OPINIÃO

Ainda não é hora de pensar em lucro na Arena da Amazônia; primeiro precisa vir o legado

21/03/2014 11:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Qual o legado da Arena da Amazônia? Esta pergunta elevou os ânimos ao longo da última semana, mas a verdade é que ninguém sabe a resposta. Nem eu, nem você leitor, nem o governador do Amazonas, nem o ministro do Esporte, nem o contribuinte que pagou caro por esta e outras obras - inclusive as que nem chegaram a sair do papel e mesmo assim foram pagas pela população, de alguma forma -, muito menos a imprensa, seja ela nortista, sulista ou de qualquer outro lugar do mundo.

Enquanto críticas vazias ganham as redes sociais e mesas de bares, a realidade exige nossa atenção. E ela começa a trazer sinais de que o futuro, pelo menos o do esporte no Amazonas, pode ser melhor do que o presente e o recente passado, mas comprova que precisa de esforço e dos grandes. O fato de que quase metade dos 20 mil ingressos para o segundo jogo-teste na Arena - a partida de ida da final do primeiro turno do Campeonato Amazonense 2014, disputado entre Fast Clube e Princesa do Solimões, que resultou num empate sem gols -, foram vendidos apenas no primeiro dia de comercialização animaram os ávidos por esta sobrevida do futebol local e criou uma expectativa quanto à partida, disputada neste último sábado (15).

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Foram mais de 8 mil bilhetes vendidos em cinco pontos espalhados por Manaus, cidade do Fast, em questão de horas da última quarta-feira (12), quando as bilheterias foram abertas ao público. Em Manacapuru, município da região metropolitana e cidade do Princesa, as vendas foram ainda mais animadoras: mil ingressos acabaram em 35 minutos, surpreendendo até os mais otimistas e fazendo com que um dos dirigentes do clube solicitasse uma nova remessa. No segundo dia de vendas, a procura não foi tão intensa mas existiu e noticiou-se que apenas alguns poucos bilhetes ainda estavam disponíveis já na sexta-feira.

Mas o que se viu no dia da final da Taça Amazonas foi um cenário oposto às expectativas. O anel inferior da Arena, com capacidade para 20 mil pessoas (a carga total de bilhetes que foram oferecidos), não estava sequer preenchida, muito diferente do que se viu no jogo inaugural do estádio multiuso, no último dia 9. Segundo a Agência de Estado de Comunicação, o público presente foi de 11.440, mas a vista de assentos vazios foi desanimadora. Será que os números divulgados antes da partida foram mera empolgação/especulação dos dirigentes? Ou a culpa é dos torcedores, que não se interessaram pelo jogo e continuam sem acreditar nos times locais? Poderíamos até dizer que a falha foi do próprio Governo do Amazonas, que pecou na divulgação do evento. Mas o foco do descontentamento foi outro.

Muitas pessoas reclamaram, principalmente nas redes sociais, o canal preferido destes usuários, do preço dos ingressos (que variaram entre R$ 30, como os de meia-entrada, e R$ 100), distribuídos nas arquibancadas, área vip e camarotes. Precisamos ser realistas: cobrar para uma partida do Amazonense o mesmo valor que a Fifa cobra para um jogo da Copa do Mundo, como o clássico Inglaterra x Itália que abre o Mundial na Arena da Amazônia e tinha os ingressos mais baratos a R$ 60, é um tiro no pé. E o povo sabe disso e se revolta, mesmo que internamente. Aposto que se a entrada fosse R$ 20 (com direito da meia-entrada a R$ 10, claro) - como era no antigo Vivaldão e nos jogos mais recentes, no Sesi -, o local estaria lotado, pois o valor se equivaleria mais ao nível técnico exibido (que ainda não é dos melhores e precisa, urgentemente, evoluir) e faria a procura ser maior. Como num efeito dominó, mais pessoas se interessariam em participar do evento, mais discussões se voltariam ao tema e, na próxima partida, a procura poderia ser maior. O que não dá é para pensar em lucrar alto em cima disso. Não agora, pelo menos.

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Mas mesmo assim, os sinais são animadores. Apesar de ter preenchido apenas pouco mais de 60% do espaço disponível, os 11 mil torcedores fizeram história na última década do Campeonato Amazonense e se configuraram como um recorde de público e bilheteria. Para se ter noção, no ano passado, como mandante, o Princesa, atual campeão do Amazonense, teve média de 1.680 pagantes em toda a competição, levando o título de torcida mais frequente. A final, entre os vencedores do primeiro e segundo turno, foi a mais disputada, com cerca de 5 mil torcedores presentes no Estádio Gilberto Mestrinho, em Manacapuru. Frente a diversos outros campeonatos estaduais pelo país o número é risório, mas o ano de 2013 foi muito bom para o futebol local e registrou um crescimento de 89,5% em público pagante se comparado a 2012. A final do último sábado representa, então, o melhor resultado se analisado os últimos três anos (como bem lembrou a colega jornalista Lorenna Serrão).

Tudo bem que grande parte dos torcedores que se fazem presentes nestes primeiros eventos-testes está mais na expectativa de conhecer o novo estádio do que de assistir ao jogo em si, mas pode ser assim que começa uma nova era futebolística no estado, com as pessoas indo, conhecendo, criando gosto pela atividade e retornando, até se tornar um frequentador fiel e abraçar seu time de vez. Por isso a importância de estimular essa ida, com condições possíveis e reais. As marcas deste legado podem estar longe de se tornarem visíveis, mas o interesse aumenta cada vez mais e podemos levar em conta que já está sendo discutido, mesmo que extra-oficialmente, a realização do jogo de volta desta final - que deveria ser disputada em Manacapuru, já que o Princesa tem mando de campo - também na Arena local, apesar do clube se mostrar contrário à decisão.

Outro assunto que aos poucos ganha repercussão é a possibilidade de uma partida da Copa do Brasil ser realizada também em Manaus, entre Vasco da Gama e Resende. Para a alegria dos "amariocas" (termo usado na capital pelos torcedores que criticam as pessoas que apoiam única e exclusivamente os times do Rio de Janeiro, numa fusão entre "amazonense" e "carioca"), principalmente, a disputa serviria como mais um evento-teste no estádio. Como muitos assuntos relacionados ao esporte baré, este também gerou polêmicas, principalmente entre os que criticam a Federação Amazonense de Futebol (FAF) por não apostar os times locais: eles dizem que é preciso trazer times de fora E da segunda divisão para despertar os torcedores amazonenses, quando se poderia fazer mais jogos entre os clubes do estado e incentivar esta cena. Mas a FAF não tem culpa se a cultura que se criou no Amazonas foi em volta dos principais times cariocas e paulistas e já está enraizada há décadas. Para a entidade, resta tentar agradar a gregos e troianos, na tentativa de apagar a imagem de elefante branco da Arena, e balancear eventos locais com os de fora. O irônico é que, um dia antes da data prevista para este jogo (dia 3 de abril) há uma partida já pelo segundo turno do Amazonense, que precisará ser disputado no Sesi. Cada vez mais, o que é prioridade precisa ser analisado com mais atenção ao torcedor.

Vale lembrar que da última vez que o Vasco jogou em Manaus, contra o Nacional F.C. pela Copa do Brasil no fim do ano passado, até a polícia militar teve que ser convocada para controlar uma situação que fugiu do controle, após o estádio do Sesi, até então o único com capacidade para grandes jogos (suporta cerca de 5 mil pessoas e foi o principal campo durante os últimos quatro anos em Manaus, enquanto a Arena da Amazônia era construída), registrar superlotação, entre falhas na venda dos ingressos e bilhetes falsificados que circularam. Falta apenas a CBF oficialiar e a federação carioca confirmar esta nova disputa.

Mas é complicado prever uma reação contínua da população amazonense. Por ser tão atrelada à modismos e sensações repentinas, porém bem temporárias, não podemos confiar o futuro do esporte local apenas nisto - apesar de ser um sinal. Mas o futuro e o tão esperado legado, como muitas outras questões, só o tempo poderá responder. E quem viver, verá. ("E bote vida nisso!", disse um amigo)

No último parágrafo do meu post anterior, escrevi que "Precisamos de apoio e projetos que funcionem além do papel. Acho que esse deveria ser o foco da conversa", na tentativa de levantar uma discussão em torno do tema, e não em torno das declarações proferidas pelo governador Omar Aziz. Não porque são menos importantes, mas porque elas não levarão a nada. Mas foi em vão, pois esse não foi, nem de longe, o foco da conversa que se seguiu. Num momento oportuno de sair do âmbito de faíscas, os olhos se voltaram apenas para a discussão autoridade x jornalista, a parte sensacionalista da história.

Volto a repetir: fechar os olhos para a obra já realizada e ficar apenas reclamando dos malefícios do evento que, querendo ou não vai ser realizado, não é o que vai iluminar a mente das autoridades competentes (ou, como diria em uma canção da banda amazonense Os Tucumanos, "não tão competentes assim") a bolarem de primeira o plano perfeito. É dialogando possibilidades. Mas criticar a opinião alheia, armado apenas com a sua própria opinião, não vai mudar em nada. Talvez só irá levar as discussões para lugares mais vazios ainda, enquanto a realidade toca.