o filme traz. Vi sorrisos, queixas, experiências, relações e envolvimentos que só quem sabe o que significa se reunir na copa pra "tomar um café" ou fazer uma festa apenas com os chegados e chegadas do trampo vai entender.

Um filme que apertou o interruptor aqui dentro e me fez pensar que eu nunca escrevi nada no Post it que colava para cobrir o horário. E se eu fosse escrever, o que seria?

"Nós fomos feitos pra acender". E ascender. Assistam ao filme e se liguem.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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