OPINIÃO

Bolha social, calçada e a necessidade de conversar (com os nossos e nossas)

"Havia calçada competindo com calçada pra ver qual era a mais arrumada, a que não estava só no barro ou com montanha de areia da última reforma."

18/07/2017 18:48 -03 | Atualizado 18/07/2017 18:55 -03

"Bolha Social", tão discutida recentemente. As visões a seu respeito são ambíguas - há quem critique negativamente e também há quem ressalte aspectos positivos. Fato é: enquanto lia e refletia sobre tal conceito, percebi que, ao menos em minha vida, ele não é exclusividade da dita "pós-modernidade" (até porque basta lembrar que os estudos psicossociais sobre grupos não são de hoje). Meu objetivo aqui não é gastar parágrafos tentando validar ou não o que este conceito significa. Basicamente, trata-se de "bolhas sociais" os grupos que se formam a partir do interesse mútuo por determinado assunto ou ideologia e que, aparentemente, segregam a sociedade e homogeinizam as formas de pensamento. O assunto ganha mais intensidade quando tal conceito é inserido no âmbito das redes sociais. Bem, acredito que esta introdução, do jeito que foi escrita, possa estabelecer um primeiro - e garanto, último - passo para a discussão que pretendo ter aqui. Inclusive, depois deste "passo", só virá correria e provavelmente vocês vão perceber a mistura de relaxamento e tensão que me causa tratar de vivências e teorias, daquilo que experienciei empiricamente e não sabia que tinha um nome técnico e "enjoado" - como "bolha social".

Chega. Então, vamos lá.

Quando penso em "espaços" - físicos ou não, gosto sempre de viajar pelas memórias reconstruindo o lugar onde nasci, cresci e que vivo até hoje. Eu volto para a casa velha na periferia da zona leste e então peço à minha mãe algo que há 20 anos a deixava nervosa: "posso sair pra rua"? Se vamos falar de "bolha social", antes eu quero falar de calçada, da importância de conversarmos com os nossos e como o fazer parte também pode nos deixar à parte.

Durante minha infância e adolescência, os quarteirões que formam o bairro em que moro foram os limites do mundo. Tudo cabia ali e deveria existir ali. Mesmo quando saíamos de lá para ir ao médico, casa de parentes ou festa de aniversário em outras quebradas, a vida real só acontecia naquele velho asfalto cheio de marcas tão bem conhecidas. Passeio não era passeio - raro e surreal. Tanto que às vezes a gente não conseguia nem acreditar que era de verdade. Agora voltar pra rua, pra minha rua, isso era realidade. "O bom filho a casa torna", não é assim que falam as antigas?

Começo este texto falando do quarteirão porque há alguns dias venho revirando as gavetas da memória em busca de algumas fotos antigas. Encontrei uma que me fez voltar ao passado, mas com os olhos de hoje. Era uma foto da calçada de casa. Nela, eu, meu irmão e nossos amigos.

Arquivo Pessoal

A calçada

Rachada, com fossa escorrendo, um retângulo verde, outro amarelo lembrando que a Copa havia passado, cheia de folhas, falhas, mancha de óleo de motor, muitos tecos de pedras, às vezes lixeira, às vezes lixo espalhado, às vezes cachorros, às vezes só carcaça de carro. Mas sempre, sempre com alguém fazendo algo. De manhã, tinha que ser varrida. À noite, sedia o espaço para alguns casais apaixonados. Na madrugada, fitava o fluxo, na dela, e só ajudava quem precisava andar pela sombra. Na chuva, tinha sempre uma com árvore pra ficar embaixo. Durante a semana, a calçada respeitava os horários da escola: mais vazia das 7h às 11h e das 13h às 18h. Cheia depois das 18h. Finais de semana, lotava-se. Dois dias para as conversas de calçada.

Lembro que minha antiga (avó) levava café para as vizinhas e ficava sentada nas cadeiras de cozinha conversando. Minha mãe fazia o mesmo, sem café, mas com cigarro. Meu pai só parava na calçada quando tinha contra de futebol e a disputa ficava puxada, daí ele aproveitava para ficar debatendo com os outros pais sobre o Timão. Fora isso, a calçada dele era a do bar.

Havia calçada competindo com calçada pra ver qual era a mais arrumada, a que não estava só no barro ou com montanha de areia da última reforma. "Não quero que você pise na minha calçada", "sai da calçada dos outros", "não gosto que você fique na calçada da fulana". É de bolha que vocês querem falar, não é? Certo. Calçada só existe em relação à outra - literalmente, uma de frente pra outra.

Calçada era conversa, buchicho, lavagem de roupa suja, camaradagem ou, dependendo do horário, cena pra tomar enquadro da polícia. Pois é, não sei se muita gente está ciente, mas ser abordado na frente de casa - quando esta casa está nas regiões periféricas da cidade - "já é cultural". Se você for preto então, vai ter que sacar do comprovante de residência. Enfim, mas esta é outra fita, infelizmente.

Com a imagem daqueles pivetes magrelos e gordos sentados na frente de minha casa, resgatei na hora a sensação de o quão importante eram os momentos em que nos reuníamos pra ficar trocando ideia. Falávamos de tudo o que cabia ali, no universo cheio de esquinas que era o quarteirão. Briga, sarro, briga dentro de casa, problemas na escola, vontades - de tênis, de brinquedo, de ser jogador de futebol ou personagem do Dragon Ball -, demarcação de território, tédio, medo. Esses são alguns dos motivos que nos levavam à calçada.

Havia sempre "a preferida". Por mais que a dona jogasse água ou deixasse seu cachorro bem colado em nossas nucas, a gente sempre voltada. E ria, falava palavrão, ficava encarando que passasse, usava como área do goleiro ou simplesmente nos encolhíamos em silêncio para passar as próximas horas sem interagir, interagindo. Não se tratava apenas de estar em algum lugar. Tratava-se de estar No Lugar onde pertencer já não exigia mais tanto esforço. Era na calçada que eu e meus amigos achávamos ser capazes de arrumar resposta para a maioria das questões, assim como aproveitávamos para compartilhar (ou criar) problemas. Nem sempre concordávamos. Na verdade, poucas vezes a concordância é que imperava. Mesmo com brigas, permanecíamos sentados, até tarde, com sangue nos olhos, querendo o coração do outro na ponta da faca, mas sem sair do lugar. Hoje entendo o porquê desta permanência teimosa: ali era o nosso lugar de falar. Acontecia de chorar também, mas isso só quando escurecia.

A conversa

Os motivos que nos faziam sair de casa todos os dias para brincar ou simplesmente ficar na rua variavam de moleque para moleque e não vem ao caso prolongar esse fato aqui. O que importava mesmo era saber que ao sentar ali, o "nós por nós" virava realidade. A sensação de ter outro lugar para ir e nele encontrar quem também queria "sair" resultava em conversas ora faladas, ora mudas. O essencial era reunir os nossos, falar sobre nossos assuntos - e suas variadas faces -, rachar a cabeça pra tentar achar soluções e tentar abstrair da realidade, fosse com piadas, socos ou drogas. A calçada era point, não tanto quando as esquinas (que valem outro texto), mas um point pra bolar ideia. E quantas vezes não foi na calçada que a gente se salvou? Muitas. Lembro das noites em que eu ficava sentado, sabendo que alguém passaria, pararia e conversaria comigo. Eu estava ali justamente porque precisava conversar, nem que fosse comigo mesmo. Era o espaço para o diálogo. Minha bolha foi de concreto, esburacada, cheia de outras vozes ecoando ao seu redor, e palco para o grupo de moleques que compartilhavam de uma mesma necessidade básica: a de conversar.

À parte

Neste ponto do texto, preciso incluir ao menos uma perspectiva de quem esteve sentado entre os demais meninos, dia após dia, na calçada, conversou, mas ainda assim, num determinado aspecto, ficou como a parte à parte.

"Bolha Social", grupo formado por indivíduos que compartilham das mesmas opiniões e estabelecem diálogos no intuito de trocarem ideias sem o objetivo de entrar em conflitos que possam prejudicar o senso de união e respeito. Há quem chame de "intolerância" ou "clubismo". Há quem diga que se trata de uma forma de se proteger dos discursos de ódio e se organizar enquanto coletivo seja em prol de uma ou mais causas. Em ambos os casos, acredito que o elemento principal continue sendo a necessidade de conversar. Com quem? Com quem minimamente nos compreende ou compartilha de vivências que se aproximam das nossas. Quando ouço ou leio "bolha social", lembro da calçada e lembro que ela me remete ao simples e direto: "nós por nós". Será que temos que sair da bolha ou trazer quem está de fora, isolado e perdido para um lugar onde possa falar e ser ouvido? Quem vai poder chegar e sentar na calçada?

Eu sentava lá, conversava, sentia que fazia parte de um grupo e ainda assim, a impressão de estar à parte não me abandonava. Por quê? Porque mesmo ali na calçada eu sabia que não poderia falar sobre um dos assuntos que mais gritava dentro de mim: a sexualidade. Falar abertamente sobre meus afetos, sentimentos, desejos seria impossível sem que eu fosse agredido física e psicologicamente. Toco neste ponto e enfatizo homossexualidade, raça e classe porque só depois de mais velho e com o mundo já um maior do que o quarteirão que pude sentir o quão importante é conversar, ter com quem conversar, falar sobre mim, ouvir sobre outras pessoas que viveram histórias próximas das minhas, ter a sensação de que elas são minhas vizinhas ou moleques que cresceram comigo, moram na mesma rua que eu e sentam, todos os dias, na minha calçada. Há Bolha Social? Sim, mas há calçadas para que possamos concordar e discordar, percebendo, de fato, o que nos une. O não não mata, ata. Fora dela, está o mundão - implacável. A realidade é essa.

Se essa bolha é o lugar onde encontro os meus e as minhas, onde passamos um tempo nos curando por meio do diálogo e atentamos para o cuidado de não desviar a atenção do real inimigo, então que seja bolha. Nós não precisamos sair dela (ainda). Nós precisamos trazer mais dos nossos pra ela. Chamar para o diálogo, mostrar a importância de conversar com quem quer e precisa conversar, não com quem apenas deseja o embate ideológico para colocar mais troféus na prateleira do ego.

Todo esse "pião" pelo bairro para dizer: precisamos conversar entre os nossos e nossas. Eu preciso da calçada. Talvez você precise dela também e se um dia não precisarmos mais, aí sim poderemos falar do "tamo junto" que alguns adoram lançar sem perguntar logo em seguida: "tamo" quem?

Até lá, segue o ditado: "o bom filho à calçada torna".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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