OPINIÃO

Que a primeira bomba seja a última

04/08/2015 18:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Andrew Huff/Flickr
a collage from the late '90s -- I'm not sure quite when I did it. Found in one of my sketchbooks.

-Cê lembra da primeira bomba?

-Lembro, cara. Como se fosse ontem. Cheguei cedo no trampo aquele dia. Tinha pego a marginal e tava rolando aquela gritaria contra a diminuição da velocidade, lembra? Todo aquele barulho....

-Nossa, verdade. Teve isso. Naquela época já tava feio. Tudo era motivo de gritaria. Porra, como a gente não sacou antes? Era só olhar pra internet. Era "hater" pra tudo que é lado. Não tinha mais troca de ideia, só maluco se xingando....

-Mas não dava pra saber, bicho. Era só o começo. Fedeu de vez mesmo naquele ato lá que deu merda.

-O que queimaram os livros ou o que espancaram o dono da banca que vendia a Correio Capital?

-Não, não. O que mataram o menino com a camisa vermelha. O menino que tava indo à igreja e nem sabia que porra tava rolando.

-Ah, é. Antes mesmo, bicho, os "coxinhas" e os "petralhas" já tavam tudo amalucado. Mas verdade, acho que nem um mês depois disso ae teve a batalha na Paulista.

-Isso. Quando o Runha decretou os "linchamentos pela proteção e moral da família de bem".

-É, eu lembro até hoje. Liguei pro Thi e falei pra ele se mandar, cara. Mas ele insistia naquelas de "o amor triunfará".

-Puta merda, que saudade do Thi.

-Eu liguei na hora que vi a notícia. Implorei pra ele ir embora. Mas ele acreditava nas pessoas. Acreditou até o último minuto.

-Na moral, acho que nem daria tempo pra ele fugir. A coisa já tava rolando. Lembra da Zá? Ela foi assassinada antes do lance dos linchamentos. Uma amiga da tia viu um post dela contra o racismo e caguetou pros "Justiceiros Seguidores da Jornalista Duniazade".

-A Bel também, cara! Ela tinha postado algo contra o machismo. E no mesmo dia, aquele grupo, o "+M+M", "Mais Machos, Mais Misóginos", colou na casa dela e sentaram o cacete.

-A merda foi essa. Era muito fácil mapear quem pensava. A porra do Facebook, as redes sociais. Tava tudo lá. Não precisavam nem investigar nada. Tava tudo disponível. Demos foi é sorte, mano.

-É quente.

-Porra, nem sei como conseguimos escapar daqueles doidões lá que começaram a atacar os professores.

-Quem, a "Legião dos Homens de Bem Contra os Haitianos Bolivarianistas"?

-Não, aquele outro grupo, o que gritava contra o Paulo Freire e essa coisa toda.

-Ah, o "Homens Brancos pelo Direito de Oprimir"?

-Não, mano. Aqueles que tavam fechados com o Malanara, o Bolsafaia, essa turma.

-Ahhh,o "Mais Prisão é Solução. Nunca mais Educação!"?

-Isso. Aquele dia foi treta demais. Nunca senti tanto medo. Já tinham invadido a faculdade antes. Mas nada como aquele dia.

-Eu tinha cantado a bola pra você parar de citar os grandes pensadores nas aulas.

-Ah é, ir nas aulas sem citar pensador é fácil, né?

-Eu sei, mas cê podia ter ficado mais piano. Se até os professores já tavam ligados, só nuns conservadores e tal. Porra, os caras já tinham dado a letra que não podia reflexão em aula, carai. Cê tinha que inventar de falar de Jesus Cristo, puta merda!?

-É, "amor ao próximo, dividir o pão...", ali, realmente, eu fui longe demais mermo. Que loucura. Até hoje não consigo entender bem como chegamos nisso. Eu penso, penso e não entendo tanto ódio.

-A onda veio e não teve jeito. Porra, eu sinto saudade do Brasil.

-Cê é loco. Não dá nem pra pensar em voltar. Pelo menos, não por enquanto.

-Eu sei. Mas boto fé que um dia...

-O amor?

-É, um dia o amor vence... Não?

* * *

Calma, amorinha. Não fica triste, não. Isso é apenas uma ficção. Ninguém precisa deixar o País, ninguém precisa morrer. Mas para isso, para o amor vencer, é necessário ficarmos atentos ao Tsunami da Intolerância (papai já falou sobre isso aqui).

Precisamos manter a serenidade e ao mesmo tempo não admitirmos de forma alguma a violência e o ódio cego que têm rolado por aí. Jogaram uma bomba no Instituto Lula. E não importa o instituto de qual ex presidente que foi atacado. O ataque é inaceitável. Sei que falo o óbvio, mas o ódio ofusca inclusive o óbvio, por isso insisto: ninguém precisa gostar do Lula ou de qualquer outro político. Todo debate é fundamental e saudável.

As posições políticas de todos devem ser respeitadas.

Como bem disse o jornalista Rodrigo Vianna, "o ódio das bombas é precedido pelo ódio das palavras". Por isso, pequenina, antes de sairmos xingando o coleguinha que discorda da gente, temos que respirar com calma e propor a reflexão e o debate de maneira adulta. O mundo das ofensas, minha cerejinha, não é um lugar bacana para viver.

O Veríssimo escreveu, umas semanas atrás, um texto chamado "Epa" em que falava sobre o monólito colocado na Lua no filme "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Quando os humanos o descobrissem, seria o momento em que os extraterrestres saberiam que somos um perigo em potencial, afinal teríamos tecnologia suficiente pra chegar até lá. No filme, o tal monólito servia de sinal de alerta. E, no texto, ele questionava qual seria o nosso monólito. Em qual momento deveríamos dizer "Epa, pessoal, calma lá"? Pois bem, quando pessoas são amarradas a postes e linchadas, quando a liberdade religiosa é apedrejada e quando estouram bombas, o sinal já passou do amarelo para o vermelho faz tempo. Se não mudarmos agora, esse caminho poderá não ter mais volta. E a história mostra que isso não será bonito pra ninguém.

Que a primeira bomba seja a última.

Com amor (que triunfará) sempre,

Papai.

31.07

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