OPINIÃO

A Parada LGBT é um evento mais político do que você pensa

Tem LGBT de tudo quanto é tipo e origem num único lugar fazendo a mesmíssima coisa: existindo.

18/06/2017 14:47 -03 | Atualizado 18/06/2017 14:47 -03
NurPhoto via Getty Images
"A Parada do Orgulho LGBT significa a ocupação em massa do espaço público por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais."

"Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei! Todas e todos por um Estado laico!".

Este é o tema da 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que acontece neste domingo (18) na Avenida Paulista.

Entre as atrações previstas para o evento estão Daniela Mercury, que no carnaval deste ano arrastou 500 mil foliões pelas ruas da capital, e Anitta -- uma das artistas brasileiras com maior projeção internacional da atualidade.

Mas quem vê as convidadas para o aniversário de 21 anos da Parada nem imagina que em 1997, data da primeira edição, a festa era bem mais "seleta". Segundo a Polícia Militar, 2 mil pessoas participaram do ato naquele ano. Dez anos depois, o evento foi parar no livro dos recordes: 2,5 milhões de pessoas, de acordo com balanço oficial da PM. Oficialmente a maior "parada gay" do mundo.

Em 2017, com expectativa de público nas alturas e 19 trios elétricos inscritos -- inclusive um patrocinado pela Uber --, a APOGLBT SP, que organiza o evento, quer mostrar às pessoas mais uma vez que política e religião são iguais a água e óleo: não se misturam. Ou pelo menos não deveriam.

O tema da Parada, que todo ano traz uma reivindicação em prol da comunidade LGBT, não reflete em boa parte das pessoas que participam do evento. Com menos gritos de guerra e mais som alto, muitos dizem que a Parada LGBT é carnaval fora de época, e não uma manifestação política.

É bem verdade que muitos dos participantes encaram a Parada mais como festa ou balada ao ar livre do que como um ato contra a LGBTfobia ou contra o fundamentalismo religioso que impede avanços nas políticas públicas, mas não é verdade que este simples fato tira todo o caráter político que está no cerne do evento.

A Parada do Orgulho LGBT significa a ocupação em massa do espaço público por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Tem LGBT de tudo quanto é tipo e origem num único lugar fazendo a mesmíssima coisa: existindo.

Quando um casal de dois homens se beija em público, isso é um ato político, de resistência. Da mesma forma, quando cinco homens que nem se conhecem começam a se beijar ao mesmo tempo no meio da Avenida Paulista, também é um ato político.

Isso porque ver duas pessoas do mesmo sexo juntas consegue ser mais chocante do que os dados alarmantes sobre LGBTfobia no Brasil: a cada 25 horas, uma pessoa LGBT é assassinada em território brasileiro em decorrência da discriminação, segundo números recentes levantados pelo Grupo Gay da Bahia.

Estes, porém, não são dados oficiais. Conforme consta em reportagem especial publicada aqui no Huffpost Brasil, no ano passado, a falta de informações unificadas sobre crimes desta natureza impede que nós tenhamos uma noção real da dimensão do problema.

Muito por causa disso, a LGBTfobia continua sendo um tema impalpável para a esmagadora maioria da população que não sofre discriminação por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Só quem de fato a sente no dia a dia sabe de que maneira ela impacta na vida das pessoas, e por que o preconceito, na prática, não faz sentido.

É por essas e outras que a Parada é um evento tão importante, ao contrário do que dizem seus críticos. É difícil demais sentir orgulho de nós mesmos em uma sociedade que nos ensina a nos odiar, e é tão difícil quanto sair às ruas para celebrar nossas identidades quando, na verdade, temos tão pouco a comemorar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade

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