OPINIÃO

O que você precisa saber sobre o zika vírus

03/02/2016 11:36 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Brazil Photo Press/CON via Getty Images
RECIFE, BRAZIL - FEBRUARY 01: João Heitor baby born with microcephaly is held by his mother Gabrielly Santana da Paz as they wait to see a doctor at Oswaldo Cruz Hospital on February 1, 2016 in Recife, Brazil. Health officials believe as many as 100,000 people have been exposed to the Zika virus in Recife, although most never develop symptoms. In the last four months, authorities have recorded around 4,000 cases in Brazil in which the mosquito-borne Zika virus may have led to microcephaly in infants. The ailment results in an abnormally small head in newborns and is associated with various disorders including decreased brain development. According to the World Health Organization (WHO), the Zika virus outbreak is likely to spread throughout nearly all the Americas. (Photo by Diego Herculano/Brazil Photo Press/LatinContent/Getty Images)

A rápida disseminação do vírus zika nas Américas, somada à associação com microcefalia e síndrome de Guillain-Barré, colocaram sob os holofotes esse vírus previamente ignorado. Mas o que é o zika e de onde ele veio?

A história

O vírus foi identificado pela primeira vez em 1947 num macaco que era usado para monitorar a presença do vírus da febre amarela na floresta Zika, em Uganda. Na época, linhagens celulares não estavam disponíveis para o estudo de vírus, então o soro do macaco febril foi inoculado no cérebro de camundongos. Todos os camundongos adoeceram, e o vírus isolado nos cérebros foi batizado de vírus zika. O mesmo vírus seria isolado mais tarde nos mosquitos Aedes africanus, na floresta Zika.

Estudos sorológicos realizados nos anos 1950 mostraram que os humanos têm anticorpos contra o vírus zika, e o vírus foi isolado em humanos na Nigéria, em 1968. Estudos sorológicos posteriores revelaram evidências de infecção em outros países africanos, incluindo Uganda, Tanzânia, Egito, República Centro-Africana, Serra Leoa e Gabão, bem como países asiáticos (Índia, Malásia, Filipinas, Tailândia, Vietnã, Indonésia).

O vírus zika saiu da Ásia e da África em 2007 e 2013, com epidemias na Ilha Yap e na Polinésia Francesa, respectivamente. Os primeiros casos nas Américas foram detectados no Brasil, em maio de 2015. O vírus circulando no Brasil é um genotipo asiático, que possivelmente chegou ao país durante a Copa do Mundo de 2014. Agora, o vírus já se espalhou para 23 países do continente.

O vírus

O zika integra a família dos flavivírus, que também inclui o vírus da febre amarela, da dengue, da encefalite japonesa e do Nilo Ocidental. O genoma é uma cadeia de RNA positivo de kilobase ~10.8, encapsulada num capsídeo e cercada por uma membrana (ilustração; copyright ASM Press, 2015). O envelope (E) glicoproteína, embutido na membrana. Permite que o vírus se acople ao receptor da célula hospedeira para iniciar a infecção. Como no caso de outros flavivírus, os anticorpos contra a glicoproteína E provavelmente são importantes para a proteção contra a infecção.

Transmissão

O vírus zika é transmitido entre humanos por picadas de mosquito. O vírus já foi identificado em vários mosquitos do gênero Aedes, incluindo Aedes africanus, Aedes apicoargenteus, Aedes leutecephalus, Aedes aegypti, Aedes vitattus e Aedes furcifer. O Aedes albopictus foi identificado como o vetor primário da epidemia no Gabão, em 2007. Não se estabeleceu se há reservatórios não-humanos para o zika.

Sinais e sintomas

A maioria das pessoas infectadas com o zika apresenta sintomas leves ou nenhum sintoma. Cerca de 25% das pessoas infectadas desenvolvem os sintomas entre dois e dez dias depois da infecção, incluindo febre, dor nas articulações, olhos vermelhos e dor de cabeça. A recuperação costuma ser completa e há poucos casos de morte.

Duas condições associadas às infecções pelo zika tornam a epidemia potencialmente mais séria. A primeira é o desenvolvimento da síndrome de Guillain-Barré, que causa perda progressiva de força nos músculos por causa de danos no sistema nervoso periférico. A associação do zika com a síndrome de Guillain-Barré foi observada pela primeira vez na Polinésia Francesa, na epidemia de 2013.

A microcefalia congênita tem sido associada à infecção pelo zika no Brasil. Embora haja outras causas para a microcefalia, houve um aumento muito grande no número de casos em paralelo à epidemia. Não se sabe se o vírus é o responsável pelo problema. Um relato questiona o aumento de casos de microcefalia, sugerindo que ele seja atribuível a um efeito de "conscientização". Os dados epidemiológicos atuais são insuficientes para provar uma ligação entre a microcefalia e a infecção pelo vírus. São necessários mais estudos com grávidas para saber se o zika realmente é responsável pela microcefalia.

Dada a seriedade da síndrome de Guillain-Barré e da microcefalia, é prudente que grávidas evitem viajar para áreas em que a infecção pelo zika é endêmica, ou ao menos tomar medidas para reduzir a exposição ao mosquito.

O controle

Hoje em dia não há remédios ou vacinas que possam prevenir a infecção pelo zika. Existe uma vacina segura e eficiente contra o flavivírus que causa a febre amarela. Substituir a codificação da glicoproteína E da febre amarela pela do zika poderia ser uma boa abordagem para obter uma vacina. Mas os testes exigem vários anos.

O controle dos mosquitos é a única maneira de restringir a infecção pelo zika. Vestir roupas que cubram boa parte do corpo, dormir com a proteção de redes e certificar-se de que não há água parada (onde o mosquito se reproduz) são algumas delas. Reduzir a população do mosquito com inseticidas também pode ajudar a reduzir o risco de infecção.

Pensamentos finais

Não é surpresa que o zika tenha se espalhado pelas Américas. A área não só tem a espécie do mosquito que pode transmitir o vírus como há pouca imunidade da população contra a infecção. As infecções devem continuar ocorrendo nessas áreas, portanto é importante determinar se a infecção pelo vírus tem consequências sérias.

O zika foi encontrado em vários Estados americanos, incluindo Texas, Nova York e Nova Jersey, trazidos por viajantes. Não se pode afirmar com certeza se o vírus vai se estabelecer nos Estados Unidos. O vírus do Nilo Ocidental, também espalhado por mosquitos, chegou ao país em 1999 e rapidamente se disseminou pelo país. Já o vírus da dengue, que se espalha com os mosquitos Aedes, não se tornou endêmico nos Estados Unidos.

Recentemente discutimos o vírus zika no episódio 368 do programa This Week in Virology. Tenha certeza de que logo vamos voltar ao tema.

Post publicado originalmente em Virology.ws.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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