OPINIÃO

De onde vêm os cogumelos

02/11/2015 12:23 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Holger Leue via Getty Images
Denmark, Scandinavia, Europe

Pequena anarquistinha,

Preciso te contar um segredo. Não é algo que eu me orgulhe, mas você precisa saber. Melhor ouvir da minha boca do que saber por terceiros. Serei direto: sua existência nesse planeta se deve graças ao Celso Russomano, e o que há de mais conservador nessa cidade, minha pessoinha.

É isso mesmo que você ouviu, meu amor. Não fosse o Russomano e uma pá de gente que estava afim de votar nele (3 anos atrás), você não estaria aqui hoje. É difícil digerir isso, eu sei. Mas calma, te explico.

Há exatos três anos, nós, os moradores da cidade de São Paulo, decidíamos quem seria o próximo prefeito. E por algum motivo, que não irei me debruçar aqui, o Celso Russomano apareceu bombando nas pesquisas ao lado do Serra. Em terceiro lugar, correndo por fora, o Haddad. Nenhum dos três era meu candidato, mas diante da ameaça de um segundo turno tenebroso, papai optou pelo Haddad.

Muita gente fez o mesmo e o resultado você já sabe. Quer dizer, se não sabe é só dar um google e descobrir que quando você nasceu o prefeito era o Haddad, tá? Aí cê vai ler sobre o plano de implementação do socialismo através de ciclofaixas bolivarianas. Brincadeira, não lerá nada disso, mas uma turma achava tratar de uma coisa só, bicicleta e marxismo. Enfim, como já te disse, inteligência não reinava por essas terras e o Russomano era um forte candidato.

Um dia antes das eleições, papai foi a um bar assistir o jogo do São Paulo e Palmeiras. Vale lembrar que eram outros tempos e meu São Paulo ganhou de três a zero somando aos fatores que conspiravam sua vinda.

Bom, papai tava lá todo felizão, tomando despretensiosamente com os amigos quando viu, no bar vizinho, o tio Rondon, na época, parça de trampo. Papai, sem muita cerimônia e já feliz da vida com o resultado do jogo e as cervejas na cabeça, se juntou àquela turma. Lá estavam sentados os titios Rod, Mat, e, olha só, a mamãe! Que me foi apresentada assim, "Victor, essa é você de saia. Ci, esse é você de calça". Titio Rondon queria dizer que éramos iguais - o papai e a mamãe. E isso não quer dizer que a mamãe não use calças ou o papai saias. Como você bem sabe, aqui em casa não tem muito essa de roupa de menino ou meninas, né?

Papai deslumbrado por aquela moça se esforçou no papo que fluiu legal, mas sempre em torno da ameaça russomanica. Todos ali sentados - jornalistas munidos de celulares com internet -acompanhavam as pesquisas pré-eleição. O papai não tinha um espertofone desses. Ainda não era obrigatório pra ser socialmente aceito.

Enquanto papai se encantava, outro milagre começou a acontecer: todas as apurações indicavam uma virada histórica e apertada. O Haddad iria ao segundo turno e não mais o "amigão do consumidor". Como a virada pegou todos de surpresa, os jornalistas foram correndo para suas respectivas redações. Já papai e mamãe ficaram mais um pouco muito felizes com a esperança que nascia.

Comemorando o que antes parecia impossível, papai se empolgou demais, bebeu demais, amou e deu vexame demais. Fiz todo um showzinho empolgadíssimo com aquilo. Mamãe aparentemente gostou e entrou na onda. Ou, na real, mamãe protagonizou aquilo tudo e eu apenas acompanhei. Não dá pra saber. Só sei que foi aí que nasceu o amor. Que mais tarde geraria você.

Pra você ver que de coisas horríveis, como uma possível onda reaça, pode nascer algo lindo como você e nossa família. Não fosse isso, talvez os mistérios do amor não tivessem agido.

Claro, nessa complexa soma de fatores pra você estar aqui contam principalmente a sensibilidade, beleza , força, inteligência, olhar, sorriso, e tudo mais que a mamãe, minha cara metade, é.

Mas o ponto desse texto é: de coisas muito feias, outras muito lindas podem surgir. Por exemplo, da merda da vaca, nascem cogumelos mágicos que talvez, mais tarde, você ouça a respeito. Aliás, da merda adubamos a terra e de lá nasce tudo que é essencial pra vida.

Agora, três anos depois, somos uma família linda. O Haddad é um prefeito que apesar de errar, tem acertado mais do que todos os outros anteriores que papai se recorda (o que também não é lá grande coisa, considerando que o papai viu Maluf, Pita, e afins).

E uma nova eleição vem aí. Uma vez mais, Haddad corre por fora com aprovação bem baixa. E além do Russomano (sim, ele pretende voltar), temos um quadro ainda pior do que ano passado.

Vários nomes apavorantes têm pintado como possíveis candidatos.

Mas como já disse, calma, amorinha.

Se o belo surgir proporcionalmente ao tamanho da encrenca prevista, podemos contar com o mais lindo e amoroso ano de todos.

Seguimos, minha pequena.

Sempre com amor,

Papai.

16.10.15

Trilha para leitura:

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