OPINIÃO

A vida real está parecida demais com o enredo de 'O Conto da Aia'

Censura, intervenção militar e cura gay são alguns dos temas em debate na sociedade brasileira.

05/10/2017 12:51 -03 | Atualizado 05/10/2017 12:51 -03
Reprodução - Hulu
'O Conto da Aia' é uma série de horror, e não há melhor maneira de descrevê-la do que essa.

Este artigo tem diversas razões de existir. Quem tem acompanhado as redes sociais nas últimas semanas com certeza está por dentro das polêmicas que, para variar, estão dividindo opiniões. Só para citar cinco delas:

1. A censura incentivada pelo MBL à exposição Queermuseu, em Porto Alegre (RS);
2. A proibição de uma peça teatral com uma travesti no papel de Jesus Cristo, em Jundiaí-SP;
3. O confisco de uma obra, que critica e denuncia a pedofilia, sob a acusação de fazer apologia à pedofilia, em Campo Grande (MS);
4. O escândalo provocado pela presença de uma criança na performance um homem nu, em São Paulo;
5. A volta da "cura gay", numa decisão pra lá de equivocada de um juiz do Distrito Federal que abriu brecha para que psicólogos façam terapias de "reorientação sexual" em seus pacientes.

Eu poderia citar a entrevista de Zezé Di Camargo, em que ele diz à Leda Nagle que não houve ditadura militar, e até comentar o discurso do general Mourão, que falou a favor de uma intervenção militar no Brasil como solução para todos os problemas.

Poderia, ainda, falar de todos os zero reais despendidos pelo governo de Michel Temer para combater a homofobia no Brasil, da decisão do STF de permitir ensino religioso nas escolas públicas, ou até dos homens que ejacularam em mulheres no transporte público - e logo depois foram soltos, sob o respaldo da lei.

Mas dissertar ainda mais a respeito de tudo isso seria apenas chover no molhado. Resolvi, então, fazer um link de todos esses acontecimentos com uma série norte-americana, que em 17 de setembro, abocanhou cinco prêmios importantíssimos no Emmy (de um total de oito conquistados, incluindo categorias técnicas), chocou o mundo e arrebatou a crítica. Estou falando de O Conto da Aia, série produzida pela Hulu - concorrente da Netflix -, baseada no romance homônimo da escritora canadense Margareth Atwood, a primeira produção de streaming a vencer a categoria Melhor Série de Drama na premiação.

Se você ainda não assistiu ao programa - e eu escrevi "ainda" porque, se eu fosse você, largaria esse texto aqui mesmo para ir assistir -, é provável que a relação entre ele e todos esses acontecimentos não esteja assim tão evidente. Mas aqui vai um pequeno resumo para contextualizar:

O Conto, ou o pesadelo da Aia

O Conto da Aia é uma série de horror, e não há melhor maneira de descrevê-la do que essa. Imagine você acordar um belo dia e descobrir que a sociedade como a conhecemos não existe mais. E não é como se Kim Jong-un finalmente tivesse cumprido a promessa de reduzir os Estados Unidos a cinzas - é pior.

No seriado, que adapta o livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global tiveram uma consequência muito diferente dos furacões, terremotos e tsunamis que já vimos em filmes-catástrofes de Hollywood. Na história, a população fica quase inteira infértil, de modo que somente algumas mulheres conseguem engravidar, dar prosseguimento à gestação e, ao fim do nono mês, dar à luz a um bebê totalmente saudável.

Com a maioria da população incapaz de gerar novas vidas e o futuro da raça humana ameaçado, um grupo de pessoas decidiu que seria por bem mudar algumas coisinhas que já não contribuíam em nada para levar nossa espécie adiante. Entre várias e profundas mudanças, esse grupo resolveu aniquilar o Congresso americano, dissolver a Constituição, acabar com o Judiciário e dar um fim ao cidadão que ocupava o Salão Oval da Casa Branca. Também rasgaram todos os direitos humanos e suspenderam os direitos civis, principalmente das mulheres e das pessoas LGBT.

Instaurou-se, assim, um tipo de teocracia cristã baseada no Antigo Testamento, que reorganiza a sociedade por castas, apaga qualquer vestígio do passado e dá início a um modelo de sociedade que só uma pessoa muito, mas muito pessimista poderia prever.

Nesta sociedade, "liberdade" é um conceito utópico. Afinal, que tipo de escolha poderiam ter as poucas mulheres férteis que restaram, se não cumprir com a obrigação natural de dar prosseguimento à sua espécie? Elas não precisam mais trabalhar, estudar, escrever, ler livros ou nem ao menos enxergar para cumprirem suas "funções biológicas".

Da mesma forma, que tipo de escolha poderiam ter homens gays e mulheres lésbicas, se não casar com pessoas do sexo oposto para constituírem uma família e se reproduzirem?

Ao passo em que mulheres férteis são escravizadas e doutrinadas a servirem casais de poderosos que não podem ter filhos, gays e lésbicas são perseguidos e mortos por serem considerados "traidores do gênero".

As "aias", como são chamadas as moças, são estupradas pelos homens a quem servem uma vez por mês, na presença das esposas, até que finalmente engravidem. Depois, quando dão à luz, elas permanecem na casa até o fim do período de amamentação. Quando o bebê desmama, então, elas são obrigadas a partir para outra casa e começar tudo de novo, deixando o filho de poucos meses para trás.

Não termina por aí. Quem se rebela contra o novo regime, totalitário e militarizado, pode ter três destinos: ou acaba morto, ou tem alguma parte do corpo decepada ou é enviado para as Colônias, onde "sabe-se lá Deus" o que acontece.

As aias, que perdem todo o poder de escolha num piscar de olhos, devem usar um vestido longo vermelho que cobre todas as partes do corpo e uma viseira tão grande que as impede de olhar para o lado e também de serem olhadas.

Conto, pesadelo ou realidade?

O mais chocante de tudo, porém, não são as atrocidades que começam a acontecer em The Handmaid's Tale ou a forma como os direitos mais básicos simplesmente desaparecem sem mais nem menos: é terminar de assistir à série e perceber que você não ficaria muito surpreso se tudo aquilo acontecesse de verdade.

E aí você pega o celular, vai ler as notícias e percebe alguns infelizes sinais de que a realidade está ficando parecida demais com a ficção. As caixas de comentários do Facebook, por exemplo, estão repletas de pessoas dizendo-se a favor de uma intervenção militar, afirmando categoricamente que só existiu ditadura para "vagabundos comunistas", parabenizando aquele juiz por ter dado a chance de homossexuais buscarem a "cura", rebelando-se contra "esquerdistas" que chamam pedofilia de arte, comemorando a censura a exposições artísticas e, por fim, invocando a Moral e os Bons Costumes™ para justificar tudo isso.

A última foi o microfone aberto a alguns deputados conservadores que discursaram que defensores das exposições e performances censuradas deveriam ser submetidos a "porradas" e torturas.

Então, de repente, a sensação que fica ao terminar de assistir O Conto da Aia nunca fez tanto sentido. E você percebe que o livro permanece, desde 1985 (quando foi publicado), como uma obra atual e como uma prova de que a história é cíclica. Não falar abertamente sobre o passado - e, principalmente, não aprender com ele - pode ser fatal.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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