OPINIÃO

A Alôca merece continuar. E o público LGBT também

A prefeitura interditou o Clube Alôca, na região central de São Paulo, alegando irregularidades.

12/07/2017 11:38 -03 | Atualizado 12/07/2017 11:38 -03
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Aberta há 22 anos, a balada era um símbolos LGBT de São Paulo.

Se você der uma volta pela Rua Augusta numa sexta ou sábado à noite e perguntar para os rapazes gays que estão por lá como foram seus primeiros meses pós-saída do armário, são grandes as chances de você ouvir histórias sobre festas que não existem mais ou casas noturnas que já não estão abertas.

Falo por experiência própria. Se você me perguntasse, eu certamente falaria sobre o Vegas Club. A boate hospedou por alguns anos a Converse Party, festa matinê voltada para o público LGBT adolescente. Foi meu primeiro contato com a badalada cultura gay paulistana.

Eu, que aos 17 anos nunca tinha frequentado uma balada gay na vida e muito menos sabia da existência de uma para menores de idade em pleno Baixo Augusta às cinco horas da tarde, de repente me vi dentro de um lugar com dezenas e dezenas de pessoas iguaizinhas a mim. Meninos de 16, 17 anos, gays, alguns meio tímidos e desengonçados, outros mais desinibidos dando uns amassos nas paredes de neon da boate.

Caí de paraquedas lá dentro e fiquei assustadíssimo, claro. Mas não demorou muito para que eu fizesse amigos e começasse a combinar de encontrar meu grupinho no metrô Consolação sábado sim, sábado não.

Foi lá que conheci meu primeiro namorado. Foi lá que fiz meus primeiros amigos gays da vida. Foi lá que experimentei uma estranha sensação de liberdade que eu nem sabia que existia. Foi muito bom e sinto saudades.

Mas o Vegas fechou em 2012, após apenas sete anos de funcionamento. O destino foi semelhante ao de várias casas noturnas gays de São Paulo, que foram sucesso de público por alguns anos e depois entraram em decadência ou cederam para a especulação imobiliária.

No último sábado, dia 8, foi a vez do clube Alôca fechar as portas. Mas não foi por festas vazias ou porque o terreno foi vendido para outro empreendimento. Desta vez, foi uma ação da Prefeitura que interditou e lacrou com blocos de concreto uma das mais tradicionais boates LGBT da capital paulista, que funcionou por 22 anos no mesmo lugar, quase na esquina da Rua Frei Caneca com a Peixoto Gomide, no centro de São Paulo.

Segundo o prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, a casa estava com alvará de funcionamento vencido e era recordista de reclamações dos vizinhos. Mas engana-se quem pensa que o fechamento da Alôca significa apenas uma opção de diversão a menos para o público LGBT paulistano. É o fim, ao menos temporário, de um dos cenários mais conhecidos do ativismo gay da cidade e que foi palco de inúmeras histórias como a minha.

A Alôca estava longe de ser uma das melhores casas noturnas de São Paulo, mas representava, ao lado da Tunnel e Blue Space (há 25 e 21 anos na ativa, respectivamente), a resistência dos mais tradicionais picos de diversão da noite gay paulistana.

Juntou-se à mesma lista onde estão boates como a Medieval, Nostro Mondo e Homo Sapiens, que embalaram a cidade nas décadas de 70 e 80 e também sucumbiram aos efeitos do tempo.

Hoje, o público LGBT paulistano parece não ser mais tão fiel a uma casa como era antigamente. Talvez por causa da febre das festas itinerantes, que alugam sempre um espaço diferente. Ou até mesmo por causa da crise econômica e da especulação imobiliária, muitas boates do Baixo Augusta e região estão com dificuldades para se manter de pé.

Felizmente, a decisão da Prefeitura não é definitiva. Desde que a situação esteja regularizada, a Alôca poderá reabrir as portas. Segundo comunicado publicado em sua página oficial do Facebook, é para isso que os organizadores estão trabalhando.

Gente estamos com nossa equipe trabalhando para reabrir em breve e com o ânimo das msg positivas que voces estao mandando...obrigado pelo carinho ...as adversidades serão superadas e faremos uma grande festa ,e chato ver aloca lacrada e também um ou outros fazendo piadinhas ....mas para nos o foco são vocês que nos prestigia e fazem parte da nossa história. ...o resto são micro organismos necessários para a cadeia alimentar ....boa noite galera

Mas o clube também precisa se reinventar para chamar novamente a atenção do público gay jovem. De todo modo, a Alôca merece continuar. E o público LGBT também merece a Alôca.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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