OPINIÃO

Amores Incertos

26/09/2014 13:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02
Getty Images

Primeiro livro da italiana Elena Ferrante traduzido para o português, "Crônicas do Mal de Amor" reúne, na verdade, três obras: "Um Estranho Amor"; "Dias de Abandono" e "A Filha Obscura". Ainda pouco conhecida fora da Itália, ou a mais conhecida das autoras italianas desconhecidas como diria o crítico americano John Wood, Elena parece ter ganhado notoriedade depois do artigo do mesmo Wood para a revista "The New Yorker", em 21 de janeiro de 2013.

Se Wood pressupõe que Elena Ferrante não seja o verdadeiro nome da autora, já que, entre livros e adaptações cinematográficas, a suposta napolitana continua a optar pela reclusão, custa-se a acreditar que ela seja, por outro lado, o pseudônimo de Domenico de Starnone ou Goffredo Fofi, como sugere o Wikipédia. Isso porque é quase impossível imaginar que um homem seja capaz de sentir a ansiedade e a angústia que as suas personagens provocam ao tentarem vivenciar a "experiência feminina" fora da noção ocidental do "ser mulher"/"ser mãe". Se, como diria Simone de Beauvoir, não se nasce mulher, mas torna-se mulher; também não se nasce para ser mãe, mas vai se aprendendo a ser-se função social ao longo da vida.

Colocando em xeque a naturalização do amor materno e feminino, Elena vai questionar uma "feminilidade" que, no Ocidente, localiza as mulheres pelo vazio de sentido e, portanto, dependente do amor de um homem e da necessidade de ser mãe como substitutos para a ausência do falo/significante. Suas personagens, cada uma da sua maneira, estão em diálogo direto com aquilo que a filósofa francesa Élisabeth Batinder chamou de "amor incerto", amor materno que não teria nada de natural, mas foi sendo cristalizado pelos discursos sociais que legitimaram a apropriação dos corpos das mulheres com base numa dita verdade biológica.

Destruindo a superfície das relações sem meias palavras, as mulheres de Elena vão ao limite da desconstrução ao tentarem romper com aquilo que a feminista americana Judith Butler chamou de "atos performativos". Ser mulher, ser mãe, amar os filhos e ser amada por eles: tudo isso é construído pela tradição e repetição de atos sociais, transformando as experiências femininas em corpos cuja a função é a maternidade. Aos menos habituados com as teorias pós-estruturalistas, avisa-se que Elena vai percorrer caminhos em que não há garantia de final feliz. Assumir responsabilidade pela própria vida é um escolha sem volta para as suas mulheres que precisam arranjar coragem para ser e pensar por conta própria.

Délia, a protagonista do primeiro livro, "Um estranho amor", retorna a Nápoles, cidade onde nasceu, para enfrentar o suicídio e enterro da mãe. Ao contrário das outras duas irmãs que vão embora quando o funeral acaba, ela inicia a sua jornada pelas histórias de "extraordinária beleza e bondade da mãe", Amália, "mulher de verdade". Para Ferrante, o amor entre mãe e filha não é apenas estranho, mas "molesto", o que, em italiano, está mais próximo da palavra problemático, importuno e até mesmo doentio. De fato, aquilo que se vê ao longo da história criada por Délia, a filha, é uma incapacidade de amar a mãe, amor este que, ao ser naturalizado, nunca é problematizado ou questionado na cultura ocidental. O que Délia vai mostra é que, se o amor materno não é natural, o amor filial também não é.

Nas memórias de Délia, vemos as tentativas da filha em se encontrar com a mãe, todas elas frustradas. Inventa histórias e memórias, lembra-se do pai a agredí-las e tem inveja da beleza materna. Mas nada disso é capaz de terminar com a "culpabilidade natural" de Amália. Ao repensar a existência da mãe, fica perplexa ao se dar conta de que tudo o que sabe acerca da progenitora causa mais horror do que compaixão. Aqui, Elena é brutal na desmitificação do amor dos filhos: não há bondade nas histórias da crianças, não há amor natural entre filhos e mães, não há perdão pela escolha do pai errado. Há maldade, há julgamento e há homens que utilizam a violência como única forma de se aproximar de uma mulher. A Amália-Nápoles é cruelmente assassinada pelas versões de Délia, do pai, do dito amante e da vizinha, violência simbólica esta que é sempre menos questionada do que a física. A Amália de Délia é uma mãe incapaz de amá-la como objeto primeiro de amor e sentido máximo da sua vida de mulher. Assim, a Délia de Ferrante parecer sofrer daquilo que o psicanalista francês André Green denominou de "síndrome da mãe morta", como se uma "falha do amor materno" gerasse filhos incapazes de confiar e de se sentirem merecedores do afeto dos outros.

Em "Dias do Abandono", o segundo livro, a personagem principal de Ferrante não tem poder de decisão algum quando comunicada pelo marido que vai ser abandonada. Tendo que renascer num mundo em que "ser mulher" é ainda ser complemento do homem, como esposa e mãe dos seus filhos, Olga inicia uma espécie de via-crúcis para repensar todos os sacrifícios e abdicações que fez ao longo da vida para construir uma família. Acreditando que, sem amor, as mulheres "se tornam gastas e mortas em vidas", ela vai quase enlouquecer ao relembrar os discursos tradicionais críticos da sua Nápoles natal. No manual de mulher só, ela não sabe escrever, silencia, não sabe reagir por si mesma, se torna filha dos filhos. Quando questionada sobre o seu papel de mãe, vai gritar: "E eu, onde estou?"

É dentro daquilo que Julia Kristeva chamou de tempo cíclico das mulheres, ou seja, tempo que não modifica a condição das mulheres na cultura do Ocidente, que Olga vai ter que reaprender a se reinventar. Dentro da certeza dos discursos, ela está fora das matrizes do pertencer, transformando-se em mais uma "pobre-coitada" por ser incapaz de segurar o seu homem e ser mãe dos seus filhos no seu espaço "natural" de atuação: o doméstico. Em pânico, sabe que precisa redefinir tempos gramaticais: era mulher de Mário, não é mais. É com dificuldade que vai "serenando imaginários interiores que a confundiam e que se sobrepunham numa capacidade de autodestruição e crítica quase mortal". Fora do papel em que uma mulher deve atuar, vai se permitir cair, envelhecer, ser má, não usar maquiagem e falhar. Sua desordem e o seu caos vão trazer um corpo desobediente, com cicatrizes, sem a pureza virgem da juventude, mas com outras imagens e falas mentais. Quando percebe que destruiu o discurso que dá significado às coisas, seu sofrimento é capaz de gerar um outro sentimento de plenitude e sair do vazio, ser suficiente para si própria, construindo o amor não como resultado da falta.

Por último, em "A Filha Obscura", Elena vai de vez ao drama do "ser mãe" ao mostrar o interesse de uma professora universitária por uma família napolitana que passa o verão na mesma praia de veraneio. Intrigada com a relação da mãe e da filha, e da filha com a sua boneca, Leda não vai conseguir deixar de se ocupar com a representação do papel de mãe que agastou-lhe durante toda a sua vida. Para ela, a cordialidade familiar é prepotente, moralista e falsa, por expor de forma quase ofensiva a constituição de grandes famílias que, para existirem, se apropriam sem pedir licença dos corpos das mulheres. Angustiada com a desordem ordenada daquela família, não hesita em afirmar que "não sentiu nenhum desgosto quando as filhas foram viver em Toronto, com o pai." Ao contrário: passou a sentir-se leve, sem preocupações.

Se, acerca da primogênita, pensou que podia mudar o mundo, sendo capaz de dar à criança a possibilidade de crescer em novas perspectivas de gênero e discursos, a segunda gravidez traz o peso esmagador da responsabilidade social, tornando-se uma obrigação que revela mais uma vez a obscuridade do amor entre mães e filhas. Aqui, não só vemos a inveja da mãe pela juventude das meninas, como também o tempo e a vida mensurados, perdidos e danificados, para dar vida a crianças. É, então, que Leda tem a certeza do desapossamento de si e a abdicação do seu ser para poder criá-las, já que o marido tem uma carreira similar, mas mais importante do que a dela para se fazer cumprir. Aquilo que começa como uma brincadeira de criança, com meninas cuidando de suas bonecas, passa a ser o destino das mulheres: "uma mãe não é mais do que uma filha a brincar", afirma. Questionando o viver pouco para si e muito para elas, Leda dispara: "amar de mais as meninas acabava por impedir-me de ser".

Talvez não seja por acaso que "A Filha Obscura" termine o livro. Ali, Ferrante expõe a presença constante da repetição de pequenos gestos que, como diria Butler, uma menina é ensinada a ter para, desde pequena, reproduzir o "ser mulher"/"ser função social". É dali que vem a sua crítica mais amarga: o mundo não parece melhor para/com as mulheres. Ainda. Ferrante pode ser um soco no estômago. Não se termina um livro seu sem angústia ou ansiedade. Mas ela sabe trazer a recompensa. Para aquelas que têm coragem, ela vai dizer: você não está só. E o caminho pode ser diferente.

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