OPINIÃO

7 coisas que talvez você acredite sobre o vinho que são falsas

Mitos são prejudiciais especialmente aos produtores de vinhos de qualidade.

14/02/2018 16:53 -02 | Atualizado 14/02/2018 17:02 -02
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A cultura popular vê como certas algumas afirmações que, apesar de terem alguma base de verdade, não são totalmente corretas.

Essas afirmações são prejudiciais especialmente aos produtores de vinhos de qualidade.

A estas alturas, sofrido leitor deste blog, você certamente já sabe qual é a característica comum aos vinhos de qualidade (https://vidaentrevinos.com/la-cualidad-mas-importante-del-vino). Curiosamente, essa particularidade desses vinhos desmente muitas dessas ideias falsas.

Então que tal dedicarmos alguns minutos para lançar luz sobre esses mitos?

1. É PRECISO TOMAR OS VINHOS BRANCOS DO MESMO ANO

Na Espanha não se produziam vinhos brancos de muita qualidade. Geralmente eram vinhos em que a uva era boa, mas a acidez era baixa.

Essa falta de acidez era acompanhada pela baixa tanicidade dos vinhos brancos, nos quais geralmente não são maceradas as cascas. Por essa razão, eram vinhos que, passados no máximo dois anos desde a colheita, teriam evoluído mal. Muito frequentemente os aromas de fruta fresca se convertiam em cheiros de frutas secas (amêndoa amarga), pelo fato de esses vinhos serem pouco apropriados para o envelhecimento.

Mas o que aconteceu quando começaram a ser produzidos na Espanha vinhos com maior acidez e melhor qualidade?

Penso em alguns vinhos brancos galegos, de Navarra ou Valencia, para dar alguns exemplos.

Já tomei vinhos de Albariño com mais de cinco anos que estavam absolutamente perfeitos. E mais, basta guardar esses vinhos na adega por dois ou três anos para sua acidez cair um pouco e ficarem mais do meu gosto.

Mas não é apenas isso: as técnicas de cultivo e fermentação das uvas melhoraram. Hoje temos vinhos brancos envelhecidos em barris que estão magníficos até dez anos depois da colheita.

Pense, por exemplo, nos magníficos reservas de Rioja que estão voltando ao mercado.

Tudo isso faz com que a frase seja uma generalização infeliz.

2. OS VINHOS BRANCOS DEVEM SER TOMADOS MUITO FRIOS

Recomendava-se que os vinhos brancos fossem tomados muito frios, já que isso melhoraria sua qualidade.

O que acontece quando você resfria muito um vinho?

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Os componentes aromáticos não se evaporam. Para falar francamente, os vinhos não têm quase cheiro. Se o aroma do vinho não é sua melhor característica, é bom que ele esteja frio. Assim você não sentirá cheiros pouco agradáveis ou muito simples.

Mas o que acontece quando estamos diante de um vinho branco de qualidade?

O melhor é que o deixemos fresco, a 10 ou 12 graus, para podermos desfrutá-lo plenamente.

Seria uma pena não apreciar perfeitamente o aroma de um bom albariño galego, você não acha?

3. É MELHOR UM VINHO RESERVA QUE UM ENVELHECIDO

Para que seja válida, a classificação requer a boa vontade dos produtores. Vou explicar.

Para que um vinho "aguente" o tempo necessário de envelhecimento em barril, é preciso que cumpra certas condições.

Basicamente, a uva precisa ter muito boa qualidade, proporcionando acidez e tanicidade suficientes. Do contrário os aromas procedentes do barril vão "devorar" a personalidade do vinho, resultando numa magnífica "sopa de carvalho".

Se tivermos uma uva de ótima qualidade e se o vinho for deixado no barril pelo tempo necessário para ser um reserva, teremos um grande vinho. Com certeza será melhor que o vinho que conseguiremos com uma uva de qualidade inferior, que apenas aguenta no barril o tempo estipulado para ser envelhecido.

Entretanto, do jeito como estão as normas atuais, posso ter a pior uva do mundo – se eu produzir vinho com ela e submetê-la ao tempo necessário de envelhecimento, poderei vender o vinho como sendo reserva. Mesmo assim, será um dos piores vinhos do mundo.

De maneira alguma será melhor que um envelhecido, nem sequer que um vinho jovem.

4. OS VINHOS TINTOS DEVEM SER TOMADOS À TEMPERATURA AMBIENTE

Esse é um costume herdado dos franceses. Eles frequentemente possuem adegas pessoais, normalmente em porões sem calefação, onde ficam a temperaturas muito baixas.

Para tomar o vinho, os franceses o deixam na sala para que vá subindo de temperatura aos poucos até alcançar cerca de 18 graus, uma temperatura magnífica para um vinho tinto.

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Mas o que acontece em Cádiz, para falar de minha própria terra, num verão a 40 graus? Tomamos o vinho à temperatura ambiente?

É claro que não. Um bom hábito é colocar a garrafa na parte menos fria da geladeira por meia hora de antes de consumi-lo, para que o vinho fique numa temperatura agradável.

Não é excesso de cuidado prestar muita atenção a essa história da temperatura de serviço dos vinhos, acredite em mim.

5. VINHO TINTO COM CARNE, VINHO BRANCO COM PEIXES

Como regra geral, não está mal. Mas será que um linguado na chapa é igual a um cozido de atum?

Convenhamos que não, assim como um filé de frango não é nada como uma carne de cervo refogada. Cada prato combina melhor com um vinho diferente.

Nesse ponto, minha recomendação é ser imaginativo e provar. Pessoalmente, o que gosto mais é combinar vinhos e comidas da mesma região. Por exemplo, cozido madrilenho com Garnacha de Gredos.

De qualquer maneira, seja criativo e desfrute de tudo, sem limitações.

Por acaso você já provou comida japonesa com um vinho oloroso de Jerez? Vale a pena.

6. OS CAVAS SÃO PARA A SOBREMESA

Mais uma vez, esta máxima vem da época em que os cavas na Espanha não eram muito bons e eram tomados sobretudo semi-secos.

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Hoje em dia você vai me dizer que é preciso um cava extra brut (ou seja, super seco), especialmente um velho como o da foto, com um marzipan. Garanto a você que ele vai muito melhor com umas fatias de presunto. Se você for ibérico, vai ficar emocionado.

7. É PRECISO TIRAR A ROLHA DO VINHO MEIA HORA ANTES

É verdade que existem vinhos que precisam ser expostos ao ar para que se apreciem seus aromas. Especialmente os que estão na garrafa há muito tempo se beneficiam muito da oxigenação, para perder os maus odores.

Mas você já parou para pensar qual é a proporção do vinho que está em contato com o ar quando apenas se tira a rolha da garrafa? Muito pouco, não?

É preciso tirar pelo menos um cálice para aumentar a superfície que será arejada.

É claro que será muito melhor se usarmos um decantador, no caso dos vinhos para os quais isso é necessário.

Ficamos por aqui. Você conhece algum outro mito muito difundido ligado ao vinho?

A estas alturas, sofrido leitor deste blog, você certamente já sabe qual é a característica que os vinhos de qualidade têm em comum. Curiosamente, essa particularidade desses vinhos desmente muitas dessas ideias falsas.

Nos vemos na semana que vem.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do inglês.