OPINIÃO

O não pertencimento é azul, azul-corvo

17/10/2014 14:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
Divulgação

Quando Vanja começa a história e a jornada daquela que viria ser a sua vida, ela tem ainda treze anos e acaba de chegar ao Colorado. Separada da umidade, do verão e das baratas de Copacabana, ela decide deixar de ser a coitadinha da escola porque perdeu a mãe tão jovem e vai para os Estados Unidos em busca do seu pai. Levando apenas uma mala, Vanja não sabe da mesma forma que Fernando, ex-marido de sua mãe e seu pai só na certidão de nascimento, que os corpos são adaptáveis ou, pelo menos, deveriam tentar ser. Adaptáveis à fome, ao frio, ao calor, à solidão. Será morando com Fernando, brasileiro-revolucionário antes em Pequim, depois brasileiro-trabalhador-em-um-pub em Londres e depois, mais depois ainda brasileiro-segurança-de-biblioteca no Colorado, que Vanja vai descobrir que biologia e nação não são destinos, mas o quanto, ainda assim, é difícil se reconstruir a si própria quando não se sabe muito bem o que abandonar.

Na busca pelo pai biológico, ela encontra outros que também estão buscando, embora eles não saibam muito bem o quê. Como Carlos, o vizinho salvadorenho de nove anos que, junto com Fernando, se torna parte do trio improvável na busca pelo pai de Vanja. Iguais na diferença, eles vão ter, como mostra Adriana, uma uniformidade multiforme que será sentida por cada um em seu próprio dialeto. Fala-se inglês na escola e no trabalho; espanhol com os vizinhos e amigos; português em casa. Falar inglês (e qualquer outra língua), aliás, não significa pertencer. O sotaque está sempre presente também quando você acha que não está, e compartilhar palavras não é compartilhar imaginários, embora Carlos fique feliz cada vez que descobre palavras que, em português e espanhol, são iguais. Possíveis conexões, ligações. Podemos nos tornar amigos e não friends, ele vai dizer, habitado por toda latinidade emotiva que as duas línguas teriam capacidade de compartilhar.

Na terra estrangeira, as questões culturais não são fundamentais. Elas estão ali apenas como evidência externa daquilo que se sente na alma e que Sofia Coppola já havia mostrado em "Lost in Translation". Quão mais solitário pode-se ser estar sozinho na sua própria língua, na sua própria casa, nos seus próprios desejos? Depois de certo tempo, essas coisas deixam de ter importância, Fernando vai dizer. Mas depois de quanto tempo mesmo as coisas deixam realmente de ter importância? É bonito dizer certas coisas assim, mas vivê-las? Não parece tão bom, Adriana vai mostrar. O sofrimento no nosso corpo é sempre mais forte do que no corpo dos outros. E o que é realmente-realmente? O quanto será que gostamos de uma coisa sem que a tenhamos experimentado e imaginado várias vezes antes? Cerveja é sempre boa também no primeiro gole? Quantos vezes é preciso abandonar, desistir e renunciar para se tentar, experimentar novamente, continuar mais um pouco e nem sempre encontrar?

Vanja vai sentir o corpo doer na alma. Seu pai não está nos EUA, mas na África, mais um em busca daquilo que ninguém sabe bem o que é. A raiva dela é comovente quando descobre que sua busca é vã. Raiva de Fernando, raiva de Carlos, raiva das antigas amigas americanas de sua mãe, todas imprestáveis na hora de sofrer e amenizar o seu sofrimento. Raiva do Brasil, de Copacabana, raiva dos Estados Unidos, do Colorado. Sem a mãe e sem o pai, americana no Brasil e brasileira nos EUA, longe da África, ao que se pertencer? Onde está a sua essência? Quantos anos a mais de inglês para se nativizar? Quantas garrafas de cerveja beber para apreciar, sentir? Quanto sexo praticar para gostar, amar?

O que Adriana vai mostrar sem dramas é que a localização biológica e geográfica também não têm as respostas. E a possibilidade existente, muitas vezes sem garantias, está na liquidez do mundo moderno que Zygmunt Bauman com seu pessimismo criticou em "Amor Líquido", mas na qual Adriana prefere apostar. E existe outra opção? Que gosto deve ter, para um americano, beijar uma língua da America do Sul, pensa Vanja lá pelas tantas depois de beijar um americano. Que informações pode-se querer de alguém da América do Sul, pergunta-lhe outra colega. Adriana, a autora, sabe que, talvez, de fato, "they don't need any information from South America". Mas esta, como todos os seus estereótipos e as suas nacionalidades, são localizações desertas como todos os outros estereótipos e nacionalidades da América do Norte, e Vanja não quer residir ali, no vazio dos discursos pré-determinados.

Para os três, já não servem ligações previamente construídas como formas de subsistência para evitar a solidão. "Como nos podemos ligar?", eles parecem perguntar a todo momento. Quantas horas é preciso para se criar uma ligação? Quatro? Cento e sessenta? Uma vida toda? Onde se aprende o amor? As marcas de sofrimentos são visíveis já aos 13 anos? E é preciso escondê-las para se ser amada? Qual é o peso de um país, de uma cidade e de uma família na hora de pertencer? E pertencer a quê? Para abandonar o quê? E quanto de estupidez, vai dizer Adriana, existe por traz das filosofias amorosas, afetivas e nacionalistas que pregam o pertencimento humano?

Carlos, Vanja e Fernando não são tão adaptáveis, como gostam de dizer que são. Eles apenas falam do lugar daqueles que já estiveram entre os milhares (milhões, bilhões, o mundo todo?) que sabem o que é viver sem amor e afeto, mas fingem só precisar de água para poder existir. Eles sabem que podem sobreviver, porque têm sobrevivido, mas sobrevivido mal, em El Salvador, no Rio, na China, nos EUA. Como muitos outros em muitas outras partes. Eles sabem o que é ser azul, como só a melancolia pode ser azul. Podem voltar a ser adaptáveis como os corvos, como só os corvos podem ser adaptáveis. Mas, ao contrário do que diz a epígrafe de Heitor Ferraz (somos todos estrangeiros/nesta cidade/neste corpo que acorda), eles estão tentando não desertar o corpo e a vida que todos os dias os acorda. Eles sabem exatamente o que o azul-corvo do poema de Marianne Moore quer dizer. E eles não querem residir ali também. ('Azul-Corvo'; Adriana Lisboa; Alfaguara; 2014)

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