OPINIÃO

A próxima luta de Heudes

05/02/2016 16:22 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
USP Imagens

Quase uma hora atrasado, o cantor Fagner subiu o palco Theatro Municipal e iniciou a releitura de seu disco Manera Fru Fru, Manera para uma inquieta multidão que se instalava no centro de São Paulo, em uma noite de maio de 2013. Entre os fãs do artista cearense, um garoto de 15 anos ainda não havia tirado de sua cabeça uma cena que presenciara pouco antes. À caminho de uma das atrações da Virada Cultural, Heudes Cássio Oliveira avistou um lambe-lambe do protesto promovido pelo Movimento Passe Livre, que aconteceria no início do mês seguinte, no fatídico mês de junho. Sem entender muito bem ainda toda a discussão acerca dos ingratos 20 centavos, as palavras do informativo no muro encontraram sentido dentro da cabeça do menino: "Tem tanta coisa de graça na cidade e a única coisa que ferra a gente é justamente haver uma passagem no meio do caminho."

No dia 6 de junho daquele mesmo ano, Heudes rumou sozinho para a primeira manifestação contra o aumento das tarifas de metrôs, ônibus e trens na capital paulista. Quando chegou até a praça Ramos, encontrou um professor e um ex-professor seu, além de alguns rostos conhecidos. "O sentimento era de coletivo: não sabia o nome de todas as pessoas, mas olhava para cada um e enxergava uma conexão".

Naquele dia, ficou impressionado com a capacidade de "fazer alguma coisa, sem precisar se tornar deputado". Seu primeiro protesto de rua, no entanto, logo entrou para a longa lista de coisas que não são bem aceitas por sua mãe, Sirlene, que até hoje o chama pelo carinhoso apelido de "Dedê".

Dois anos após esse episódio, o jovem resolveu sair de casa. Atarefado pela preparação para a prova de vestibular, contudo, não enxergava nenhuma alternativa para se emancipar, já que não seria possível conciliar qualquer emprego com os estudos na escola pública e no cursinho popular. Até que um ex-professor de Filosofia o encontrou em uma rua do bairro de Pinheiros. Depois de explicar sua situação para o educador, ouviu uma resposta animadora: "Tenho uma cama sobrando, dá para você dividir um quarto, que não é muita coisa, mas já é algo". Em troca da constante manutenção e da limpeza de uma casa, o jovem e mais dois meninos - um do Amazonas e outro da Bahia - encontraram o refúgio que tanto buscavam.

Sua saída de casa, em setembro de 2015, é lembrada como o pior dia de sua vida. Sempre muito carinhoso com as pessoas ao seu redor, o menino encontrou dificuldade para deixar os dois irmãos pequenos, tratados pelo vestibulando "como se fossem filhos". Logo de manhã, Heudes tomou um ônibus com duas malas e se dirigiu até a nova residência, no Largo da Batata. Desde aquele instante, passou a sentir falta dos garotos e de Sirlene. Da mãe, trazia consigo o nome do meio, "Cássio", enquanto o pai, que veio da Bahia para São Paulo aos 24 anos, foi responsável pela escolha de seu primeiro nome.

A relação com os pais - separados - sempre foi conturbada. "Chegou a um ponto em que meus pais não aceitavam minhas atitudes. E todas as suas críticas não eram fundamentadas. Isso me deixava mal: saber que eles estavam bravos comigo por uma coisa que não fazia sentido". No dia em que questionou sua mãe por não ter deixado sua irmã - apenas um ano mais nova - sair à noite, assim como ele, a justificativa ouvida foi: "Você pode. Ela não, porque é menina. Ponto." Desde que Heudes entrou na adolescência, passou a cobrar mais do que uma simples resposta de seus pais, dando origem a inúmeros conflitos, tanto na casa de Sirlene quanto na de Mauro, além de fazer o menino refletir sobre sua relação com os dois: "Eles são meus pais, devo respeito a eles. Mas eles não vão dar uma resposta autoritária só por causa disso."

Trabalhando em um prédio próximo à Escola Estadual Fernão Dias Paes, Mauro ficou sabendo recentemente que o filho estava entre as dezenas de estudantes que ocuparam o colégio desde o início do último mês de novembro, contra o plano de reorganização escolar proposto pelo Estado. Para justificar a característica "rebelde" de Heudes, sua ex-mulher até hoje o culpa por não ter "segurado muito" o filho. Das lembranças passadas, Mauro prefere os passeios no parque Villa Lobos. "A gente andava muito de bicicleta. Sinto falta disso. Agora, ele cresceu. Mudou. Não vai ser como antes, né? A criança fica maior e dona de si", admitiu o porteiro. A maior lição que quis passar para o filho, segundo ele mesmo, foi o "respeito com as pessoas".

a luta de heudes

Heudes, o segundo da esquerda para a direita, dentro da ocupação da E. E. Fernão Dias Paes, em novembro

Heudes diz que vive "para lutar e quebrar as disparidades econômicas". Desde cedo, o menino experimentou o contraste social em sua cidade. "O cara está dentro de um carro, buzinando, indo para o trabalho, como se fosse a coisa mais importante do mundo. E eu não me sinto parte disso". Aos 14 anos, ele começou a trabalhar. Passou por uma empresa de logística, uma ONG e dois bancos, interrompendo o trabalho somente para voltar suas atenções ao vestibular. "Sempre ouvi: 'trabalha, que você vai ganhar bem'. Trabalhava 4 horas por dia, ganhava um pouco de dinheiro e tinha um trabalho que não me acrescentava em nada como pessoa". Quando trabalhou para um banco internacional, constatou a distância entre si e o restante dos trabalhadores. E percebeu que aquelas pessoas estavam trabalhando "apenas para acrescentar ao banco e à economia", o que não o deixava bem. "Enfim, mas cumpri meu contrato e saí numa boa".

O penteado do jovem, que passou o último Natal ocupando um colégio, é diferente daquele utilizado quando foi captado em uma famosa foto em que aparece pulando uma catraca em um protesto do MPL, há quase três anos. Ele já fez luzes, teve o cabelo raspado, fez moicano, ficou com o cabelo enrolado, optou por ele liso e fez "black power". Embora dê preferência por roupas "apenas confortáveis", Heudes gosta de testar mudanças capilares e confessa não saber ainda qual será o próximo visual. Uma das certezas para o novo ano é a necessidade de estudar ainda mais para entrar na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. "Faltou muito na minha formação educacional. Percebi que fazer colégio e cursinho em um mesmo ano é praticamente suicídio. Eu me esforcei ao máximo, mas foi um desgaste pelo qual não quero passar. Quero estudar, não para passar no vestibular, mas para me sentir bem. Quero estudar para adquirir conhecimento, ser capaz de trocar uma ideia, escrever um texto."

Heudes e seus colegas do Fernão Dias passaram 55 dias ocupando o colégio da zona oeste, que se tornou símbolo da resistência pela educação em São Paulo. A mais recente de suas lutas, no entanto, ainda está longe de terminar. Heudes quer continuar defendendo a causa secundarista, mesmo após ter concluído colégio. Também planeja estudar "para chegar no nível dos outros" e atuar no futuro como defensor público, "ou na área de assistência jurídica a pessoas de baixa renda".

Seu maior sonho, garante, é voltar a ter uma boa relação com os pais, uma coisa que nunca conseguiu. O menino ainda conversa com os dois, principalmente com Mauro, pela proximidade do trabalho do pai. No último carnaval, quando Heudes ligou para sua mãe e disse que iria fazer curso para entrar no vestibular, começar uma faculdade e dar uma condição melhor à ela, Sirlene se pôs a chorar. "Ela ficou bem feliz. Foi quando percebi que ela gosta realmente de mim", revela o menino, que "sempre foi estudioso", de acordo com as palavras do pai.

Heudes não gosta de rótulos, mas diz não ter problema em falar que está à esquerda no cenário político atual. Tem afinidade, por exemplo, com as ideias do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), "um cara que coloca em debate várias questões importantes."Mas garante que não daria um bom político no futuro: "Ficaria muito isolado, porque não sou de mentir. Se precisasse falar algo na cara de uma pessoa, falaria".

a luta de heudes

Heudes no portão da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em São Paulo

De seu filme preferido, Uma História de Amor e Fúria, gosta de repetir a frase que diz: "viver sem conhecer o passado é como andar no escuro". Heudes diz que "às vezes, a gente não conhece nosso passado e acredita que o Brasil foi criado a partir do momento em que os portugueses chegaram aqui, por exemplo. Você não entende que tinham diversos povos indígenas aqui, com diversas culturas".

Quando não está participando de suas inúmeras lutas, é possível encontrar o jovem de 18 anos na ciclovia da Faria Lima. "De preferência, de madrugada e na chuva", garante. Heudes gosta de descobrir lugares novos na cidade e ir para lugares bem arborizados, cultivando o antigo hábito compartilhado com seu pai no passado. Se um dia eles voltarão a pedalar juntos? "Por que não?", exclamou Mauro, que quer parar de trabalhar de segunda a segunda para dedicar mais tempo à família. Até lá, tenta entender como alguém "decide parar sua tarefa e suas obrigações" para se dedicar aos problemas de outras pessoas.

A luta de seu filho é, em primeiro lugar, uma luta dos outros. "Essa questão do individualismo na cidade tem crescido muito", admite. Mesmo com o plano de "reorganização escolar" cancelado pelo Governo do Estado de São Paulo e mais uma tarefa cumprida, Heudes garante que ainda há muito pela frente: já começaram os protestos contra o novo reajuste da tarifa, desta vez de 30 centavos.

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