OPINIÃO

A tensão que toma conta de Manaus e os podres do sistema carcerário brasileiro

13/01/2017 18:14 -02 | Atualizado 13/01/2017 18:14 -02
Ueslei Marcelino / Reuters
A relative of a prisoner reacts in front of the main entrance of Anisio Jobim prison in Manaus, Brazil, January 3, 2017. REUTERS/Ueslei Marcelino

Em meio aos boatos compartilhados no WhatsApp, matérias curtas e exageradas em blogs auto-denominados portais de notícia e todo esse pânico transportado das redes sociais para as ruas reais de Manaus, eu tento mesmo morando longe acompanhar tudo que está desenrolando na cidade onde nasci e cresci, mas me deparo com o desafio de discernir o que é fato do que não é.

Apesar de conviver com esse fluxo de informação digital desde meus tempos de estagiário, ainda não consigo entender a graça em intencionalmente propagar uma notícia falsa, por pura diversão, mas é inegavelmente o contexto jornalístico dos dias atuais.

O fato é que o clima em Manaus continua tenso. Mas entre todas as reportagens, suposições, teorias de conspiração e fofocas que se multiplicam com ainda mais velocidade desde a explosão da crise no sistema penitenciário no Amazonas, precisamos ter em mente que entre uma mensagem mal escrita recebida no celular por um desconhecido e aquela publicada por uma boa equipe, preparada e sagaz, principalmente como a dos tradicionais veículos locais, nacionais e internacionais - o caso da maioria dos jornalistas que desde o começo do ano se aglomeram quase diariamente em frente aos portões dos presídios manauaras -, é melhor confiar nesta segunda opção que, mesmo apesar dos céticos e dos simpatizantes da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt (onde tudo que vem da grande mídia serve para manipular e passivizar o leitor/telespectador/internauta/ouvinte), é a que terão um conteúdo de mais qualidade ou pelo menos com um nível mais alto de confiabilidade, que é o que se espera de profissionais.

O podre mais recente dá conta que o número de foragidos é bem maior do que o que foi divulgado anteriormente

E foram por essas fontes que eu pude distinguir o que era desespero e o que era real e percebi a dimensão da situação em Manaus. Desde veículos locais como o G1 Amazonas e A Crítica, até a BBC Brasil e GloboNews, fomos através destes canais sendo atingidos pelos respingos da bolha que estourou e que se transformou numa verdadeira bomba-relógio. A cada dia, mais podres vão surgindo e pior fica a cena.

O mais recente dá conta que o número de foragidos é bem maior do que o que foi divulgado anteriormente, algo que já se comentava em todos os grupos sociais de Manaus mas que só agora foi confirmado pelas autoridades (mais sobre isso abaixo). Infelizmente, a pedra que eu havia cantado no post anterior sobre o perigo da Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, no Centro, se comprovou, com um resultado pior do que aquele imaginado: após quatro mortes, sendo três decapitações, 20 presos ameaçados foram transferidos para o presídio do município de Itacoatiara (também administrado pela Umanizzare, empresa de gestão de presídios no olho desse furacão), a cerca de 300 km da capital, apenas para serem mandados de volta pois também foram ameaçados lá. De volta para onde? A Vidal Pessoa.

Ameaças de bombas para matar promotores e o próprio Secretário de Segurança Pública do Amazonas, o que talvez dê sentido aos diversos casos que se espalharam por Manaus durante semanas de suspeita de artefatos explosivos dentro de malas abandonadas em pontos de ônibus - supostamente, os membros locais da FDN não estavam tento êxito com os explosivos, e um especialista estrangeiro da tríplice fronteira Amazonas-Peru-Colômbia havia sido convocado.

Veio à tona pelo A Crítica, ainda, cartas escritas no fim de 2016 por dois detentos, que denunciaram a corrupção instalada pela Família do Norte (FDN) dentro do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, o Compaj, palco do massacre onde 56 presos perderam a vida, inclusive os dois denunciantes, a mando da facção. Um deles, o Alcinei Gomes da Silveira, condenado por matar a própria mãe e irmão, além de ter tentado matar o pai, foi inclusive uma pauta minha em 2011, quando o entrevistei na cela da delegacia e acompanhei o velório dos familiares mortos.

A realidade corrobora para o medo que atingiu a sociedade manauara e, junto com as redes sociais e seus exageros, propaga caos

As cartas que denunciavam a entrada de armas, drogas e celulares no local, além da permissão de fugas e execuções, foram anexada ao processo do detento Genildo Nunes da Silva no dia 14 de dezembro de 2016, pouco antes da Vara entrar em recesso. A ação está sob a responsabilidade do juiz Luis Carlos Valois, à frente da Vara de Execuções Penais e outro alvo dos holofotes na última semana. Como resultado, o diretor do Compaj foi afastado e o secretário estadual de Administração Penitenciária, exonerado.

E o mundo conheceu a FDN, terceira maior facção do Brasil mas já velha conhecida dos jornalistas amazonenses, que quase toda semana registram a prisão de mais um membro, mesmo após a operação La Muralla, de 2015 da Polícia Federal, tentar desestabilizar a facção de todas as formas, aparentemente sem muito sucesso. Todos conheceram também o Zé Roberto da Compensa (e seu time de futebol amador Compensão), agora comparado a Marcola e Fernandinho Beira-Mar, junto com toda a tática, pelo menos na teoria, de como o grupo age na tríplice fronteira. Não consigo não me indagar se o Gelson Carnaúba, o ManoG, e o João Pinto Carioca, o João Branco, os outros dois cabeças da FDN, estão chateados com a falta de publicidade em cima deles...

Mesmo com a polícia trabalhando duro para encontrar detentos que aproveitaram o caos em 1° de janeiro para fugir dos presídios, ainda nos deparamos com cenas assustadoras, como a de um assalto com refém num posto de gasolina, onde o suspeito só se entregou após conversar com a sua mãe, e outra registrada em vídeo de um homem tentando entrar num carro qualquer durante um engarrafamento numa das principais avenidas da capital.

O Governo ainda divulgou nota afirmando, inclusive, que não havia listado outros 41 foragidos na primeira relação oficial, sem explicar o motivo da discrepância: no momento, são 77 detentos recapturados de um total de 148 fujões. Menos o Brayan Bremer, aquele que postou selfies durante a fuga pela mata, cuja saga virou jogo de celular mas paradeiro ainda é desconhecido. Ou seja, a realidade corrobora para o medo que atingiu a sociedade manauara e, junto com as redes sociais e seus exageros, propaga caos. Mesmo sabendo que era boato a notícia de que havia homens andando armados com fuzil em plena Avenida Sete de Setembro (boato mas que fez com que a maioria das lojas fechassem as portas com clientes dentro), minha tia-avó já não caminha pelas ruas do Centro Histórico, como gosta de fazer há décadas, com receio do que pode acontecer.

Uma frase que li, já não sei exatamente onde pela primeira vez, me marcou por sua lógica: se após o Carandiru tivessem feito as coisas da maneira correta, implementado políticas públicas de qualidade, não teríamos tido o massacre no Compaj. Agora é tarde para chorar por leite derramado, mas é preciso pensar a longo-prazo. A Força Nacional já está em Manaus e as varreduras com equipamentos do Exército Brasileiro tiveram início. Duvidam que vão encontrar ainda mais podres?

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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